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Networking por correspondência

Veja como o e-mail pode ajudar na busca por um emprego; confira trechos da carta que garantiu a Leonardo da Vinci um cargo de engenheiro militar

Viviane Zandonadi, Especial para o Estado

08 Maio 2015 | 19h58

O cultivo da rede de contatos, um pedido de recomendação a um amigo ou do conselho de um colega. Se usado da maneira correta, o e-mail pode encurtar distâncias na procura por uma vaga, na trajetória em busca de uma carreira diferente e rumo a, quem sabe, uma grande virada. As dicas de networking do portal da startup The Muse, por exemplo, costumam ficar gravadas na pasta "favoritos" do browser de muitos candidatos a um novo emprego. Entre elas há uma coleção de modelos de mensagens de e-mail compartilhadas por Alex Cavoulacos, uma das fundadoras da empresa dedicada a ajudar as pessoas a encontrar trabalho. As cartas são bastante simples e objetivas, sem margem para gafes. Conheça algumas das sugestões:

1.Você encontrou o emprego de seus sonhos e conhece alguém na empresa que está contratando. Escreva para essa pessoa, diga que soube da vaga, acha que ela combina com você e já que seu colega conhece o recrutador seria de grande ajuda uma recomendação. Jamais esqueça de encerrar a conversa com um agradecimento e de incluir, além do currículo, o link de sua página no Linkedin. Veja o template completo, em inglês.


2.Faz tempo que seu currículo foi enviado e não teve nenhum retorno. Escreva um email curto e profissional dizendo ao gerente responsável pela seleção que gostaria de saber a situação do processo seletivo e colocando-se à disposição para qualquer informação adicional. Veja o template completo, em inglês. 


3.Você foi chamado para a entrevista e está se sentindo confiante. Não esqueça de mandar uma mensagem de agradecimento para o entrevistador. No campo assunto, escreva obrigado (a) e comece agradecendo-o pelo encontro. Veja o template completo, em inglês. 


Já o filósofo Roman Krznaric sugere usar o e-mail em um exercício lúdico de autoconhecimento a fim de descortinar, quem sabe, novos talentos e oportunidades - a ideia é encontrar realização pessoal no novo emprego. No livro "Como encontrar o trabalho da sua vida", Krznaric sugere que o candidato a mudar de vida escreva um "anúncio pessoal de emprego". Saiba como:


1.Primeiro, faça o anúncio. Conte ao mundo, em meia página, muito sobre si mesmo: o que considera importante na vida, paixões, valores, causas, qualidades e características pessoais, o mínimo que está disposto a receber de salário, se aceita viver em outro país e assim por diante.

 

2.O próximo passo é fazer uma lista de "dez pessoas que você conheça de diferentes caminhos, distribuídas por diferentes carreiras - talvez um tio policial e um amigo cartunista", explica. 


3.Envie seu anúncio para essas pessoas por e-mail e peça que cada uma delas recomende três carreiras que combinem com o anúncio que escreveu.


4.Sobre o resultado, Krznaric escreve que o objetivo não é apenas apresentar ideias supreendentes de futuras carreiras, mas também ajudar a perceber possibilidades.


Correspondências notáveis (e bem-sucedidas). Muito antes do mensageiro eletrônico, o recrutamento e seleção incluía o envio de cartas e há alguns cases interessantes sobre isso. Pouca gente sabe, mas em 1493, ou perto disso, muito antes de pintar a Mona Lisa, o italiano Leonardo da Vinci soube que o governante de Milão Ludovico Sforza estava contratando engenheiros militares. Ao procurar emprego na corte, Da Vinci (ou um redator profissional contratado por ele) escreveu uma carta em que listava dez razões para ser contratado. Conseguiu. Dez anos depois, a pedido de Sforza, ele pintaria A Última Ceia. Conheça um pedacinho dessa carta:

"Tendo suficientemente visto e analisado as realizações de todos que se consideram mestres e artífices de instrumentos bélicos e tendo notado que a invenção e o desempenho dos ditos instrumentos em nada diferem dos que já estão em uso, tentarei, sem pretender desmerecer ninguém, expor meus segredos a Vossa Excelência e colocá-los à vossa inteira disposição e, no momento propício, pôr em prática todas as coisas sucintamente relacionadas a seguir:

1.Tenho projetos de pontes portáteis, muito leves e resistentes, pra perseguir e, eventualmente, escorraçar o inimigo, bem como de outras, tão robustas que nem o fogo nem a batalha conseguiriam destruir e, contudo, fáceis de instalar. Também tenho meios de queimar e destruir pontos do inimigo.

2.Sei retirar água de fosso e construir um número infinito de pontes, manteletes, escadas de mão e outros instrumentos necessários ao sucesso de um cerco.


(...)


10.Em tempo de paz, creio que posso atuar de forma plenamente satisfatória no campo da arquitetura, na construção de edifícios públicos e privados e no transporte de água de um local para outro.

(...)

E, se alguém julgar impossível ou impraticável qualquer um dos itens acima, estou disposto a demonstrá-los em vosso parque ou em qualquer local que seja do agrado de Vossa Excelência, a quem me encomendo com toda a humildade possível."

A história da correspondência de Da Vinci é contada no livro Cartas Extraordinárias, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Com o subtítulo "A correspondência inesquecível entre pessoas notáveis", a obra deriva do blog www.lettersofnote.com. São mais de 120 cartas organizadas por Shaun Usher, um britânico obcecado por correspondências e listas. Os autores são anônimos ou bem conhecidos, a exemplo de Albert Einstein e Fidel Castro (aos catorze anos). Transcritas e contextualizadas, as missivas oferecem uma profusão de descobertas interessantes sobre história, comportamento e relações sociais, entre elas outros quatro pedidos de emprego criativos que renderam a seus autores os trabalhos desejados. 


Shaun Usher revela, por exemplo, o caso do desenvolvedor de jogos Tim Schafer: em entrevista por telefone, ele admitiu que usava versões piratas de produtos de seu futuro empregador, a LucasArts. Para contornar a gafe, enviou à empresa uma carta-currículo bastante original em que simulava um jogo de caça-trabalho. Deu certo e ele foi contratado. Os famosos games de aventura The Secret of Monkey Island e Monkey Island 2: LeChuck's Revenge foram criados por ele. 


Outro caso interessante é o do roteirista Robert Pirosh. Em 1934, ele deixou um bom emprego em uma agência de publicidade e escreveu o pedido de emprego em uma carta inusitada que enviou para diretores, produtores e executivos de Hollywood. Conseguiu três entrevistas, uma vaga na MGM e, mais adiante, o Oscar e o Globo de Ouro de melhor roteiro pelo filme O Preço da Glória. A mensagem começava com um: "Prezado senhor, gosto de palavras." e terminava em "Gosto mais da palavra roteirista que da palavra redator, e por isso resolvi largar meu emprego numa agência de publicidade de Nova York e tentar a sorte em Hollywood, mas, antes de dar o grande salto, fui para a Europa, onde passei um ano estudando, contemplando e perambulando. Acabei de voltar e ainda gosto de palavras. Posso trocar algumas com o senhor?"

Já a escritora Eudora Welty tinha 23 anos, em 1933, quando redigiu uma espirituosa carta para a redação da revista New Yorker, elencando os próprios talentos. Introdução de sua missiva era bem humorada: "Imagino que estejam mais interessados até mesmo num truque de mágica que num pedido para trabalhar em sua revista, mas, como sempre, não se pode ter tudo o que se quer". De imediato, a resposta foi um ruidoso silêncio. Depois veio o espaço para que Eudora publicasse muitos de seus textos por ali. Em 1973, foi premiada com o Pulitzer de Ficção pelo romance The Optimist's Daughter.  

Para saber mais:

The Muse

Como encontrar o trabalho da sua vida (Ed. Objetiva)

Cartas extraordinárias

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