Tiago Queiroz/Estadão - 06/10/21
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Rosely Sayão
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Não fazer de conta que nada aconteceu

Algumas escolas têm exagerado na transmissão dos conteúdos escolares e na pressão aos alunos porque buscam diminuir o prejuízo do atraso ocorrido. Acontece que crianças e adolescentes não são os mesmos de quando as escolas fecharam

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2022 | 05h00

As escolas estão em pleno funcionamento, quase todas elas. Uma e outra turma são suspensas por alguns dias por infecção de aluno ou professor. Mas, pelo menos por enquanto, podemos explicar que, em breve, eles retornarão às aulas. Isso é animador, depois de tanto tempo sem sabermos quando as escolas voltariam a abrir e sem ter o que dizer aos filhos.

Boa parte dos alunos está entusiasmada com o retorno. Voltar ao convívio dos colegas, encontrar-se com os professores, sair de casa e do círculo familiar, oferece a eles um respiro, uma trégua boa principalmente na questão emocional.

Por falar nisso, há alunos angustiados, manifestando medo de ir para a escola, receio de ficar doente e de morrer. É compreensível, não é? Devemos dar a essas crianças e jovens todo o apoio necessário: compreender o sofrimento deles, acolher, procurar ajuda profissional, quando for o caso, encorajar e, principalmente, não menosprezar a dor deles.

O que os pais devem esperar das escolas nesse momento? Primeiramente, que elas não façam de conta que nada aconteceu nesse longo período. Muitas mães e pais têm reclamado disso. Algumas escolas têm exagerado na transmissão dos conteúdos escolares e na pressão aos alunos porque buscam diminuir o prejuízo do atraso ocorrido.

Acontece que crianças e adolescentes não são os mesmos de quando as escolas fecharam. Passaram por muitas situações dolorosas e manifestam – ou manifestarão – reações emocionais e físicas que podem durar muito tempo: meses e até anos.

A mãe de dois garotos entre 9 e 11 anos foi orientada pela escola a procurar um profissional para os filhos porque eles não estavam conseguindo se concentrar nas aulas.

Pois então: a falta de concentração pode ser consequência do chamado estresse pós-traumático.

As escolas devem estar preparadas, portanto, para trabalhar, simultaneamente, com a aprendizagem dos alunos, com sua adaptação a esse novo período, com a busca do convívio coletivo respeitoso e solidário, com o corpo dos alunos e com as reações emocionais que os alunos possam apresentar.

Parece muita coisa, mas a escola que faz a formação continuada de seus professores, apoia a docência diariamente, trabalha em equipe e planeja cuidadosamente seus trabalhos consegue dar conta dessa missão atual.

ROSELY SAYÃO É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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