Negros continuam a ser minoria no ensino superior

Em dez anos, aumentou a desigualdade entre brancos e negros ao se comparar freqüência e conclusão

Felipe Werneck e Wilson Tosta, de O Estado de S.Paulo,

25 de setembro de 2008 | 01h27

Em dez anos, aumentou a desigualdade entre brancos e negros quando se compara taxas de freqüência e de conclusão do ensino superior dos dois grupos, revela o IBGE. Em 1997, 9,6% dos autodeclarados brancos e 2,2% dos pretos e pardos, de 25 anos ou mais de idade, tinham curso superior completo no País. No ano passado, as proporções eram de 13,4% e 4%, respectivamente. Ou seja: apesar de a participação dos pretos e pardos ter quase dobrado, o hiato em relação aos brancos aumentou de 7,4 para 9,4 pontos porcentuais, no período.   Veja também: Em 2007, 19,2 milhões de pessoas migraram no País Apenas 4% dos negros ou pardos terminam o ensino superior Mais de 2 milhões de crianças matriculadas são analfabetas Cai o número de famílias com renda de até meio salário mínimo Confira os principais pontos da pesquisa  Confira a íntegra da pesquisa do IBGE (em pdf.)  Especial traça retrato do Brasil     "Os dados refletem a insuficiência dos esforços recentes. Significa que 96% dos negros (com 25 anos ou mais) ignoram o que é universidade. Ainda há muito a ser feito", disse o professor Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2007, a taxa de freqüência para estudantes de 18 a 25 anos que se declararam brancos (19,4%) era quase o triplo da registrada entre pretos e pardos (6,8%). No ano passado, 57,9% dos estudantes brancos de 18 a 24 anos estavam no nível superior - para pretos e pardos, o porcentual foi de 25,4%.   Paixão avalia que o resultado da Síntese de Indicadores Sociais "é um reforço para aqueles que falaram sim às cotas". Mas ressalva que a política pública no setor "foi mínima". "Ficou mais no plano das intenções." A divulgação ocorre no ano em que se completam 120 anos da Lei Áurea, e uma semana após o IBGE ter mostrado que a população de pretos e pardos (49,7% do total) superou a de brancos (49,4%) no País em 2007.   Para José Luís Petruccelli, pesquisador do IBGE, o debate sobre cotas nos País é "político-ideológico". "Desde a formação das universidades no País, nunca se fez nenhum tipo de política pública para atender aos grupos subalternizados", disse. "Até hoje se questiona o pouco que está se tentando fazer, e os resultados ainda não são nem visíveis." Segundo ele, as cotas criadas nos últimos anos, por iniciativa de cerca de 60 universidades públicas, afetam uma parcela muito baixa do total de estudantes. "Menos de 30% dos universitários estão em instituições públicas. Também há o ProUni, mas afeta cerca de 100 mil estudantes. Em 5,5 milhões, isso é muito pouco", disse Petruccelli.   O estudo mostra que os pretos e pardos de 18 a 25 anos não conseguiram alcançar, no ano passado, as taxas de freqüência que os brancos apresentavam em 1997. A diferença a favor dos brancos, que continuaram a apresentar níveis mais elevados em todas as idades, aumentou no período analisado: em 1997, era de 9,6 pontos porcentuais aos 21 anos, e chegou a 15,8 pontos em 2007. Ou seja: em 1997, a taxa de jovens de 21 anos freqüentando o ensino superior era de 2,6% para pretos e pardos, e de 12,2% para brancos. Dez anos depois, chegou a 8,4% para pretos e pardos, e a 24,2% para os brancos.   Aos 18 anos, a diferença aumentou de 4,9 pontos porcentuais em 1997 para 10,1 pontos no período. "Após uma década, a composição racial das pessoas que completaram o nível superior permanece inalterada, ou até mais inadequada, em termos de representação dos pretos e pardos, continuando a se constituir um obstáculo para a ascensão social destes", observa o IBGE.   Dos 14 milhões de analfabetos brasileiros, mais da metade (9 milhões) eram pretos ou pardos em 2007. Em termos relativos, a taxa de analfabetismo da população branca foi de 6,1% para as pessoas com 15 anos ou mais de idade, ante 14% para pretos e pardos, mais que o dobro. A média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais apresentou vantagem de quase 2 anos a mais para brancos (8,1 anos de estudo) em relação a pretos e pardos, com 6,3 anos.   O IBGE comparou os rendimentos por cor dentro dos grupos com mesmo nível de escolaridade. O rendimento-hora dos brancos era até 40% mais elevado que o de pretos e pardos, no grupo com 12 ou mais anos de estudo. Também foi comparada a participação relativa dos dois grupos na apropriação do rendimento das famílias. A distribuição entre os 10% mais pobres e entre o 1% mais rico mostra que, em 2007, os brancos eram 25,5% do total entre os mais pobres, e 86,3% dos mais ricos. Já os pretos e pardos representavam 73,9% entre os mais pobres, e apenas 12% entre os mais ricos.   Para o IBGE, os valores mostram que as desigualdades na apropriação da renda do País "têm se mantido ou até piorado um pouco, se comparadas com anos anteriores". Fundador da rede de pré-vestibulares Educafro, o frei David Santos disse que o estudo do IBGE "prova" que só é possível construir um Brasil com menos desigualdade de oportunidades se houver mais políticas de ação afirmativa "em função da realidade de cada etnia".   "Estou escandalizado com o número de negros que entram na universidade e não podem se manter porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus, não têm emprego garantido e por isso vivem em constante instabilidade", disse. Para David, o governo federal deveria ser "mais firme corajoso" na definição de políticas "diferenciadas de inclusão", como uma bolsa de ajuda financeira para os que entram em universidades públicas por meio de cotas e aqueles que ingressam em instituições privadas pelo ProUni.

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