TABA BENEDICTO / ESTADAO
TABA BENEDICTO / ESTADAO

Na rede pública, ensino a distância enfrenta problemas com lição pela TV e apostila impressa

Atividades online de escolas estaduais começaram na semana passada e o 'Estado' acompanhou como seis famílias se adaptaram ao modelo. Houve dificuldade para acessar o aplicativo do governo e saída foi inventar as próprias tarefas

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 05h00

Não tem aula em zoom ou qualquer outro encontro virtual para ver os amigos de sala, como se tornou comum nas escolas particulares durante a pandemia de coronavírus. Na rede pública de São Paulo, o ensino a distância é com aulões padronizados por série, apostilas impressas e lições pela televisão. O Estado acompanhou seis famílias na semana passada, a primeira de atividades online das escolas estaduais, que têm 3,5 milhões de estudantes e tinham adiantado férias até então. Há pais e alunos que sequer sabiam que as aulas haviam começado, outros que tentavam incansavelmente acessar o aplicativo do governo e gente que passou a inventar as próprias tarefas para não deixar o filho sem estudar.

No grupo oposto, dos que não tiveram dificuldades para entrar no chamado Centro de Mídias de São Paulo, aplicativo criado pelo governo do Estado para as aulas online, está Sara Cristiane dos Reis, de 42 anos. A advogada tem cinco filhos na rede pública de São Bernardo do Campo. Ela acordou cedo na segunda-feira para não deixar Bento, o mais velho, de 12 anos, perder o começo das atividades a distância.

Na TV da sala, a mãe conseguiu sintonizar as aulas, transmitidas apenas em um canal aberto, o que exige antena de quem tem canais a cabo. As aulas passam também no Facebook e no aplicativo. A primeira foi de educação física e Bento não conseguiu acompanhar direito, mas achou que poderia rever depois. Descobriu que não. A secretaria da educação ainda trabalha para por de pé uma plataforma com as aulas que já foram ao ar ao vivo. “Aparece uma professora que nunca vimos, não se sabe que disciplina será dada, a grade só diz que começa às 7h15. Ai, ele corre pra pegar o caderno certo quando vê que aula é”, dizia a mãe, no início da semana.

O formato escolhido pelo governo do Estado foi o de selecionar professores da rede, treinados em abril e que agora dão aulas ao vivo em três estúdios públicos. São 214 aulas por semana, de Português, Matemática, Tecnologia, Ciências. A programação diária para cada série dura uma hora e meia, com duas ou três disciplinas por dia. Dúvidas são tiradas pelos chats escritos, que funcionam no aplicativo. O aluno não tem qualquer relação com o professor da sua própria escola, algo que o secretário da Educação, Rossieli Soares, afirma que vai ser possível em breve.

Uma reclamação comum é de que as crianças e adolescentes falam palavrões e bobagens nos chats, mesmo com os bloqueios já realizados pelo governo. “Os alunos só ficam perguntando: ‘é pra copiar, é pra copiar’ ou falando ‘oi, oi’. Tira muito a minha concentração”, conta Bento. Saudoso da escola, ele lembra que as aulas presenciais foram suspensas bem quando a turma se preparava para começar a usar o laboratório de química. No fim dos primeiros dias, a família já havia conseguido acessar o calendário correto para saber com antecedência a aula de qual disciplina Bento teria e se dizia mais satisfeita.

Já a recepcionista desempregada Karina Ivo, de 26 anos, ficou sabendo pelo “tio da perua” que havia uma mensagem semana passada na porta da escola estadual onde a filha cursa o 2.º ano, no Jardim Nova Vitória, extremo leste da capital. O tio da perua é o motorista do micro ônibus escolar. O recado em papel, afixado no portão, dizia que dia 28 era o único para buscar as apostilas impressas que ajudariam nas aulas on line. “É uma total falta de informação, soube no dia anterior e depois fiquei em uma fila imensa, com aglomeração, para conseguir o material”, conta. Ela também havia entendido que o aplicativo pela internet só funcionaria para alunos a partir do 6º ano.

Só no meio da semana, Karina descobriu que, sim, também tinha aulas online para crianças da idade da filha Mariana, de 7 anos. Ela não tem wifi em casa, mas baixou o aplicativo, cujo uso de dados no celular está sendo pago pelo governo. Na primeira tentativa, tela em branco. Na segunda, mensagem de erro, pedindo para tentar mais tarde. “É uma saga.” Quando finalmente entrou na aula na quinta-feira, já estava terminando. Karina e a filha acabaram a primeira semana de ensino a distância fazendo atividades boladas pela mãe, com papel e canetinha, como já vinham realizando nas férias. “Como dizia minha avó, quem não tem cão caça com gato.”

A assistente administrativo Andreia de Araujo, de 42 anos, achou tudo “uma bagunça”. Só soube que o aplicativo da rede estadual estava funcionando porque foi avisada pela reportagem, mas também não conseguiu acessar. Ela mora na zona norte da cidade, trabalha em um hospital privado e está em quarentena, contaminada com o coronavírus. Resolveu então colocar as aulas pelo Facebook. Na primeira tentativa, ela disse que a professora afirmou que a aula seria para o 7.º ano, enquanto a programação falava em 6.º ano, série do filho Guilherme, de 12 anos. “As pessoas perguntavam pelo site para que série era e ninguém respondia, desistimos. Quem sabe semana que vem funcione melhor.”

“A informação não chega, é muita gente. Não tem a escola funcionando, isso faz a diferença, se tivesse, o recado chegaria a 90% dos pais no dia seguinte”, disse ao Estado o secretário Rossieli. Os dados da secretaria, no entanto, indicam que 1,5 milhão de alunos já se conectaram nas aulas online na primeira semana, o que ele considera muito positivo. Segundo o secretário, o aplicativo ainda tem instabilidade, mas está melhorando dia a dia. E as apostilas serão entregues pelas escolas aos poucos para não causar aglomeração, mas não essenciais para as aulas ao vivo.

Brincando com galinhas

“Aqui na minha região não está tendo, não”, disse Keila Maria de Jesus, de 27 anos, ao ser perguntada sobre as atividades remotas. Moradora do Jardim Capela, zona sul, Keila vive do Bolsa Família e é mãe de Fabio, de 7 anos, Ashley, de 5, e Melissa, de 1. Segundo ela, nem as escolas municipais dos menores, nem a estadual do maior avisaram sobre como seriam as aulas durante a pandemia. “Eles ficam em casa sem fazer nada, vendo TV o dia todo, brincando com as galinhas.” Avisada pela reportagem sobre a existência do aplicativo, Keila, que usa a internet do vizinho, tentou baixar, mas não conseguiu entrar nas aulas até o fim da semana. Segundo ela, a plataforma exigia um RG do filho, que ainda não tirou o documento.

Na rede municipal, a estratégia da Prefeitura foi a de enviar para as casas das famílias, pelos Correios, apostilas para atividades remotas e dicas para os pais estimularem as crianças com menos de 5 anos. As entregas começaram no dia 13 e deveriam terminar na semana passada para quem demorou para atualizar o endereço. Keila ainda não recebeu. A doméstica Luana Moura de Souza, de 32 anos, mãe de Sofia, de 4, também não. “Falaram para esperar que a professora iria entregar”, diz.

Já o filho mais velho, Elias, de 15 anos, usa o celular para assistir as aulas online da rede estadual. Conseguiu baixar o aplicativo na terça-feira depois de algumas tentativas. A mãe perdeu o emprego no início da pandemia e cuida sozinha dos três, numa casa no Jardim Miriam. Ela ficou de olho na semana passada se o menino prestava atenção nas aulas e lembra que ele teve aula de Matemática e de Física. “Pelo menos agora ele saiu um pouco do vídeo game.”

Desigualdade

A diretora do centro de políticas públicas da FGV, Claudia Costin, diz que vê esforços de todas as redes públicas do País para a educação a distância durante a pandemia, mas que as dificuldades são muito maiores que nas escolas particulares. “Há uma complexidade tremenda de logística porque são milhões de alunos, há leis que não deixam as coisas muito ágeis.” Fora a estrutura que as crianças têm em casa, com internet, livros e pais com repertório cultural maior, em geral, na rede privada.

De qualquer forma, ela complementa, as estratégias criadas pelas redes são para tentar diminuir a desigualdade, que vai aumentar de qualquer jeito. Hoje o País já tem resultado inferior de alunos mais pobres e de escolas públicas em exames nacionais e internacionais, o que tende a piorar. Segundo pesquisas, a condição socio econômica é um dos principais fatores que influenciam no desempenho das crianças e adolescentes. “As soluções não são para garantir a aprendizagem, são para mitigar danos”, afirma Claudia.

O secretário municipal de Educação de São Paulo, Bruno Caetano, reconhece que o maior esforço deve ser feito na volta às aulas. “A gente sabe que o mais importante vai ser na hora que pudermos receber as crianças de volta na escola, para recuperar o tempo perdido”, diz. “É impossível substituir o ambiente de sala de aula e as famílias têm que ter essa tranquilidade de que não estamos substituindo, na hora que voltar a aula presencial teremos orientação, recuperação”.

Ele diz que a secretaria fez um mutirão para atualizar os endereços das famílias para poder enviar o material para estudo remoto. E o que ainda não chegou às casas vai ser direcionado às escolas para serem buscados pelas famílias. Segundo a Prefeitura, foram impressos 1 milhão de livros e cerca de 780 mil já tinham sido despachados pelos Correios.

Rossieli também afirma que na volta às aulas, além do diagnóstico de o que os alunos aprenderam, é preciso fazer “a maior busca ativa da história de São Paulo” para que não aumente muito a evasão. “Temos temor de um grande abandono, principalmente dos adolescentes, inclusive por causa do desemprego, vão ter que ajudar a família”.

Com relação às críticas, ele diz que tudo foi organizado em 30 dias e que a plataforma do Estado está sendo aprimorada. Ele também negocia com operadoras de TV a cabo para que o canal TV Educação, que está transmitindo as aulas, entre nas grades e não precise de antena.

Mesmo planejando como será a volta às aulas, nenhum dos dois secretários tem qualquer previsão de quando isso vai acontecer. “Queremos voltar, estamos fazendo protocolos de aulas com revezamento de alunos, para não haver aglomeração, mas a data será ditada pela saúde”, afirma Rossieli.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.