Na rede pública, desafio é encurtar vários déficits
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Na rede pública, desafio é encurtar vários déficits

Plano de recuperação deve dialogar com a realidade dos alunos e envolver toda a comunidade escolar

Media Lab Estadão, O Estado de S.Paulo
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21 de março de 2021 | 07h00

Com as escolas fechadas na maior parte do tempo desde a eclosão da pandemia, alargou-se bastante o abismo que já existia entre as redes pública e privada. É grande o comprometimento do processo formativo de crianças e adolescentes, da educação infantil ao ensino médio. Por causa principalmente das barreiras tecnológicas, muitos alunos não conseguiram acompanhar as aulas por meio remoto. A desistência também aumentou. 

“Além de um déficit na aprendizagem, há também um prejuízo na socialização. As relações, vivências e experiências realizadas no ambiente escolar são fundamentais para a formação dos estudantes”, afirma Márcia Aparecida Jacomini, professora do Departamento de Educação da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Outro impacto da pandemia, segundo ela, é o abandono da escola. “Há pesquisas e reflexões de acadêmicos e das secretarias de educação já indicando que teremos uma evasão escolar bastante grande durante e após a pandemia, principalmente no ensino médio e na educação de jovens e adultos (EJA), até pela necessidade desses jovens em adentrar o mercado de trabalho.”

De acordo com Márcia, é possível recuperar as lacunas na aprendizagem desses alunos, mas isso vai depender de como escolas, secretarias de educação e governo vão proceder. Ela aponta que esse processo deve envolver uma avaliação diagnóstica dos estudantes para verificar as questões que não foram compreendidas e assimiladas e a reorganização dos anos letivos de modo que não mais correspondam aos anos do calendário. Por exemplo, uma classe de 6° ano, quando voltar ao presencial, pode ter de retomar alguns conteúdos do 5° ano.

A tarefa, contudo, é complexa. “Em um mesmo ano, haverá diferenciação em relação às aprendizagens porque houve diferença no acesso ao ensino remoto e no efeito que ele teve em relação a cada estudante”, observa. “As escolas precisarão de autonomia para se reorganizarem, de acordo com a sua realidade e a situação dos estudantes, e necessitarão de apoio dos governos para isso.”

Estratégia de pós-guerra

Para Mônica Gardelli Franco, educadora e pesquisadora da área de educação e ex-diretora da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), a única saída para recuperar o impacto da pandemia envolve repensar totalmente o papel da escola. “Uso como referência países que passaram por situação de guerra, como a Finlândia, que apostou na educação e a tornou o seu bem mais precioso.”

Segundo ela, isso significaria, por exemplo, oferecer educação em período integral em todas as escolas públicas e para todos os alunos da educação básica. Outras iniciativas seriam ter professores em regime de trabalho de dedicação exclusiva, permitindo a criação de vínculos e um acompanhamento mais próximo dos alunos, como uma tutoria. Além da elaboração de um projeto político-pedagógico integrado à realidade da escola, com objetivos bem definidos de curto, médio e longo prazo.

Tereza Perez, diretora-presidente da Comunidade Educativa Cedac, organização que atua para a melhoria das condições de aprendizagem nas escolas públicas brasileiras, diz que um aspecto importante nessa reorganização é a escola não priorizar o cumprimento do currículo estabelecido na pré-pandemia, mas trazer conteúdos que dialoguem com o que estamos vivendo.

Isso pode ser feito, por exemplo, considerando as competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em especial aquelas que se revelaram mais necessárias para este período, como a cooperação, o que as ciências explicam do mundo que pode ajudar a entender o momento atual e a educação crítica – a capacidade de questionar, contrapor, argumentar e relativizar.

“Em conjunto com a comunidade escolar, envolvendo os diretores, os gestores, os professores, as famílias e os alunos, é preciso definir os percursos do que será aprendido, como e para quê. Precisamos de uma reinvenção da escola, pois a anterior já não estava funcionando e agora o véu foi retirado. O tempo e o espaço da escola não são mais os mesmos. As necessidades são outras.”

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