Nerds sem fronteiras

Fomos à Polônia e contamos detalhes do maior torneio de programação de PCs para universitários do mundo; Brasil pode receber final do evento em 2014

Carlos Lordelo, do Estadão.edu, enviado especial a Varsóvia,

28 Maio 2012 | 23h52

 

Um dia antes de o Facebook captar US$ 16 bilhões na bolsa, jovens alunos de Computação de 37 países disputaram, em Varsóvia, a final do maior e mais tradicional torneio de programação para universitários do mundo. A equipe campeã, no entanto, não foi a de Harvard, onde estudou Mark Zuckerberg, mas a da Universidade Estadual de Tecnologia da Informação, Mecânica e Óptica de São Petersburgo, na Rússia. Curiosamente, o país que disputou a liderança tecnológica com os americanos na segunda metade do século 20.

 

Conhecido como “batalha dos cérebros”, o International Collegiate Programming Contest (ICPC) existe desde 1970. Os 112 times finalistas deste ano se classificaram após vencerem etapas regionais que reuniram 25.016 alunos de 2.219 universidades de 85 países. O Brasil, aliás, está cotado para receber a final mundial em 2014. A do próximo ano será em São Petersburgo.

 

Os participantes fazem graduação ou pós em Ciência da Computação e áreas afins, como Engenharia e Matemática. Cada time tem três pessoas e um técnico, que pode ser um professor e, por isso, não compete. Seis equipes brasileiras foram a Varsóvia e representaram as Federais de Campina Grande, Paraná, Pernambuco e Rio, além da USP e do ITA.

 

A competição consiste em desafiar equipes a resolver problemas complexos de programação – este ano foram 12 – no prazo de cinco horas. Ganha quem solucionar mais problemas com menos tentativas e dentro do tempo permitido.

 

As questões têm níveis de dificuldade diferentes. A maioria é apresentada no contexto de uma situação real. Este ano, por exemplo, os participantes deveriam criar programas para aperfeiçoar rotas de avião, o trabalho de um robô aspirador de pó e o carregamento de contêineres. “O primeiro desafio é interpretar o problema para se chegar a uma expressão que possa ser resolvida com algoritmos elegantes”, diz o diretor executivo do ICPC, Bill Poucher.

 

O melhor time brasileiro – e latino-americano – foi o da Federal de Campina Grande: terminou no 47.º lugar (acertou 4 problemas). Um dos alunos, o paraibano Phyllipe Medeiros, de 19 anos, começa a estagiar na próxima semana na sede do Facebook. Passará três meses na Califórnia, no que ele espera ser apenas o início de uma longa carreira no Vale do Silício. “Você pode ter uma ideia legal e acordar rico.”

 

O sergipano Maurício Collares, de 23, já sentiu o gosto de estagiar na rede social. Agora suas atenções estão focadas em concluir a graduação em Matemática Aplicada na UFRJ, que leva em paralelo com o doutorado no prestigiado Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa). “Participar do ICPC e de outras competições de programação te abre não só oportunidades de emprego, mas de perceber que consegue fazer coisas úteis com as informações”, diz. “O Google, por exemplo, sabe da vida de muita gente. E ele usa esses dados para melhorar seu sistema de busca e ganhar dinheiro.”

 

Os finalistas são disputados por gigantes de TI. A IBM, patrocinadora do evento, oferece estágio ou trabalho para alunos dos 12 melhores times. “Aqui estão as cabeças mais brilhantes do planeta”, diz o diretor de Estratégia da IBM, Douglas Heintzman. “Eles entrarão na indústria num momento de transição para a era dos sistemas inteligentes, que demanda habilidades extraordinárias dos programadores.”

 

‘Garotas, nós podemos’

 

A competição ainda atrai poucas meninas. A romena Marina Horlescu, de 23 anos, que pesquisa inteligência artificial no mestrado da Universidade de Bucareste, não vê razão para isso. “Ciência da computação é moderna, abre possibilidades impressionantes.” A russa Olga Soboleva, de 20, da Universidade Federal de Ural, concorda. “Há um estereótipo de que mulher não sabe programar. Mas, garotas, nós podemos.”

 

Para Evgeny Kapun, de 22, bicampeão do ICPC pela Universidade de São Petersburgo, ser um bom programador significa ter “visão e entendimento especiais do mundo”. “Você analisa tudo como um sistema lógico que obedece regras. O mundo é similar a um computador.”

 

* O repórter viajou a convite da IBM

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.