Divulgação/USP
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'Não há como obrigar o candidato a declarar que está com covid', diz diretora da Fuvest

Primeira fase será realizada no dia 10 de janeiro; salas terão 40% da ocupação e uso de máscaras será obrigatório

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2021 | 12h00

Mais de 130 mil estudantes devem fazer as provas da primeira fase da Fuvest no próximo domingo, 10. O vestibular, principal forma de acesso à graduação na Universidade de São Paulo (USP), ocorre em meio à alta de infecções pela covid-19 em todo o Estado de São Paulo e sob regras de segurança, como uso de máscaras e distanciamento. Candidatos com sintomas da covid-19 não devem comparecer ao local de prova, mas, diferentemente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), não haverá chance de reaplicação do teste para estes alunos.

A diretora-executiva da Fuvest, Belmira Bueno, reconhece o risco de que candidatos com sintomas façam a prova, contrariando as recomendações. “Essa possibilidade sempre esteve presente, não há como obrigar as pessoas a declararem (a doença).” Nessa quinta-feira, 7, um estudante com suspeita de covid e febre foi impedido de fazer o vestibular da Unicamp

Um novo adiamento da Fuvest caso o Estado de São Paulo volte para a fase vermelha - a mais restritiva - do plano de reabertura também está descartado. A prova, inicialmente marcada para novembro de 2020 foi transferida para janeiro deste ano, mas não houve mudança no formato ou redução de questões.

Em entrevista ao Estadão, Belmira e Matheus Belloni Torsani, médico assistente da Fuvest, explicam como será o exame em meio à pandemia.

Por que a Fuvest não trabalha com a ideia de reaplicar a prova para candidatos com a covid-19, como fará o Enem?

Belmira Bueno: Vários aspectos impedem uma reaplicação. O vestibular está na dependência de uma resolução aprovada pela Universidade de São Paulo. Essa resolução nunca em anos anteriores e nem este ano previu reaplicação. Isso não está previsto. A Fuvest envolve população muito grande, de mais de 130 mil candidatos, aplicado em 34 cidades. É uma prova de enorme complexidade, além de que a elaboração das questões demora meses. Não é algo que se tenha a possibilidade de reaplicar, não temos esse tempo de reelaborar novas questões, é absolutamente impossível. Em editais e vestibulares anteriores sempre houve candidatos que tiveram alguma doença, imprevistos, acidente e nunca foi prevista a reaplicação. Não é má vontade, são dificuldades enormes. Demandaria meses para fazer a reaplicação e com isso estaria comprometido o ingresso no 1º semestre.

O Enem é outro tipo de prova, tem outras estratégias, não dá para comparar, são realidades muito distintas. Desejamos que nenhum candidato esteja contaminado ou com a covid comprovada no dia do exame. Mas, trabalhando com hipótese, imaginamos que serão poucos candidatos (contaminados) proporcionalmente ao número dos inscritos. É mais um elemento que inviabiliza a reaplicação da prova: é um dispêndio de gastos, energia, de tempo que inviabilizam por completo. Além do que, ainda que a contaminação muitas vezes seja absolutamente incontrolável e involuntária, essa ameaça deveria levar os candidatos a cuidar ainda mais da prevenção no período pré-vestibular. Essa possibilidade (de reaplicação) é nula.

Não há o risco de que candidatos contaminados compareçam ao local de prova, justamente porque não há possibilidade de reaplicação?

Belmira Bueno: Essa possibilidade sempre esteve presente, não há como obrigar as pessoas a declararem (a doença). Isso já estava posto e continua posto e, independentemente de ter ou não uma segunda prova, esse risco sempre esteve presente. Está estabelecido em várias legislações que todas as pessoas que souberem que estão contaminadas ou que tiveram contato com pessoas próximas devem ficar em quarentena. Estamos seguindo estas normas e princípios. Advertimos os candidatos para fazerem o mesmo, mas, se não cumprirem, é algo que extrapola nosso controle. Não creio que uma segunda prova minimizaria isso. Também poderá haver candidatos que não tiveram a indicação de que estão contaminados (sintomas) e estarão lá. O que nos cumpre foi adotar todas as normas possíveis e exequíveis para minimizar o contágio.

As normas da Fuvest estão baseadas na classificação na fase amarela do Plano São Paulo. No Natal e réveillon, o governo colocou o Estado na fase vermelha por alguns dias. Caso haja novo recuo para a fase vermelha ou laranja, a Fuvest cogita adiar a aplicação da prova?

Belmira Bueno: Não. A situação da fase vermelha hoje não está em execução. Além do mais, tomamos precauções que dizem respeito ao Centro de Contingência do Estado de São Paulo.

Matheus Torsani: Essa foi uma preocupação. Quando veio o decreto de fase vermelha, ficamos preocupados porque nossa prova estava próxima. Uma reunião do centro de contingência já aprovou nosso protocolo. Eles consideraram as provas de residência e exames de vestibular como atividades essenciais, então elas vão acontecer desde que baseadas em normas de segurança. Eles adotaram que mesmo que exista retrocesso (com reclassificação do Estado em fases mais restritivas), as normas que adotamos são suficientes para garantir a segurança dentro desse objetivo específico que é um exame. Na prova, as pessoas falam pouco, há uma série de especificidades que diminui muito o potencial de contaminação. O objetivo é tornar o mais segura possível a aplicação de algo que é de extrema importância.

O que deve fazer um candidato que acordou no dia da prova com sintomas da covid?

Belmira Bueno: Ele não deve comparecer à prova. Assim como não deve ir a uma festa, a um evento qualquer. É o mesmo princípio.

Matheus Torsani : O pedido é para que o candidato sintomático não procure os locais de prova. Vão existir furos? Sim, infelizmente. É claro que a gente também considera que a maior parte dos jovens pode ser assintomático, por isso adotamos medidas para minimizar o risco de transmissão.

Candidatos que fazem parte do grupo de risco para a covid terão uma sala especial?

Matheus Torsani: O que pedimos é que as pessoas que estavam preocupadas e se sentiam ameaçadas por estar no grupo de risco entrassem em contato conosco. Temos um sistema de Fale Conosco e recebemos demandas e fazemos adequações caso a caso. Estamos super abertos e a equipe médica estará disponível o tempo todo durante a prova.

Belmira Bueno:  As pessoas que são de grupo de risco já bem definido tiveram a oportunidade, na inscrição, de dar essa informação e a Fuvest exige para esses casos atestado médico. Esses casos que já estão bem definidos estão todos previstos para salas especiais. Casos não previstos podem entrar em contato conosco e a equipe médica analisa e toma a decisão necessária. Mas não temos como prever todas as situações. Por isso estaremos de plantão, toda a equipe da Fuvest, incluindo a equipe médica, para atender imediatamente às situações imprevistas.

Essa declaração no ato da inscrição levava em conta aspectos do grupo de risco para covid especificamente ou eram relativas a outras comorbidades?

Belmira Bueno: Na maioria dos casos, está previsto porque são comorbidades já incluídas entre os grupos de risco (para a covid). Mas a questão da faixa etária não está prevista. Alguém que vai prestar vestibular e tem idade acima de 60 anos, isso não está incluído (nas salas especiais).

O candidato que tem mais de 60 anos pode entrar em contato com o Fale Conosco da Fuvest e ser remanejado para uma sala diferente se existir essa possibilidade no local de prova?

Belmira Bueno: Sim.

Como evitar aglomerações na entrada da prova? Não haverá escalonamento da entrada?

Belmira Bueno: Não teremos alguém no portão dizendo se os candidatos podem ou não ultrapassar a entrada e já adentrar o local do exame. Contamos com a colaboração extrema dos candidatos. Se tem uma hora para entrar, pode chegar ao meio-dia. Não havendo muitos candidatos ali, já pode entrar e ir imediatamente para sua sala. E se chegar mais tarde e perceber que há alguma aglomeração, é de bom senso que ele se distancie e se aproxime à medida que a aglomeração vai se desfazendo.

Matheus Torsani: A Fuvest será em 148 escolas, então a ocupação por escola é bastante diminuída se comparada à prova de residência (houve aglomeração de candidatos nessa prova). Quem costuma gerar muita aglomeração na entrada são os cursinhos. Reforçamos com eles a importância de não gerar aglomeração na porta das escolas. Nossa orientação é: chegou na escola, entre e fique dentro da sala. Ninguém poderá ficar no corredor. Dentro da sala, temos ambiente de segurança controlado, com janelas e portas abertas, ar-condicionado desligado, distanciamento adequado, álcool em gel para usar, álcool líquido para limpar a mesa. Aferir a temperatura na entrada traz um potencial de aglomeração e, por isso, não adotamos neste vestibular. A prova de residência tinha 8 pessoas medindo a temperatura, mas isso gerava filas.

Qual o número de alunos máximo por salas?

Matheus Torsani: A Fuvest já trabalhava com número reduzido de alunos para evitar cola, que gira em torno de 80% de ocupação. Diminuímos este ano pela metade, portanto a ocupação será de 40%. E garantimos o distanciamento das carteiras. O parâmetro a ser observado é o distanciamento entre as pessoas. O aluno não terá ninguém do lado nem atrás dele.

Foram feitas análises de cada sala para saber se a ventilação é adequada? Mesmo salas com janelas podem não ser suficientes para a dispersão das partículas

Matheus Torsani: Ar-condicionado desde o começo foi descartado porque teria de ter filtro e troca frequente e não tínhamos como garantir isso, porque os espaços são alugados. No check-list inicial de visita às escolas, colocamos itens voltados à biossegurança. Antes de a escola ser selecionada (como local de prova), na primeira visita, já havia itens que tinham de ser observados, dentre eles a ventilação das salas de aula. A ventilação natural garante que o vírus não fique circulando na sala.

Houve algum parâmetro para medir a ventilação, além da observação visual da sala?

Matheus Torsani: Desconheço métodos de medida de ventilação.

Há um plano de contingência caso algum candidato na sala, durante a prova, ou mesmo um aplicador manifeste sintomas da covid, como tosse ou febre?

Belmira Bueno: Sobre o aplicador, é mais fácil porque temos coordenadores suplentes, que poderão ser disponibilizados. Temos fiscais em número maior do que o número de salas. Se acontecer qualquer coisa desse tipo, eles podem assumir a condução de uma sala. Com relação a candidatos, cada caso será analisado, a equipe da Fuvest terá de ser imediatamente informada para sabermos como proceder em cada um desses casos.

Matheus Torsani: Estaremos disponíveis durante a aplicação da Fuvest para dar o suporte. Para o candidato que precisar de auxílio médico, podemos entrar na escola, para ver a situação. Se o aluno está com sintomas pode ser colocado em lugar aberto para minimizar risco de contaminação para outros candidatos. Estaremos disponíveis o tempo todo para pensar soluções no momento em que as questões acontecerem.

Não há uma sala para um certo isolamento de pessoas com sintomas?

Matheus Torsani: Algumas escolas têm salas livres que podem ser ocupadas. Mas isso de colocar em uma sala nos preocupa porque algum colaborador teria de estar com o candidato e não queremos expor o colaborador em uma sala fechada com o candidato sintomático. Em caso de candidato sintomático, pensamos em eventualmente colocar em espaços abertos. Os fiscais também estão orientados para, ao ver um candidato muito sintomático, conversar com ele e perguntar se não quer ficar um pouco fora da sala, tomar um ar fora da sala para também não gerar um estresse nos demais candidatos.

O candidato sintomático poderá continuar fazendo a prova?

Belmira Bueno: O fato de estar tossindo ou espirrando ou com febre não comprova que está com a covid, então não podemos impedir esse candidato de continuar a prova. É um risco? Sim, mas temos de contornar essa situação se ela ocorrer durante a prova. Anular a prova de um candidato é um processo seriíssimo.

Há um parâmetro de máscaras mais adequadas que os candidatos devem usar?

Belmira Bueno: Recomendamos máscaras cirúrgicas, N95, as que apresentam maior segurança, mas também não temos como obrigar candidatos a adotarem a menos que pudéssemos dar para eles. Mas dar para eles implicaria em tanto manuseio que escaparíamos de um risco e cairíamos em outro. Recomendamos que levem máscaras de reserva, não especificamos um modelo, contanto que cubram bem o nariz e a boca.

Panejam fazer o rastreamento posterior à prova? Um candidato que faz a prova e, depois de alguns dias, manifesta sintomas deve ligar para a Fuvest para que vocês comuniquem os demais candidatos da mesma sala?

Belmira Bueno: Não fizemos essa previsão, mas pode até ser aplicada porque depende apenas de um procedimento posterior e não prévio. Estamos zelando pela aplicação da prova, mas é claro que esse rastreamento é importante.

Matheus Torsani: É uma ideia interessante. Do ponto de vista de vigilância, devemos sim informar os outros candidatos e oferecer orientação. É claro que o potencial de transmissão na sala é baixo, mas orientamos que os candidatos com casos confirmados nos 14 dias após a prova entrem em contato com a gente. Esse contato pode ser feito pelo Fale conosco da Fuvest.

Há uma estimativa de gasto adicional com a Fuvest este ano?

Belmira Bueno: Houve aumento do número de pessoas contratadas para trabalhar na Fuvest. No ano passado tínhamos 7 a 8 mil pessoas trabalhando na Fuvest ao todo, durante todo o processo. Agora, estimamos que vai ultrapassar 12 mil pessoas. O valor arrecadado com as inscrições é absolutamente insuficiente para cobrir gastos que temos e ainda teremos. Este vestibular, do ponto de vista financeiro, será negativo para a Fuvest, mas achamos que vale a pena fazer assim porque o mais relevante é garantir que um ano não seja perdido, o número de matrículas na USP não seja desperdiçado e não haja atraso no ingresso no 1º semestre. 

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