Marco Weyne
Marco Weyne

'Não abrir escolas em 2021 é um crime contra a infância', diz pediatra

Grupo liderado pelo especialista Daniel Becker lança campanha pelo ensino presencial. Segundo ele, é preciso 'acabar com a ficção de que escola é um lugar perigoso' durante a pandemia

Entrevista com

Daniel Becker, professor da UFRJ

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 14h00

É preciso mostrar para a sociedade que a escola é essencial, e mais, que é segura durante a pandemia de covid-19. Essa uma das mensagens principais da campanha Lugar de Criança é na Escola lançada por pediatras nas redes sociais. Um dos coordenadores do grupo, o pediatra e sanitarista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Daniel Becker diz se preocupar com o momento de piora da pandemia no País, mas acredita que é preciso uma mobilização da sociedade para ter a educação funcionando, seguindo todos os protocolos. Segundo ele, as pesquisas já mostraram que as crianças se contaminam menos e transmitem menos o vírus. “A atividade não escolar tem mais risco que a escolar. Se a criança está indo com a mãe fazer compras, em loja, supermercado, tem risco maior do que se ela for à escola. Vamos acabar com essa ficção que escola é o lugar mais perigoso que existe.” 

Ele diz compreender o medo de professores que trabalham em escolas sem estrutura, mas afirma que todos precisam cobrar investimentos públicos e privados para que elas sejam adaptadas para abrir. “A sociedade está adormecida. Estamos com 40 milhões de crianças sem escola e ninguém fala nada. É um elemento central do nosso desenvolvimento.”

Decker ainda enumera os prejuízos à saúde para crianças isoladas em casa que os pediatras passaram a ver nos consultórios, como sedentarismo, problemas graves de comportamento, sintomas psicossomáticos como dores, diarreia, falta de sono, excesso de demanda dos pais. E teme um cenário em que as escolas não sejam reabertas em 2021. “Seria um crime contra a infância e uma negligência absurda da sociedade”.

A campanha tem umas das peças para redes sociais dizendo que crianças pegam menos e transmitem menos a covid, isso já é consenso?

Sim, e cada vez mais as pesquisas extrapolam ainda para o fato de que escolas são seguras. Crianças de menos de 5 anos transmitem menos o vírus. Crianças quase não adoecem, são muito raros os casos graves e a letalidade é quase inexistente. É muito mais grave para uma criança pegar influenza do que covid. Ela pode estar com o coronavírus nas vias aéreas, mas transmite menos, não se sabe muito bem por que. Uma das hipóteses é porque ela é pouco sintomática, tosse pouco, tem pouco catarro. Tem também uma questão celular, os receptores por onde os vírus penetram nas células. E ainda a imunidade cruzada: a criança, por ter contato com muitos desses quadros justamente por causa da escola, adquire uma imunidade. Essa hipótese favoreceria a proteção dos professores. Um estudo na Escócia, com de 300 mil profissionais de saúde, mostrou que quanto mais filhos eles tinham, menor risco de terem casos graves, bem impressionante. 

Então ficar perto de criança até ajuda?

Sim, provavelmente é protetor. Mesmo a criança mais nova, que não tem condição de usar máscara, como ela transmite pouco, isso é menos problemático. Os casos e surtos em escola são quase sempre trazidos por adultos, em surtos entre adultos. E adultos que estão lá fora, em ambientes desprotegidos e vão trazer o vírus para a escola. Ao contrário do que se pensa, a escola não aumenta os níveis de transmissão comunitária, vários estudos mostram isso. Nova York fechou as escolas e acabou de reabrir por pressão enorme de cientistas, na Europa estão mantendo as escolas abertas porque é seguro. 

O foco da campanha é conscientização?

Nosso foco é a escola pública porque a privada já tem bastante recursos. Na pública, as iniciativas de educação a distância foram pífias, a grande maioria não tem computador, nem celular para acompanhar, internet precária. Escola tem um valor fundamental para todas as crianças, em especial para as mais vulneráveis. É indiscutível e ninguém estava olhando para isso. A impressão que dava era que a sociedade estava adormecida, tem 40 milhões de crianças sem escola e ninguém falando sobre isso. Não é possível, tem que acordar. Até porque se nada mudar, em 2021 também não vai ter aula. Se as escolas continuarem a não ter estrutura, com poucos profissionais, excesso de alunos, sem ventilação, sem sabonete e água... Os relatos dos professores são dramáticos. Se alguma escola estiver aberta em março e abril, quando temos alta estação de viroses, muitas crianças com febre, sem testagem, sem convênio com a saúde, sem protocolos, sem saber o que fazer, as escolas vão fechar em série. Vai chegar no final do primeiro semestre sem nenhum aula. Ou vai ser um ano super precário ou um ano sem aula, isso é totalmente inadmissível. 

Aqui na cidade de São Paulo, a Prefeitura argumenta que não libera mais a escola porque 70% das crianças são assintomáticas e podem transmitir sem perceber. Isso é válido?

Isso está praticamente superado pela ciência. Escolas não são ambientes de transmissão, crianças assintomáticas praticamente não transmitem, principalmente as menores. 

Por que alguns professores ainda têm muito medo?

Isso é mais do que compreensível e justamente um dos motivos dessa campanha foi poder trazer os professores para o lado da infância. Eu teria medo também de atender em condições muito ruins. Tem que pensar na nossa vida. A educação sempre foi negligenciada no Brasil, as salas não têm ventilação, falta professor e não tem quem reponha, imagina isso no contexto de pandemia com uma série de providências e protocolos. Cada vez que a gente fala em abertura das escolas, eles sacam as espadas. Tem pessoas sendo atacadas em redes sociais por professores. Mas, por outro lado, somos profissionais envolvidos com a infância, precisamos olhar para o que está acontecendo e não ficar esperando que alguma coisa aconteça. Tem que se engajar para que as escolas possam voltar, precisamos de política pública, investimento, participação comunitária. As escolas particulares, empresários com muito dinheiro, conglomerados financeiros têm que participar. A gente quer os professores do nosso lado, do lado das crianças, não ficarem dizendo que não vão trabalhar. Venham reivindicar que as escolas estejam prontas. 

O que precisa ser feito, de fato, nas escolas?

Não são grandes reformas que precisam ser feitas, são processos, não pode ter um professor para 40 alunos, precisa de 2 para revezar a turma, arejar a sala, ter água corrente, máscaras, protocolo de treinamento dos professores e das famílias, tem que ter preparo das aulas ao ar livre. A atividade ao ar livre é mais segura disparado, a transmissão é praticamente nula. As secretarias de educação precisam se articular com a saúde, saber o que fazer quando uma criança tiver febre, tem que ter contato com posto de saúde próximo para trabalhar em conjunto em caso de surtos ou febre. Convênios com parques, jardins, pátios de igreja, clubes, para que haja possibilidades de atividade ao ar livre, brincadeiras, aula de biologia. A natureza não só protege da pandemia, mas é quase uma panaceia para a criança. 

Acredita que estamos caminhando para um cenário de não voltar a escola no ano que vem?

Seria um crime contra a infância e uma negligência absurda da sociedade. Quando tem um ano de perda de escola, tem perda de produtividade, de empregabilidade, de proficiência, uma queda gigantesca no PIB.

Mas e se pandemia estiver descontrolada?

A OMS afirma que se 95% das pessoas usassem máscaras, se a gente conseguisse evitar realmente aglomerações e fizesse esse pequeno sacrifício de fechar bares e restaurantes, em nome de você poder voltar com aulas para as crianças, que são as mais vulneráveis, as mais frágeis, as mais sofridas desse País… Em vez de não voltar as aulas, vamos fechar outras atividades e serviços. Porque nas escolas eu sei que há segurança, no restaurante sei que não há. Escolas deveriam permanecer abertas mesmo em lockdown, a não ser que tivesse uma catástrofe absoluta

Quais são os prejuízos para a saúde da criança fora da escola?

São brutais. Crianças que não vão para escola e têm pais que estão trabalhando, seja em casa, seja fora, são crianças largadas a maior parte do tempo, sedentárias. O corpo infantil é feito para o movimento, senão ele adoece física e emocionalmente. Além disso, esse mergulho excessivo da tela está trazendo enormes prejuízos para crianças, vício, problemas graves de comportamento, de visão, de perda de desenvolvimento. E aí vai para uma espiral descendente de sintomas depressivos, distúrbios de apetite, adoecimentos. Nós pediatras nos mobilizamos porque a gente estava vendo um batalhão de crianças com problemas graves de comportamento e expressando muita dor psíquica, desde sintomas psicossomáticos como dores abdominais, diarreias, falta de apetite, até comportamentos de hiperatividade, seletividade, grude nos pais, excesso de demanda, problemas de sono. Tudo ligado a confinamento, falta de contato social e da falta da escola, que é essencial para a saúde das crianças, com socialização, atividade física, brincar, contato com outras crianças e professores, tudo isso é importante, não apenas o ensino formal.

Em que condição os pais não devem mandar o filho para a escola? 

É caso a caso. Crianças de grupo de risco, que tenham doenças específicas, muitas dificuldade de usar máscara por questões neurológicas, que tenham alguém de grupo de risco em casa muito elevado, muito idosos, diabéticas, cardiopatas. Não existe risco zero. Tem que avaliar risco e benefício. Claro que risco de uma vida é importante e superior a uma perda de escola presencial, mas isso também é muito relativo. Como a escola é um lugar seguro e bem estruturado, tem que avaliar caso a caso. Se uma criança tem idoso em casa e o risco de ela pegar é baixo, ela pode ir. Porque ela pode pegar influenza também, passar para o idoso e ter um caso gravíssimo. E nunca fechou a escola por causa disso. A covid é muito menos transmissível por crianças do que o influenza. Claro que não se pode forçar nenhuma família a mandar sua criança para a escola, a gente tentar mudar essa cultura, mostrar que a escola é segura e oferecer ensino remoto para quem preferir.

E os pais que alegam que os filhos veem os avós e não querem perder esse contato?

Nao tem como garantir que essa criança nao vai pegar covid numa superfície quando ela foi passear ao ar livre e não vá contaminar o avô. A atividade não escolar tem mais risco que a escolar. Se essa criança está indo com a mãe fazer compras, em loja, supermercado, tem risco maior do que se ela for à escola. É mais uma vez uma questão de conduta de cada família, mas vamos acabar com essa ficção de que escola é o lugar mais perigoso que existe. 

Há ainda aqueles que acham que a escola só devia funcionar depois da vacina. 

A gente não tem como depositar na vacina uma esperança messiânica, que ela vai chegar e tudo terminar. Mesmo com a vacina, vamos ter que usar a máscara. Vamos demorar muito tempo para vacinar uma parcela grande da população e as crianças vão ser as últimas a serem vacinadas porque são de menos risco. Não é de se esperar que a vacina vá trazer solução com relação a infância, o que vai trazer é melhorar as escolas, é ter uma conduta melhor como sociedade, ter um mínimo de cuidado com o outro, não indo em shows, eventos, usar máscara. Nossa ideia é sacudir, disparar uma onda para gestores públicos e para a sociedade civil. A gente fez isso na epidemia de aids, teve sociedade civil extremamente atuante, por isso chegamos onde chegamos. A gente pode repetir isso nesse momento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.