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Não existe ano perdido

Para a psicologa Rosely Sayão os erros cometidos pelos professores e pais neste tempo servirão de aprendizado: 'Ninguém, em qualquer idade, perde um ano de vida'

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00

Nas últimas semanas, ouvi mães, pais e professores de crianças e de adolescentes a respeito dos estudos remotos nesta época de escolas fechadas, e do acompanhamento que precisam fazer com eles. Alguns vieram em busca de orientação, outros trouxeram suas descobertas, reclamações e até angústias com a experiência.

Foram poucas as dúvidas em comum desses educadores – tanto formais quanto informais –, mas uma questão esteve presente em todas as conversas que tive com eles. A frase “Este ano está perdido” surgiu muitas vezes, tanto em modo afirmativo quanto interrogativo. Tive a impressão de que essa ideia se transformou num bordão porque, quando interrogados a respeito do sentido disso para eles, poucos foram os argumentos surgidos que justificassem a afirmação ou a pergunta.

Então, vamos lá: ninguém, em qualquer idade, perde um ano na vida. Em situação nenhuma.Criamos a ideia, com o total apoio das instituições escolares e dos organismos que as regulam, que o aprendizado escolar tem relação quase que exclusiva com conteúdos específicos do conhecimento, não é? Ouvi uma mãe se referir à “grade curricular” da escola que seu filho frequenta, por exemplo, para apontar o quanto faltou para ele aprender.

Acontece que as aprendizagens das crianças e dos adolescentes não se restringem ao conhecimento e/ou memorização desses conteúdos: é algo bem mais complexo que ocorre, inclusive, na interação entre os alunos e professores, quando na escola, ou com os pais, em casa. Nem conhecemos muito bem como e quando as aprendizagens ocorrem, mesmo com todo o planejamento escolar. Acontece, muitas vezes, de um plano de aula estabelecer um determinado desencadear de explicações que devem promover um determinado aprendizado, e – surpresa! – ocorre um aprendizado de algo diferente do planejado.

Já a experiência parental no acompanhamento ativo dos estudos remoto dos filhos foi tema de longas conversas. Para a maioria das mães, a experiência tem sido dolorosa. Algumas não conseguiram manter os filhos focados nesses estudos e outras contaram das brigas quase diárias.

Ao ouvir as histórias dessas mães, eu me lembrei de uma cena do filme Extraordinário. O protagonista, um garoto que nasceu com uma deformidade no rosto, vai à escola pela primeira vez aos 10 anos, tendo realizado o ensino domiciliar, com a mãe, até então. Uma adolescente, amiga da irmã, pergunta a ele como tem sido a experiência na escola. Depois de pensar um pouco, ele responde: “É mais fácil do que estudar com minha mãe”.

Dá para perceber que as mães não conseguem sair de seu papel. Uma delas, bem jovem e criativa, até tentou: criou a “hora de escola” com o filho, comprou um guarda-pó e disse que nesse período ela não era mãe e, sim, professora. Alguns dias foram legais, mas outros não. E, conversando com o filho sobre os dias em que a brincadeira não funcionou, ouviu, muito surpresa, essa: “Você é uma professora muito brava”. É isso não conseguir sair do papel parental: mesmo sem querer e sem perceber, colocamos as nossas expectativas sobre os filhos, o que os coloca sob pressão intensa nos estudos.

Os relatos mais tocantes ouvi de professoras, tanto de escolas particulares quanto de públicas. Estas tiveram de se virar com os próprios recursos para tentar alcançar alguns de seus alunos com o ensino remoto. Orientação da escola a elas? Quase nenhuma. Exigências? Inúmeras!

Muitas, inclusive, tiveram de dedicar um bom tempo aos pais dos alunos, por mensagens instantâneas, e ensinar a eles o básico de informática para que eles pudessem ajudar os filhos. Mas professoras de escolas particulares não deixaram de lamentar a solidão nesse período e o abandono que sofreram por parte da escola.

Não: o ano não foi perdido para os alunos, e os erros cometidos pelos professores e pais neste tempo servirão de aprendizado. Que o filme Extraordinário nos inspire a agir sempre com dignidade nas situações adversas e a ter compaixão porque, como dito no filme, todos travam suas batalhas pessoais. 

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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