'Não se adota um experimento como política', diz especialista sobre plano de cotas de SP

Especialista acredita que modelo proposto pelo Estado deveria ser testado antes

Sergio Pompeu, de O Estado de S. Paulo,

24 Dezembro 2012 | 10h03

Um dos mais respeitados pensadores da educação no País, o sociólogo Simon Schwartzman está fazendo um giro pelos Estados Unidos e pelo Canadá. Acompanhou a distância o lançamento do Pimesp, programa que cria cotas de 50% para alunos de escolas públicas nas universidades paulistas.

Para Simon, já na concepção o Pimesp parece melhor que o programa de cotas federal, porque propõe a criação de uma nova modalidade de curso, inspirado nos colleges americanos, para preparar o aluno saído da escola pública para o ensino superior. Mas ele adverte para o risco de se adotar em larga escala um projeto ainda não devidamente testado. Simon lembrou que o embrião do college paulista é um projeto adotado na Unicamp há dois anos, com turmas de apenas 120 alunos. “É um experimento e você não pode adotar um experimento como política.”

Qual é a impressão do senhor sobre o Pimesp?

O sistema de ensino superior paulista em geral precisa de mais inclusão. A situação hoje é que as universidades recebem 10% da receita do Estado e atendem um número relativamente pequeno de estudantes. Isso é difícil de ser mantido; elas precisam se abrir mais, procurar mais setores da população. O formato proposto em São Paulo é mais interessante do que o federal, que simplesmente estabeleceu uma cota e se limitou a isso. No caso de São Paulo eu vejo dois aspectos meritórios: um é esse experimento no nível de um tipo de college, outro é a ideia de que você vai dar apoio financeiro a estudantes de baixa renda, que precisam disso para estudar. Esses dois elementos dão ao projeto paulista um aspecto bastante interessante.

O senhor não tem reservas ao princípio das cotas em si?

Acho que a ideia de uma política de ação afirmativa, de fazer um esforço adicional para buscar estudantes que não tiveram oportunidade de fazer uma boa escola, é correta; é algo que precisa ser feito. A universidade não pode simplesmente se fechar e dizer: ‘Bom, não chegou aqui capacitado não entra’. A universidade tem a obrigação de sair em busca de estudantes que se beneficiariam da educação superior mas não passariam no sistema tradicional de avaliação. Na verdade, a gente sabe que esse sistema tradicional não é tão perfeito assim para selecionar os estudantes. Então, o movimento de ação afirmativa nesse sentido é uma coisa que eu acho correta. Agora, a maneira como isso está sendo feito é que é complicada. Porque não se sabe muito bem de onde vêm esses números (das metas do Pimesp) e a experiência do college ninguém tem no Brasil. As experiências do chamado ciclo básico do ensino superior no Brasil nunca deram muito certo. Não sei se as universidades paulistas fizeram uma avaliação dessas experiências do passado. Então não sei se esse modelo de agora, do college com dois anos, vai mesmo funcionar. A outra coisa que eu sempre achei absurda é usar critérios raciais nesse tipo de ação afirmativa. Mas essa é uma discussão da qual eu já desisti. Porque no Brasil parece que há uma unanimidade de que isso deve ser feito. Continuo achando que não deveria, mas aí sou voto vencido.

O college supostamente será misto, com conteúdos presenciais e online. Embora as possibilidades do online sejam reconhecidas por todos, o problema é que a parte presencial também é digital, o aluno vai ao polo e assiste material previamente preparado. Não falta professor aí?

Não conheço muito bem a experiência de Campinas, sei que lá já estão fazendo isso há algum tempo. Mas seria importante avaliar bem essa experiência, que eu tenho impressão que é de onde vem essa ideia (do Pimesp). São coisas que têm de ser experimentadas, avaliadas; fazer um pouco e ver se dá certo. Se der certo, você amplia, se não der certo, modifica. A USP tem uma experiência fracassada de criar uma entrada alternativa para estudantes mais pobres que é a USP Leste. Aparentemente não funcionou. Não teve o papel que a USP achou que ia ter. Então me preocupa um pouco que a universidade, talvez pressionada pelo contexto político, tenha se precipitado ao já anunciar um programa que vem com todos esses números e metas, quando poderia ter experimentado ainda, para ver o que tudo isso significa.

O programa da Unicamp pegou o melhor aluno no Enem de cada uma das escolas públicas de Campinas. Formou um grupo de 120 alunos e os resultados são relativamente bons.

Campinas é isso, um experimento. Eles estão trabalhando com um grupo selecionado de estudantes, que, embora possam não ter um desempenho escolar excepcional, se destacam nas suas turmas, então a chance de que tenham potencial é boa. E mesmo assim os resultados são da ordem de 50% (em termos de eficiência). Acho que vale a pena entrar por esse caminho, mas não pode ser feita uma coisa precipitada. O uso dos meios a distância, digitais, é em princípio útil. Mas tem de estar associado a bons professores, a bons monitores, alguém que acompanhe o aluno pessoalmente. Você não substitui a relação pessoal.

A ideia é adaptar os estudante ao ambiente do ensino superior presencial. Como fazer isso sem eles serem ‘apresentados’ à figura do professor universitário?

Tem uma coisa de cultura. Se o aluno optar por entrar na universidade, ele vai para um outro ambiente. E a cultura desse outro ambiente você aprende com os outros, na convivência com os professores, com os colegas. É muito difícil você transmitir uma cultura diferente para pessoas que não tiveram nada disso antes, tiveram uma educação básica de má qualidade, vieram de um contexto social pouco intelectualizado. E ainda fazer esse processo a distância? De novo: o digital é muito importante como um meio auxiliar, mas ele não substitui o professor em sala de aula. Em todo caso, são coisas novas, que você tem de experimentar. É um experimento, e você não pode adotar um experimento como política.

Um possível mérito do college é a oportunidade que ele traz de desengessar o ensino superior, ampliando o leque de opções para os alunos. Como o senhor vê isso?

É o famoso modelo de Bolonha, que os países da Europa estão adotando com alguma dificuldade, muito baseado nos modelos inglês e americano. Um ponto fundamental é que as pessoas são muito diferentes, pela motivação, pelo interesse, pela formação. Por isso você precisa criar no college um leque de alternativas muito grande. O aluno que faz o college e vai para a Fatec em lugar de seguir para a universidade não fez isso porque fracassou. Você não pode colocar desse jeito. É uma opção. Se o negócio dele não é matemática nem literatura, e sim mecânica ou outra coisa prática, ele vai caminhar para isso. Quem entrar no college para se preparar para uma carreira médica não vai fazer a mesma preparação do aluno interessado em engenharia. Esse é o modelo que pode funcionar.

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