Na reta final, você racha ou relaxa?

Relógio de vestibulando parece que anda mais rápido quando chega o segundo semestre. Seja ele rachador, desencanado, autodidata ou veterano, todo mundo aperta o passo e aumenta o ritmo dos estudos diante da proximidade das provas. A maioria das inscrições está aberta, outras até já se encerraram. ?Quando começa a chegar perto do exame, parece que não dá tempo para nada. O dia precisa de 48 horas?, diz Flávia Ribeiro Calado, de 20 anos, candidata a uma vaga em Medicina.A vestibulanda faz seu primeiro ano de cursinho e se diz uma ?rachadora? assumida. ?Desde o começo do ano, não saí em nenhum fim de semana?, conta Flávia.O conselho dos professores neste segundo semestre é justamente o de diminuir ao máximo as noitadas. ?O candidato tem de ter boas horas de sono, alimentar-se bem, não se sentir cansado?, diz a professora de geografia do Curso e Colégio Objetivo Vera Lúcia da Costa Antunes.Tempo de aprenderE não adianta estudar apenas aquilo de que se gosta; ainda há tempo para aprender boa parte da matéria, completa. ?Às vezes começo a fazer exercícios e vou acertando tudo. Então mudo a matéria, não consigo resolver nada e me desespero?, conta o candidato a uma vaga em Veterinária, Artur Araújo Chaves, de 19 anos.Para o coordenador do Anglo Vestibulares, Ernesto Birner, o importante é valorizar aquilo que se sabe. ?Ninguém precisa saber tudo?, lembra. Birner diz que o mais difícil para os vestibulandos nessa etapa final é saber administrar a incerteza. ?Eles estão acostumados com a época de colégio, quando sabiam exatamente o que fazer para passar de ano. Mas, agora, o sistema é competitivo e é preciso ser melhor do que o outro para se sair bem.?CompetiçãoE põe competitivo nisso. A Fuvest já encerrou seu prazo de inscrições e espera algo em torno de 160 mil candidatos. A primeira fase será em 30 de novembro e são apenas 8.927 vagas, divididas entre a Universidade de São Paulo (USP), a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa e a Academia da Polícia Militar do Barro Branco. A concorrência, no entanto, é concentrada em alguns cursos, como Publicidade, Jornalismo e Relações Internacionais, que chegam a ter cerca de 90 candidatos por vaga.A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) teve recorde de inscritos neste ano, com 50.307 vestibulandos disputando 2.934 vagas. O aumento no número de candidatos foi de 8,2%. Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) ainda estão com seu período de inscrições aberto. Momento esperadoMesmo com tanta concorrência, os professores lembram que a tensão é normal. ?É um momento especial e esperado por muito tempo?, diz Birner. ?Os alunos ficam aflitos para fazer logo a revisão do que aprenderam no primeiro semestre?, completa Vera.A professora observa também que é essencial ? para ter calma na hora da prova ? se sentir seguro. ?Tire todas as suas dúvidas, procure professores para ajudar?, sugere.Agora veja os tipos básicos de vestibulandos e o jeitão de cada um se preparar nesta reta final para os grandes exames:O autodidataDecidido em conseguir sua vaga no curso de Música, José Roberto Hissamo intercala suas tardes entre a biblioteca e os instrumentos. ?Aproveito até os tempos livres na escola para ler?, conta o vestibulando, de 17 anos, que cursa o último ano do ensino médio em uma escola estadual da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Para as provas práticas, José Roberto tem treinado bateria, flauta, teclado e violão e ainda arruma tempo para cantar em um coral. ?Na escola, todo mundo diz que eu vou conseguir?, conta. Se estiverem certos, o feito terá importância redobrada. Na família, apenas um tia de José Roberto cursou o ensino superior.O rachadorCentro e trinta exercícios por dia. Mais leituras, resumos. É a rotina de Fábio Nanni, de 19 anos. Ele sonha em cursar jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) e para isso estuda das 7h10 às 20h30 desde o começo do ano. ?O que me dá forças é pensar que, depois de entrar na faculdade, nunca mais vou precisar ver física e química de novo?, diz. Fábio é o chamado rachador no cursinho, aquele que estuda sem parar. Em todos esses meses de preparação, faltou a apenas duas aulas ? uma por causa de um velório e outra, pela greve no metrô.?Meus pais acham que eu estudo mais do que deveria?, conta. Além das aulas pela manhã no Objetivo, ele passa o dia na biblioteca da Universidade Paulista (Unip). ?Lá, a cadeira é estofada?, brinca. Nos fins de semana, não é diferente. No sábado, vai ao cursinho para aulas de redação, para fazer simulados de provas e, quando não há nada programado para ele, entra na sala de outra turma. Só sai de lá depois das 19 horas. Aos domingos, ele se organiza para estudar em casa ?apenas? até as 17 horas. ?Se não estou agüentando mais biologia, por exemplo, pego a apostila de história para descansar a cabeça e aí consigo voltar para a maldita da biologia.?O desencanadoEle só vai fazer vestibular para universidades públicas e está confiante. ?Nunca fui de estudar e sempre tirei boas notas?, diz o candidato a uma vaga em Engenharia da Computação Ronaldo Miranda Pinto, de 17 anos. Do cursinho à tarde ele vai para a casa e prefere ver televisão a estudar. ?É tudo muito cansativo.? Mesmo assim, ele diz que precisa entrar neste ano na faculdade, caso contrário, terá de trabalhar e pagar pelo cursinho ? hoje bancado pelo pai. Seu segredo? ?Presto muita atenção nas aulas.? E nunca falta. Nos fins de semana, Ronaldo relaxa: sai com os amigos, joga bola. ?Sei que o vestibular é concorrido, mas se eu não passar vou ficar muito decepcionado.?O veteranoEntra turma, sai turma e Guilherme Paes Brussi continua lá. Na sua busca incansável pela vaga no curso de Medicina, o estudante enfrenta seu terceiro ano de cursinho. ?Esse foi o período em que mais amadureci; hoje estou mais preparado para entrar na faculdade?, afirma. Guilherme aprimorou também seus métodos de estudo. ?Faço sempre resumos das matérias e, depois, um resumo do resumo. Tenho de escrever, não adianta ficar lendo.? Estudar em grupo, nem pensar. ?Minha concentração é muito fraca.? O estudante, de 20 anos, teve o apoio dos pais ? médicos ? para começar de novo nas duas vezes em que não encontrou seu nome na lista de aprovados. O difícil, conta, é lidar com os amigos do antigo colégio. ?Encontro as pessoas que estudaram comigo e elas estão no segundo, terceiro ano de faculdade e eu, ainda no cursinho?, lamenta. ?Mas sempre soube que medicina é uma carreira difícil. Daqui a algum tempo, nem vou me lembrar que demorei três anos para passar no vestibular.?

Agencia Estado,

15 de outubro de 2003 | 17h57

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