Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Na rede particular, participação dos pais na escola pesa mais que projeto pedagógico

Famílias elegem relacionamento com professores e ensino de valores éticos e morais como principais fatores de permanência em colégios, diz levantamento

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 08h00

Ensinar a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, é tarefa para um professor com diploma em Biologia, mas o gerente de negócios Bruno Antônio sempre se dispõe a ajudar o filho Caio, de 12 anos, com a lição de casa. Quando tem alguma dúvida, Antônio logo entra em contato com a professora, por meio de um aplicativo, para saber qual é exatamente o tema da aula. Na semana passada, o pai mostrou ao filho a relação entre as nadadeiras de baleias e patas de outros mamíferos. 

“Essa interação (com professores e coordenadores) é quase diária”, conta Antônio. “Conseguimos falar com eles a qualquer momento do dia, sobre qualquer assunto relacionado à escola”, afirma o pai.

A participação dos pais no dia a dia da escola, o ensino de valores morais e éticos, e o atendimento individual têm sido fatores preponderantes na hora das famílias matricularem seus filhos em escolas particulares. Critérios como a qualidade do projeto pedagógico, investimento na qualificação de professores e no material didático, por outro lado, não aparecem entre os mais importantes. 

É o que mostra uma pesquisa feita pela consultoria em educação Escolas Exponenciais, que entrevistou, por meio de formulários, 150 mil pais de alunos e cerca de 350 escolas privadas. 

Especialistas em educação dizem que a participação dos pais no cotidiano dos colégios é importante para o aprendizado, mas têm restrições às ferramentas tecnológicas cada vez mais utilizadas no contato entre famílias e escolas. 

De acordo com o levantamento, o relacionamento próximo e participativo dos pais com a escola é o motivo mais citado para que as famílias mantenham seus filhos matriculados em instituições de ensino particular – entre os entrevistados, 41% dizem que este fator é importante. Em segundo lugar, está o ensino de valores morais e éticos, citado por 36% dos pais.

Por outro lado, quando perguntados sobre os principais motivos que os levaram a tirar os filhos de uma escola, aparecem localização da escola (20%) e falta de investimento em melhorias e inovação (18%). 

Para o idealizador da pesquisa, Vahir Sherafat, os dados mostram que os pais estão mais atentos à importância da presença no cotidiano escolas – inclusive para se certificar de que os valores passados na escola estão sintonizados com aquilo que os pais acreditam.

“Quando começamos a pesquisar esse segmento, as escolas diziam muito que os pais não estavam interessados, que não queriam acompanhar nem participar. Mas não foi isso o que encontramos”, conta Sherafat.

Academia. Pesquisadores das áreas de pedagogia e educação veem com bons olhos a participação dos pais na rotina de estudos dos filhos. A ressalva é para os casos em que o interesse se restringe à interação por meio de redes sociais e aplicativos.

É fundamental, afirmam, que a família tenha uma presença efetiva no ambiente escolar, em atividades e interação com os professores. Além disso, eles lembram que a escola deve servir para a formação da autonomia da criança e que as interferências muitas vezes podem atrapalhar esse processo. 

“Esses recursos tecnológicos das redes sociais não são ruins para os pais ficarem sabendo de detalhes da vida cotidiana da escola. Eles podem sim agregar. Mas o que não pode acontecer é eles serem o único meio”, afirma a professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Dirce Zan.

A especialista chama a atenção para os problemas que muitas vezes ocorre na interação direta entre a escola e os pais, quando a participação do estudante não é considerada. “Retirar o aluno como interlocutor é um risco. Se ninguém lhe perguntou sobre o que aconteceu em determinada situação, você destrói a autonomia que precisa adquirir na escola.” 

Valores. Sobre a escolha dos colégios, a pedagoga Maria Márcia Malavasi ressalta que é preciso buscar informações para se certificar de que os valores da família estão de acordo com os da escola. “É necessários que os pais escolham uma escola que tenha a característica do perfil familiar: os mesmos princípios, as mesmas visões de mundo”, afirma Maria Márcia. “Se isso for diferente, a criança estará o tempo todo em contradição. Por isso, o primeiro passo é saber qual é a teoria pedagógica dessa escola”, diz a especialista, destacando a importância do aspecto.

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