Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

'Não podemos deixar nenhum aluno para trás', diz secretário estadual da Educação

Rossieli Soares conta que outra grande preocupação é com a possibilidade de alta na evasão escolar pós-pandemia

Iolanda Paz, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 10h45

Desde 27 de abril, alunos da rede estadual de São Paulo retomaram as aulas por meio do ensino a distância. A estratégia da Secretaria da Educação do Estado tem como base o aplicativo Centro de Mídias SP (CMSP) e os canais de televisão TV Educação e TV Univesp, além de material impresso complementar a ser entregue para os alunos. Nem todos os 3,5 milhões de estudantes, no entanto, terão acesso ao conteúdo, por falta de celular ou televisão em casa. “A única possibilidade que nós não queríamos era não fazer nada”, explicou o secretário da Educação Rossieli Soares, em entrevista ao Estado

De acordo com o secretário, os alunos que não tiverem como estudar a distância vão contar com um programa especial de recuperação, quando as escolas forem reabertas. Rossieli afirma que, na volta às aulas, o grande desafio vai ser evitar a evasão escolar. “Com o desemprego, muitas famílias podem precisar dos jovens ajudando em casa”, afirmou o secretário. “Precisamos mostrar a importância da educação para que os alunos voltem para a escola e permaneçam nela. Não podemos deixar ninguém para trás.” Confira, abaixo, o vídeo e os principais trechos da entrevista. 

Como foi montada a estratégia da Secretaria da Educação do Estado para promover ensino a distância por meio de aplicativo e canais de televisão? 

A única possibilidade que nós não queríamos era não fazer nada. Temos na rede estadual 3,5 milhões de alunos. Se conseguirmos resolver a situação de 2 milhões de estudantes, já estaremos muito felizes. Todo o desenho do que estamos fazendo considera isso. Primeiro, analisamos a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que mostra que 94% dos lares têm smartphone. Quando olhamos para computadores, o percentual é em torno de 35%. Ou seja, não seria viável criar algo só para uso no computador. Por isso, o aplicativo Centro de Mídias SP foi desenvolvido preferencialmente para smartphone. Como a internet é o maior desafio, fomos atrás de patrocinar os dados. Pagamos a internet e o aluno pode assistir à programação na televisão, interagindo dentro do aplicativo com quem está ao vivo no estúdio. No aplicativo, há outras funções, além de mais tempo de aula, dependendo da série. Mas a vantagem da televisão é ser muito democrática. Praticamente todos os lares têm um aparelho e não precisa de assinatura, porque é um sinal aberto da TV Cultura. Os alunos também vão poder ter chats com professores e o resto da turma.

O que vão fazer os estudantes que não têm acesso a celular ou televisão? Como essa situação será resolvida no período pós-pandemia? 

Se algum estudante não tiver televisão nem celular, ele vai entrar num grande programa de recuperação quando voltarmos. Primeiro, faremos uma avaliação diagnóstica para todos os alunos, já que precisamos saber em quais habilidades avançaram e em quais não avançaram. O segundo ponto é que faremos uma busca ativa pelos estudantes, porque nossa preocupação com o abandono escolar é grande. Com o desemprego, muitas famílias podem precisar dos jovens ajudando em casa, principalmente do Ensino Médio ou do 6º ao 9º ano. Precisamos mostrar a importância da educação para que os alunos voltem para a escola e permaneçam nela. O terceiro pilar será recuperação, suporte e apoio, com atividades de contraturno, com aulas extras e contratação de mais professores. Não podemos deixar ninguém para trás, e esse será um grande esforço. 

Quantos são os alunos sem acesso?  

Nosso maior desafio, neste momento, ainda não é ter ou não televisão ou celular. Nossa maior preocupação é saber se todas as famílias têm conhecimento do que está acontecendo, se têm a informação correta sobre os canais e os horários das aulas. Mas também estamos complementando uma pesquisa socioeconômica que tínhamos começado em fevereiro, com a ajuda das escolas, perguntando a cada aluno que tipo de aparelho tem à disposição. Hoje, não temos um número exato de quantos estão sem acesso. Se forem 100 mil ou 1 milhão de alunos, não vamos deixar de recuperar aqueles que não tiverem acesso. 

Que estratégias de comunicação têm sido adotadas para garantir que as famílias tenham a informação necessária?  

São várias estratégias. Do ano passado para cá, por exemplo, melhoramos muito a base de dados com contatos das famílias. Antes, tínhamos um cadastro com 100 mil, 200 mil telefones. Era muito pouco. Temos mais de 3 milhões de telefones depois do recadastramento. Claro que algumas pessoas já trocaram de número, mas hoje podemos enviar um SMS para esses telefones ou um e-mail para as famílias que têm. Também contamos com uma rede de contato muito forte nas escolas. Agora com os professores de volta, conseguimos ter uma comunicação direta com as famílias. Contamos ainda com a própria rede de estudantes: entre eles, há uma capacidade gigante de comunicação. Teremos ainda propagandas na televisão e nas rádios, que devem começar em breve. Além disso, um dos materiais que estamos entregando é um caderno de orientações, com explicações específicas sobre o Centro de Mídias e os canais de televisão. 

Como o desempenho dos alunos será avaliado? 

Conseguimos ter a documentação, por exemplo, se o aluno se logou ou não no aplicativo. Então, sabemos quanto tempo o estudante fica conectado. Poderemos enviar trabalhos digitalmente e ter avaliações online a partir do fim do mês, com um outro aplicativo específico para isso. Lógico que tudo é um perfil diferente, não é a mesma prova comum que o aluno poderia facilmente colar a distância. Quando os estudantes retornarem à escola, ainda teremos como pedir trabalhos para serem apresentados. Há uma série de formatos em construção.

Os professores da rede receberam treinamento para o ensino a distância? 

Temos feito treinamento e formação com os professores que vêm para o estúdio do Centro de Mídias SP. Com os professores que são das escolas, tivemos um replanejamento nos dias 22, 23 e 24 de abril. Tivemos uma formação sobre como usar o aplicativo, ouvindo também quais são seus problemas. Também trouxemos aspectos socioemocionais, já que no isolamento precisamos trabalhar muito com a saúde mental. É o suficiente? Não é. Por isso, a formação tem sido contínua. Estamos num processo de aprendizagem, temos plena certeza de que há problemas e desafios. 

Depois da pandemia, o que será aproveitado dessas novas ferramentas?

Acho que o Centro de Mídias SP não vai deixar de existir, seja para a formação de professores seja para a disponibilização de conteúdos complementares. Dar suporte aos jovens que mais precisam é algo transformador que a educação pode oferecer. Podemos fazer com que o estudante passe pelo currículo tradicional na escola, mas tenha outros incentivos no aplicativo, como reforço e curso preparatório para o Enem. Hoje, também temos a condição de dialogar com 100 mil, 150 mil professores a distância, o que não tínhamos antes. A tecnologia veio para ficar.

A secretaria vem recebendo críticas por estar fazendo presencialmente, desde 27 de abril, a entrega do material impresso nas escolas. Quais medidas de segurança foram tomadas para evitar possíveis contágios pelo novo coronavírus? 

Os materiais (livros, gibis e apostilas impressas) custavam R$ 19 milhões. Só a entrega pelos Correios sairia por quase R$ 30 milhões. Não seria nem prudente nem viável gastar mais com a entrega do que com o material. Mas criamos um protocolo muito rígido para essa entrega, com vídeo tutorial de como fazê-la, com marcação de distância no chão, com proteção aos funcionários e com horários agendados para não ter aglomeração. O período para a entrega pode durar duas semanas, talvez até três, justamente para haver segurança. Vamos ter vários tipos de entrega. Estamos utilizando transporte escolar para levar o material aos alunos de zona rural que moram distante, além de parcerias locais com empresas de logística e com a Polícia Militar, que está nos ajudando nesse processo. 

Sobre o anúncio de reiniciar as aulas presenciais em julho, como a previsão foi feita? E como esse retorno funcionaria?

Julho é uma possibilidade. Não anunciamos como uma certeza, porque a única certeza que temos, no caso da Educação, é que a Saúde vai determinar se realmente podemos ou não voltar. Mas, quando acontecer a volta das aulas presenciais, estaremos preparados. Temos de ter um equilíbrio na logística. Por exemplo, a secretaria precisa doar o alimento que está chegando próximo ao vencimento, mas ao mesmo tempo tem de deixar o depósito pronto para retornar as aulas o mais rápido possível. Quando isso ocorrer, será gradualmente, para não haver aglomeração. Uma parte dos nossos alunos vai à escola em um determinado dia da semana, ou seja, 20% dos estudantes estarão lá na segunda-feira, por exemplo. Esse aluno vai um dia presencialmente, entrega trabalhos, recebe outras tarefas, faz aulas de educação física e de arte – porque ele está saindo de uma quarentena e precisamos olhar para esse aspecto. Depois, continua acompanhando as atividades online. Na terça-feira, será a vez de outro conjunto de alunos ir à escola e assim por diante. Será um tempo nesse período de transição para que tenhamos certeza, no entendimento da Saúde, de que é possível retornar. 

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