JF Diório/Estadão
Empatia. Daniela Vanetti, aluna do Band, participa de grupo que ajuda outros estudantes JF Diório/Estadão

Na escolha da escola, pais buscam mentores para os filhos

Além do currículo, instituições trabalham habilidades socioemocionais, com professores como mediadores

Thaís Ferraz, especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 14h00

SÃO PAULO - O conhecimento além do currículo é, hoje, um princípio norteador da educação básica no Brasil. Além de infraestrutura e tradição, colégios precisam oferecer um constante desenvolvimento das habilidades socioemocionais dos alunos. Nesse cenário, pais priorizam aspectos como corpo docente e formação humanista para escolher a escola dos filhos.

A advogada Paula Seabra Carvalho, de 37 anos, passou um ano estudando possibilidades antes de definir a escola onde Stella, a filha de 3 anos, estudaria. “Em casa, sempre tivemos uma preocupação muito grande em relação à educação que daríamos para nossos filhos”, conta. “Sabemos que essa decisão afeta diretamente o acesso ao futuro que terão, e queríamos que eles tivessem boas oportunidades.”

O corpo docente foi um dos critérios para a seleção. “Em todas as visitas que fiz, perguntei se havia treinamento para professores e qual era”, conta. “Para mim, é fundamental que os docentes estejam sempre se atualizando, porque o mundo está mudando muito rapidamente.”

Paula destaca a relevância que os professores assumem na formação ‘além do currículo’.

“O docente não é o responsável pela educação do seu filho, mas é um grande aliado dos pais”, afirma. “É importante estimular na criança valores como independência, respeito ao próximo e autonomia.” 

As habilidades citadas por Paula fazem parte do grupo de competências socioemocionais - aptidões não cognitivas, que dizem respeito a como as pessoas se relacionam com elas mesmas e com o mundo. Gerente de projetos do Instituto Ayrton Senna, Cynthia Sanches afirma que, nos últimos 40 anos, cerca de 200 habilidades socioemocionais foram mapeadas em estudos.

“A educação já trabalha há muito tempo com a ideia de que o conhecimento não pode ser só tradicional. Várias pesquisas comprovam que o desenvolvimento socioemocional traz bons frutos”, diz. “Mas isso não se dá só com teoria. É necessário ter aulas que apliquem essa competência na prática.”

No dia a dia, o professor é o profissional que mais interage com o aluno. “É o grande mediador desse processo, é quem vai desenhar a aula e a experiência de aprendizagem.”

A professora Maria Estela B. Zanini, diretora de convivência do Colégio Bandeirantes, destaca o papel de mediador do professor. “Ele precisa gerenciar conflitos em sala de aula, fazer avaliações mais formativas e dar feedbacks melhores”, afirma. “Muitas vezes, no entanto, os docentes não aprendem as ferramentas necessárias. Por isso, a formação continuada é fundamental.” 

Apoio

Para ela, o desenvolvimento de habilidades socioemocionais não pode ser uma via de mão única. “Os alunos precisam despertá-las, mas as escolas também. Elas precisam proporcionar que esses aprendizados sejam vividos no dia a dia.” O Bandeirantes oferece uma série de atividades nesse sentido. A Equipe de Ajuda reúne estudantes em formações sobre a importância da escuta ativa, da comunicação afetiva e da empatia, com objetivo de identificar problemas de outros colegas e apoiá-los.

Daniela Vanetti, aluna do 7.º ano do colégio, é uma das participantes. “Observamos a sala de aula e nos encontramos de 15 em 15 dias para conversar. O nosso papel é ajudar os alunos a se ajudarem.” Para ela, o programa é fundamental para o presente e o futuro. “Faz com que o colégio não veja números, mas pessoas, e nos prepara para sabermos nos relacionar com os outros.” 

Formação

Para acompanhar as demandas, colégios investem na formação de professores. Na Escola Internacional de Alphaville, eles aprendem a trabalhar com competências socioemocionais. Mas a gestora da escola, Ana Claudia Mesquita Chioccarello Favano, ressalta que as habilidades não podem ser ensinadas em um “pacote” de aulas.

“Essas competências, como respeito e empatia, precisam ser vividas no dia a dia. Não adianta dar aula de socioemocional, todas as aulas precisam incluir esse campo.” 

Para o diretor-geral do Colégio Marista Arquidiocesano, Carlos Dorlass, o professor precisa ser generalista. “Além do específico, deve saber de outras áreas. Quando não conhece, precisa ser capaz de conversar e dividir conhecimentos.” 

Diretora educacional institucional do Colégio Porto Seguro, Meire Nocito afirma que a formação é constante na escola. “O professor participa da capacitação para dinamizar as aulas, mas precisa ser cuidado na formação”, diz. “E tem formação para os pais também. Precisam de orientação para lidar com jovens e crianças.”

Cinco grupos de competências socioemocionais

Amabilidade

Esta macrocompetência está relacionada ao modo como o indivíduo se relaciona com o mundo e inclui habilidades como a empatia, o respeito e a confiança 

Engajamento

Por meio desta competência, são desenvolvidas a iniciativa social, a assertividade e o entusiasmo 

Resiliência emocional

Entre as habilidades incentivadas aqui estão a autoconfiança e a tolerância ao estresse e à frustração.

Autogestão 

Dentro deste grupo de competências, o estudante aprende a ter foco, responsabilidade, organização, determinação e persistência 

Abertura ao novo 

Esta macrocompetência inclui curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico 

Tudo o que sabemos sobre:
educaçãoescolaeducação básica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mais do que conteúdo, cidadania

Colégios trabalham projeto de vida com alunos, competência exigida pela Base Nacional Comum Curricular

Thaís Ferraz, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - A escola é fundamental para a transmissão de conteúdo e conhecimento, mas também na formação de indivíduos. Desde 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) destaca projeto de vida como uma das dez competências norteadoras da educação básica no País. Em São Paulo, diversos colégios implementaram programas nesse sentido.

O Colégio Presbiteriano Mackenzie já realizava ações que buscavam orientar estudantes em relação ao futuro e à carreira profissional. Em 2018, no entanto, a escola sentiu necessidade de ir além.

“Percebemos que nossos jovens têm cada vez mais dúvidas”, explica a professora Marcia Regis, diretora pedagógica da instituição. “São muitas opções e às vezes a escola fica tão focada no ensino de disciplinas e conteúdos elementares que não abre espaço para o autoconhecimento.”

O 3.º ano do ensino médio foi escolhido para dar início ao projeto de vida. Hoje, todos os alunos dessa etapa podem experimentar o programa. As atividades não são obrigatórias, mas cerca 670 estudantes (ou 85% do total) participam. Entre as ações estão Carreira em Debate, que traz profissionais de várias áreas para conversas com os alunos, e o Confemack, que simula conferências da Organização das Nações Unidas (ONU), além de orientações para processos seletivos.

“Com um coaching, os alunos aprendem ferramentas para o autoconhecimento”, diz Marcia. “Eles passaram a se atentar para as atividades a que se dedicam, recebem ajuda para a escolha profissional e traçam um mapa de suas vidas. Com essas atividades, constroem as próprias trilhas.”

O Colégio São Luís oferece atividades de projeto de vida para séries dos ensinos fundamental e médio. Os temas são trabalhados em duas frentes: vida saudável, que aborda questões como autoconhecimento, espiritualidade e prevenção ao uso de drogas, e vida em sociedade, que trabalha ética, pluralidade cultural e política, entre outros assuntos.

As atividades são divididas de acordo com as séries escolares.

“Nos primeiros anos, trabalhamos o desenvolvimento de valores, cuidado, respeito e convivência”, explica Laurindo Cisotto, professor e orientador educacional do colégio. “Com o tempo, isso vai fluindo para as escolhas da vida estudantil e do futuro.” 

Experiência

O orientador destaca o programa Estágio por um Dia. Nele, alunos do 3.º ano são levados a empresas, onde entram em contato com as profissões na prática.

“É uma oportunidade única porque ainda é muito difícil aproximar o mundo do trabalho da educação”, diz o orientador. “E isso ajuda os estudantes a conhecerem o mercado, a profissão que pensam e em escolher eles mesmos.” 

Para Cisotto, o projeto de vida é, na verdade, uma formação integral.

“A escola precisa estar conectada a necessidades atuais e mudanças”, afirma. “A nomenclatura surge no tempo, mas o que a escola oferece é isso: um currículo que ajuda a formar cidadãos para o mundo”, afirma.

O grupo Marista mantém em suas unidades o Circuito Projeto de Vida (CPV), com atividades voltadas à criação de espaços de comunicação e convivência entre os alunos. Entre as atividades oferecidas estão palestras, orientação vocacional e visitas institucionais a feiras universitárias. 

Para o diretor-geral do colégio, Carlos Dorlass, o programa desenvolve competências fundamentais.

“O aluno precisa aprender a ser protagonista de sua vida, como será exigido dele na vida adulta.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Trabalho voluntário amplia visão de mundo

Escolas organizam ações para estudantes atuarem em realidades diferentes das suas

Luciana Alvarez, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 06h00
Atualizado 18 de setembro de 2019 | 16h20

Correções: 16/09/2019 | 10h50

SÃO PAULO - Fora da grade curricular, mas dentro da proposta pedagógica de uma formação integral e humanística, escolas paulistanas vêm promovendo ações sociais voluntárias entre seus alunos. Incentivados por professores e colegas, adolescentes conhecem realidades muito diferentes das que vivem e ainda participam ativamente de movimentos para transformar a sociedade

Laura Reinach tinha apenas 11 anos quando participou pela primeira vez de um projeto de voluntariado em uma creche promovido por sua escola. Agora, todos os anos tem atuado em alguma das propostas sociais do Colégio Santa Cruz - e já fez trabalhos voluntários até independentes da instituição de ensino.

“Por mais que eu tivesse interesse, não teria levado para frente se não fosse a proposta da escola”, diz Laura, hoje com 16 anos, sobre sua atividades voluntárias.

O engajamento da estudante foi tanto que ela incentivou os pais a começarem no voluntariado. 

“Em casa eu estava sempre contando minhas ideias, pedindo sugestões, e acabei contagiando a família”, conta. 

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Em casa, eu contava sempre minhas ideias, pedia sugestões. Contagiei a família
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Laura Reinach, aluna do Santa Cruz, que incentivou os pais a também serem voluntários

Para a diretora do ensino médio do Santa Cruz, Marina Nunes, os adolescentes que participam não estão apenas “doando” algo, eles também aprendem muito.

“O trabalho voluntário tem um aspecto formativo, porque eles são colocados em situações em que há uma troca de aprendizagens. Eles tomam consciência sobre o país em que vivem e podem promover alguma mudança”, afirma a diretora. 

Entre as possibilidades para os estudantes do Santa Cruz há trabalho em um restaurante popular no Glicério, em aldeias indígenas, em um quilombo e em creches e hospitais públicos, além de ajuda na construção de moradias populares. Antes de qualquer “ação”, no entanto, os estudantes se preparam: reúnem-se no contraturno para estudar, visitam instituições que fazem ações semelhantes, planejam as atividades.

“Depois, eles têm um momento para a reflexão, fazem análises e sínteses da experiência. Nunca é simplesmente visitar um local”, explica Marina.

Experiência

No Colégio Equipe, além das ações sociais já promovidas anteriormente, há sempre propostas surgindo.

“Tentamos um trabalho com imigrantes e refugiados, para ter um intercâmbio entre eles e nós, mas tivemos um problema prático: o horário. No momento que os estudantes estão disponíveis, eles estão na rua, dispersos, trabalhando e procurando emprego”, relata Luciana Fevorini, diretora do colégio. “Agora estamos construindo uma relação com uma escola onde 60% dos alunos são imigrantes ou filhos de imigrantes. Vamos desenhar uma proposta junto com essa escola.”

Para Luciana, a ideia de os alunos participarem de ações sociais faz sentido para o projeto pedagógico do Equipe.

“Nosso currículo favorece uma leitura crítica da realidade, mas, sem as ações, o trabalho fica apenas no âmbito intelectual. A gente entende as causas de certas desigualdades, mas não faz nenhuma intervenção?”

A ideia é que os estudantes aprendam também com a prática.

“O estudante não está ali para oferecer algo, mas para trocar com uma pessoa de um contexto social e cultural diferente”, explica a diretora. 

Alguns jovens se comprometem tão profundamente que botam a possibilidade do voluntariado na balança na hora de escolher a faculdade.

“Ter participado do grupo (de voluntários) foi muito especial, me fez sair da minha bolha sociocultural, abriu meu olhar para outras realidades. E sei que vou continuar. Quero fazer Direito e já sei, por exemplo, que o Mackenzie é uma instituição que tem um olhar para o próximo”, diz Giovanna Borsetti, de 17 anos, que há três anos faz trabalhos voluntários com a pastoral do Colégio Mary Ward.

União

Algumas instituições envolvem toda a família nos trabalhos voluntários. É o que ocorre no Colégio Franciscano Pio XII, onde uma equipe de mães e pais voluntários organizam bingos, chás e rifas para arrecadar dinheiro para as obras sociais.

“Os pais precisam ser exemplo”, defende Célia Amâncio, que há 15 anos, desde que seu filho mais velho entrou na escola, participa do voluntariado. “Eu quis um colégio católico para meus filhos e sabia que essa ações seriam promovidas.” 

Além de ajudar com a arrecadação de dinheiro, os pais também arregaçam as mangas e trabalham do começo ao fim das ações, de entrega de cestas básicas a construção de casas populares, passando por dar café da manhã a pessoas em situação de rua aos domingos, ajudar refugiados e jovens dependentes químicos. 

Com o exemplo dos pais e incentivo da escola, o voluntariado promove mudanças de comportamento, diz a coordenadora da pastoral, Maria Aparecida Rocha.

“Faz parte da filosofia franciscana a preocupação com o outro, e toda a proposta de educação do colégio é pautada em valores. A gente percebe nos estudantes um crescimento no aspecto social, na valorização da vida.” 

Correções
16/09/2019 | 10h50

O texto acima foi atualizado às 10h50 desta segunda-feira, 16, para corrigir o nome de uma das escolas citadas na reportagem. A grafia correta é Colégio Franciscano Pio XII.

Às 12 horas desta terça-feira, 17, o cargo de Maria Aparecida Rocha na pastoral do Colégio Franciscano Pio XII foi corrigido: ela é coordenadora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Um colégio que combine com o perfil do aluno

Responsáveis vêm buscando instituições de linha pedagógica no estilo da família e recorrem à ajuda da psicopedagogia

Thaís Ferraz, especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 14h00

SÃO PAULO - Durante muitos anos, as duas filhas da advogada Andrea Bussab, de 41 anos, estudaram na mesma escola, pequena, com poucos alunos. No fim de 2018, a caçula, Larissa, manifestou vontade de mudar de colégio. Juntas, mãe e filha partiram em busca da opção ideal. 

“Nós contamos com a ajuda de uma psicopedagoga, que elaborou uma lista de escolas a partir do perfil da Larissa”, conta Andrea. “Ela buscava um espaço maior, um colégio mais globalizado, e esse foi o nosso norte.”

A família visitou alguns colégios e acabou se decidindo pelo Porto Seguro.

“Lá, a Larissa se encontrou e ficou super feliz, está imersa no alemão, pensando em fazer intercâmbio”, diz Andrea. “Ela até descobriu uma veia artística, com ajuda de uma professora de Artes.”

A decisão da melhor escola para os filhos deve levar em consideração o perfil do aluno. Para quem quer prestar Medicina, por exemplo, pode ser mais interessante uma escola conteudista, enquanto um aluno com perfil mais criativo pode se sentir preso em colégio tradicional.

Com inspiração socioconstrutivista, a Escola Castanheiras investe em um currículo que relaciona teoria e prática.

“Sentíamos a necessidade de que a escola fosse mais do que isso e se tornasse um nicho cultural”, explica a coordenadora pedagógica, Ester Malka Broner Giannella.

Para ela, a escola tem de combinar com a identidade da família. “Os pais têm uma trajetória escolar e às vezes procuram o que não tiveram. É importante que isso seja considerado”, diz. “Ao mesmo tempo, é preciso observar o filho no projeto da escola, percebê-lo engajado, notar se produz conhecimento, se tem espaço para desenvolver suas inquietações”. 

Pai de duas meninas que estudam na Castanheiras, Marco Barcellos conta que o perfil da família influenciou sua decisão.

“Minha esposa e eu sempre priorizamos métodos de ensino mais modernos.”

Ele conta que, no começo, houve uma preocupação com a “validade” do método de ensino conforme Clara e Catarina fossem crescendo e se aproximando do vestibular.

“Mas hoje, além de termos certeza de que elas estão preparadas também para isso, pensamos que nem sabemos se vão querer trilhar esse caminho”, diz Marco. “Elas podem querer empreender ou se dedicar a alguma área específica, e não conseguimos prever isso.” 

Para todos

A diretora-geral pedagógica do Colégio Dante Alighieri, Valdenice Minatel, afirma que as escolas precisam estar prontas para estudantes de vários perfis.

“Cada criança é muito diferente da outra, a sala de aula é bem heterogênea, e os profissionais precisam estar atentos a isso.” A acessibilidade entra nessa conta. “A infraestrutura da escola é muito importante, e sempre nos preocupamos com isso.”

Mãe de João, de 16 anos, a agente de investimentos Adriana Takaki conta que a acessibilidade foi um dos critérios fundamentais para sua decisão de matricular o filho no Dante.

“A escola já cumpria a lei, mas me surpreendeu ao levá-la de fato à prática”, diz. “Se o João mudava de prédio, a escola passava um pente fino na estrutura, adaptava da melhor forma possível para cadeira de rodas.”

Segundo a coordenadora-geral pedagógica do Dante, Sandra Tonidandel, o colégio busca atender a várias demandas e expectativas dos alunos. Para isso, promove atividades como o Projeto Cientista Aprendiz. Nele, os alunos fazem pesquisas com a ajuda de um professor orientador. 

“Nem todos os alunos vão virar cientistas, mas todos serão capazes de trabalhar com dados e evidências em qualquer área.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Leandro Karnal: 'A escola não pode ser uma ruptura radical com a família'

Para o colunista do 'Estado', é bom que o colégio provoque certo choque, mas não pode ser oposto aos valores que o estudante aprende em casa

Entrevista com

Leandro Karnal, historiador e colunista do 'Estado'

Luciana Alvarez, especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 14h00

SÃO PAULO - Historiador e colunista do Estado, Leandro Karnal diz que uma educação pautada na memorização perdeu a utilidade, mas isso não significa permitir que a criança faça só o que quiser. Para pais ansiosos em busca do colégio certo, dá um recado: “A escolha da escola não garante o futuro do seu filho”.

Escolher a escola pensando em preparar o filho para entrar numa boa universidade é um critério válido? 

Para começar, não é possível essa engenharia: vou matricular meu filho aqui para ele entrar em Medicina na USP (Universidade de São Paulo). O ser humano não é um hamster, os filhos não vão cumprir as expectativas dos pais. Na verdade, a função dos filhos é não se adaptar ao desejo dos pais. 

Há modelo para se ter de base para buscar uma boa escola?

Há boas escolas religiosas, militares, públicas, alternativas. Não é possível estabelecer que apenas um modelo é bom. Uma boa escola depende da personalidade do filho. Algumas crianças não se adaptam a muitas regras. Uma escola mais libertária também pode causar dificuldades em crianças que precisem de uma regulação externa maior. 

Quando se visita uma escola, logo se percebe a estrutura física dos prédios, as tecnologias. O que olhar além disso?

Como se avalia uma peça de teatro? O autor fez um texto bom? Os atores atuaram bem? A sala é confortável? Tudo isso conta. Um espaço limpo e seguro é necessário. Mas os envolvidos na escola demonstram seriedade? Estão atentos à mudança? Um bom professor de qualquer nível da educação é um pesquisador. Tem de ler artigos da área, aprender sempre. E não se pode confundir modernidade com máquinas. Uma escola que dá um tablet por aluno pode ser tecnologicamente avançada, mas pode ter um projeto fascista de ensino.

Os valores da família contam?

A escola não pode ser uma ruptura radical com a família. Se minha família é adventista e a escola não, meu filho vai ter provas em horários que a minha religião não permite. Se a família é extremamente conservadora e a escola não, as aulas de ciências e de sexualidade podem provocar um choque. É bom que a escola provoque certo choque. Mas será que os pais estão preparados? 

Independentemente do perfil, há coisas que toda escola deveria ensinar?

Yuval Harari (historiador e escritor israelense) se pergunta: o que podemos ensinar que tenha validade daqui a 40 anos? A resposta é: não sei. Uma educação com base na memorização com certeza não faz sentido hoje. Tudo o que me ensinaram foi superado. Aprendi, por exemplo, a usar o mimeógrafo, que nem existe mais. A escola tem de ensinar curiosidade, autonomia, capacidade de pesquisar, além de dar uma alfabetização sólida em textos e em imagens, para permitir que a pessoa continue se educando.

É comum dizerem que a criança é naturalmente curiosa, mas a escola mata a curiosidade. Uma boa escola é uma que não mate essa curiosidade?

O senso comum diz que a criança é naturalmente curiosa e ela vai sendo direcionada, se conformando ao longo da escolaridade, o que é ruim. Mas isso não deve ser confundido com o “faça o que você quiser”. A criança tem de aprender a dialogar com o conhecimento formal, embora não apenas a seguir a fórmula consagrada. Galileu olhou para Aristóteles e duvidou. Foi um ato de rebeldia. Mas ele foi até a Torre de Pisa, fez experiência e provou suas ideias. Isso pressupõe uma confiança na pesquisa. A escola deve levar a criança a buscar resposta, a entender que a resposta é complexa, e a não responder só de maneira intuitiva. 

Apesar de tantas críticas que recebem, as instituições de ensino continuam relevantes?

Muitos dizem que o conhecimento está todo na internet. Mas quem se submeteria a uma cirurgia feita por alguém que não fez Medicina, mas é muito curioso e assistiu a vários tutoriais na internet? Eu com certeza não. A escola está lutando muito para encontrar um novo caminho. Nós, professores, que fomos educados para o conteúdo, ainda não sabemos que caminho é esse. Mas discordo de uma leitura bipolar. Vejo alunos que escrevem contra a escola e esquecem que só escrevem porque foram alfabetizados na escola. 

O momento de escolher a escola pode despertar muita ansiedade. O que diria a pais nervosos com isso?

Diria que a escolha da escola não é irrelevante, mas também não é decisiva. Faz diferença se os pais expõem o filho à diversidade cultural e geográfica, se têm livros em casa, se conversam e estimulam a riqueza vocabular. Mas nem os pais, nem a escola, condicionam em 100% o futuro da criança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Português, quase acessório

Cresceu de 2,8 mil para 4,6 mil o total de alunos em SP em instituições internacionais ou de ensino em outro idioma

Luciana Alvarez, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 07h00
Atualizado 18 de setembro de 2019 | 16h02

Correções: 16/09/2019 | 10h50

Quando chega de manhã na escola, ninguém diz “bom dia” a Felipe Yanaka, de 5 anos. O mais provável é que ele ouça um “hey, good morning”, ou alguma outra saudação em inglês. Filho de pai e mãe brasileiros, desde o início do ano o menino estuda no colégio bilíngue Aubrick, onde durante o ensino infantil as aulas são quase totalmente em inglês. 

A mãe de Felipe, Yuri, diz ter se surpreendido com a tranquilidade com que o processo está transcorrendo.

“De pequeno, ele teve um atraso de fala. Preferimos não botar antes na escola bilíngue, onde a irmã já estudava, porque ficamos preocupados de incluir mais um idioma se nem o português ele falava direito”, conta.

O menino, porém, parece ter progredido até no português depois de ter esse contato intenso com o inglês.

“Sinto que, desde a entrada na Aubrick, ficou mais atento ao meio, aos colegas, à emoção das pessoas. E nunca voltou para casa reclamando que não estava entendendo”. 

Fala e textos

A irmã mais velha, Victoria, de 7 anos, está no 2º ano. Para ela, as aulas se dividem entre português e inglês. E ela se comunica com desenvoltura nas duas línguas e agora começa a dominar o código escrito de ambas.

“Trabalho numa multinacional e às vezes a gente recebe colegas para jantar que são estrangeiros, e vejo como ela fala com desembaraço”, diz Yuri, que fala inglês fluentemente, mas começou a aprender só na adolescência. “Para mim, era uma matéria, como Matemática, Geografia. Para ela, é algo natural”. 

A diretora da Aubrick, Mirza Laranja, percebe que a geração que hoje está com filhos em idade escolar é uma que enxerga valor no bilinguismo.

“Eles cresceram no momento de globalização mais intensa, de muita comunicação com o mundo”, afirma.

A escola que foi fundada há dez anos, só com ensino infantil e 37 alunos, hoje tem quase 700 crianças do infantil ao fundamental 2. 

O crescimento da escola reflete um crescimento geral da procura por uma educação bilíngue, sobretudo em inglês. Um levantamento da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo mostra que só na capital, onde existem ao menos 71 instituições de ensino bilíngue e oito escolas internacionais, o número de estudantes matriculados saltou de 2,8 mil para 4,6 mil ao longo dos últimos cinco anos. 

Novo foco

O inglês é a língua dos negócios e da ciência, da cultura e da tecnologia. Ser fluente no idioma não é mais visto como diferencial, mas como pré-requisito para se viver bem em um mundo globalizado. Com o desejo de que os filhos aprendam inglês de fato, mas com menos disponibilidade de levar a cursos extras, os pais buscam soluções dentro da escola regular. Muitos optam por colégio internacionais e bilíngues, instituições que já nasceram com a missão de formar os alunos no idioma estrangeiro. Outros aderem a programas especiais de idioma em escolas brasileiras, que têm percebido a demanda e passaram a fazer convênios com cursos de inglês, ou criar programas próprios. 

Coordenadora de pós-graduação do Instituto Singularidades, Antonieta Megale acredita que o ensino de inglês é o grande chamariz para escolas internacionais e bilíngues, mas defende que todas essas escolas precisam ir muito além do idioma. “O idioma deve ser colocado a serviço da ampliação do repertório cultural. Uma outra língua dá a possibilidade de acesso a bens culturais diversos”, explica. O inglês é língua oficial em 60 países. 

“Até posso trabalhar só com a Disney, mas o aluno já tem acesso a isso. O corpo docente pode, em vez disso, apresentar contos da Nigéria, da Índia. O aluno vai conhecer outro repertório do que é brincar, do que é ser criança, do que é família, de forma a rever seu papel no mundo”, afirma Antonieta. 

Fenômeno global

O aumento do interesse por colégios que ensinem em inglês não é um fenômeno de São Paulo, nem do Brasil. “Temos menos expatriados do que antes. Isso está de acordo com o quadro da maioria das escolas internacionais britânicas em todo o mundo, à medida em que mais famílias locais enxergam os benefícios de uma educação britânica”, afirma Louise Simpson, diretora do colégio britânico St. Paul’s. Sem dar números, ela diz que a demanda por vagas na escola, que sempre foi alta, “continua a crescer”. 

Arno Krug, CEO da rede Maple Bear do Brasil, de ensino bilíngue no modelo canadense, lembra ainda que a ciência está do lado do ensino de idiomas ainda na infância. Segundo ele, algumas décadas atrás, as pessoas tinham certo medo que ensinar o inglês (ou outra língua) muito cedo atrapalharia a aquisição da língua materna e na alfabetização.

“As pesquisas têm demonstrado que, na verdade, faz bem para o cérebro. Pessoas bilíngues que chegaram à terceira idade têm menos incidência de Alzheimer e mais velocidade de raciocínio”, afirma. Esse seria mais um dos motivos que têm contribuído para o aumento da demanda por escolas bilíngues em todo o mundo. 

Com 27 unidades só na cidade de São Paulo, a rede prepara uma forte expansão nos próximos três anos para o interior e outros Estados. No País, são atualmente 130 unidades, e a intenção é abrir mais 110. “Para a Grande São Paulo, não temos previsão de novas unidades, mas isso não significa que não haja mais espaço de crescimento. Se a gente comparar com Cingapura, cidade com 5 milhões de habitantes e 20 unidades da Maple Bear, ainda temos para crescer”, diz. 

Linha pedagógica

Escolas bilíngues ou internacionais podem ter projetos pedagógicos muito diferentes entre si. Na hora de escolher, é preciso analisá-las como se analisa uma escola regular.

“Ser ou não bilíngue nunca pode ser o único critério. Tem de entender a proposta educativa da escola, quais são os valores e a missão. Algumas são mais voltadas para a tecnologia, outras, para as artes, outras se preocupam mais com o vestibular”, cita Antonieta Megale, professora de pós-graduação em ensino bilíngue do Instituto Singularidades. 

Diferenças entre bilíngue e internacional

Não há uma lei nacional com definições mínimas sobre o que é necessário para uma escola ser classificada como bilíngue. Contudo, a maioria dos especialistas defende que é necessário ter cerca de metade da carga horária no outro idioma, e que as aulas não sejam “de inglês”, mas “em inglês”. Veja aqui algumas definições:

Escola internacional

Adota o currículo de outro país; pode ser americano ou inglês, por exemplo. Segue o calendário do país de origem e, portanto, o ano letivo se inicia em setembro. A maior parte da carga horária é dada em inglês, ou no outro idioma estrangeiro. A língua portuguesa fica restrita a algumas disciplinas específicas da grade.

Escola bilíngue

Precisa seguir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas costuma incluir também o currículo de outro país. Segue o calendário do Brasil, com início do ano letivo em fevereiro. Cerca de metade do tempo oferece aulas em português, metade do tempo no segundo idioma.

Escola com programa bilíngue

No horário regular é uma escola brasileira, com o currículo segundo a BNCC, mas que inclui um programa de ensino em inglês, normalmente no contraturno. Segue o calendário do Brasil, com começo do ano letivo em fevereiro. Pode ter várias horas/ aula em inglês, mas à parte do currículo principal.

Correções
16/09/2019 | 10h50

O texto acima foi atualizado às 10h50 desta segunda-feira, 16, para corrigir a grafia do nome da diretora do colégio britânico St. Paul's. O correto é Louise Simpson.

Tudo o que sabemos sobre:
educaçãoinfânciaidiomaescola

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Cursinho de idioma dentro do colégio

Empresas oferecem aulas extras no contraturno ou assumem ensino do currículo regular e até bilinguismo

Luciana Alvarez, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 08h00

Para estudar inglês na Cultura Inglesa, Wizard, Fisk, CCAA ou Cel.Lep não é mais necessário fazer aulas fora do colégio. Redes de ensino têm fechado parcerias com instituições da educação básica para oferecer cursos extras, assumir as aulas curriculares de inglês ou desenvolver programas bilíngues.

Fazer curso de idiomas dentro do colégio não é exatamente uma novidade. Faz 25 anos que a Cultura Inglesa firmou a primeira parceria com uma escola em Campinas. É como se a empresa abrisse uma “filial” dentro do colégio: no contraturno, optativo, pago à parte. “Hoje temos 40 escolas nesse modelo, mas oferecemos também o modelo intracurricular, no qual assumimos as aulas de inglês da grade da escola”, explica Anamaria Pelegrini, gerente de operações da rede.

Em 2020, a Cultura oferecerá também um programa bilíngue. “Nesse produto, o inglês não é o fim, é o meio. Vamos ensinar ciências, artes, música em inglês”, diz a gerente.

Demanda dos pais aumentou grade

A importância do inglês vem levando a transformações nas escolas particulares. O Centro Educacional Pioneiro começou com um programa mais robusto na grade, com mais aulas do que o exigido por lei. Atendendo à demanda dos pais, passou a oferecer um curso extra, no contraturno, três vezes por semana. Mas, percebendo que para algumas famílias ainda era pouco, desde o ano passado tem um programa bilíngue opcional. “São seis horas por semana, com aulas o tempo inteiro em inglês”, diz Selma Alfonsi, coordenadora de inglês e espanhol da escola.

Segundo Selma, há uma certa “febre” na demanda pelo bilinguismo, mas é preciso ter cuidado. “Vi escolas que da noite para o dia viraram bilíngues. O Pioneiro não pretende se tornar bilíngue. Não faz parte da identidade da instituição. Mas não podemos fechar os olhos para esse movimento.”

Sylvia de Moraes Barros, CEO da The Kids Club, uma rede que oferece inglês em colégios, também considera que há um certo modismo na busca pelo bilinguismo. “É chique estudar em escola bilíngue, mas, como não existe regulamentação, os pais podem estar comprando uma coisa e levando outra”, diz. Ela defende que a carga horária estendida do idioma traz ótimos resultados. “Em programas como o nosso, o aluno aprende muito. A vantagem é que atinge uma parcela de famílias que não poderia pagar por uma bilíngue.”

A Edify é outra empresa que oferece um programa para ajudar colégios a terem um inglês forte. “As escolas precisam se adaptar à demanda dos pais, mas muitas não têm o conhecimento necessário para montar um programa de inglês reforçado”, diz Marina Dalbem, diretora da companhia.

Vantagens do modelo na escola

  • Reforço: Aprimora o conhecimento de inglês visto na grade 
  • Economia: O preço costuma ser menor do que um curso similar em escola de idiomas 
  • Proximidade: Otimiza o tempo do aluno ao evitar deslocamentos
  • Confiança: O estudante fica em um ambiente já conhecido, em que se sente seguro 
  • Interação: Os alunos estudam inglês com os amigos de escola, o que serve de incentivo
Tudo o que sabemos sobre:
educaçãoidiomaeducação básica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Quando passar o dia na escola é rotina

Instituições investem em ensino integral, demanda crescente por causa de pais que trabalham por muitas horas seguidas

Luciana Alvarez, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 09h00

De colégios particulares grandes e pequenos, novos ou tradicionais, gestores educacionais relatam uma procura crescente pelo período integral. Com os pais trabalhando por muitas horas seguidas e um trânsito em São Paulo que dificulta os deslocamentos, as escolas acabam sendo um lugar seguro para que crianças e adolescentes passem o dia. Sem sair de seus portões, os mais novos aprendem idiomas, praticam esportes e fazem atividades artísticas. Pode ser uma solução, mas é preciso ter cuidado. 

No ano passado, Ana Luísa Gonçalves Lorena, hoje com 11 anos, estudava em um colégio bilíngue, o que a obrigava a ficar algumas horas extras dentro de sala de aula, para dar conta dos conteúdos em dois idiomas. Embora não ficasse até tarde – saía às 15 horas – chegava em casa cansada e desanimada. Os pais decidiram mudá-la de colégio. Agora está no integral do Colégio Santa Maria. Ana Luísa fica mais horas na escola, mas está feliz – e aprendendo mais, dizem os pais. 

“Ela tem atividades esportivas, lúdicas e artísticas, o que ajuda a não ficar maçante. Não é só a quantidade de horas que importa, depende dos conteúdos e dos profissionais”, avalia o pai, Agnaldo Lorena. “No colégio anterior, as crianças ficavam confinadas num prédio fechado. No Santa Maria, ela tem contato com a natureza”, diz a mãe, Ana Paula Lorena. 

Este é o primeiro ano que o colégio oferece integral. “A gente percebeu que havia uma demanda das famílias. Atualmente há período integral para o infantil e o fundamental 1, mas a resposta tem sido tão positiva que estamos estudando expandir para o fundamental 2 em 2020”, conta a orientadora pedagógica Vanini Mesquita. 

Além de um momento para estudar e fazer a lição que seria para casa, as crianças aprendem artesanato, teatro, robótica, inglês e culinária. “A gente não quer que tenha a cara do curricular. A ideia é o aluno ter um momento de mais autonomia, mais em contato com os amigos. Outro dia, por exemplo, foi uma das alunas que ensinou os amigos a fazer biscoitos na culinária”, conta Vanini. 

Para a psicóloga Elizabeth Monteiro, a escola integral é “um mal necessário” para grande parte das famílias. “Criança em casa sem estímulo não se desenvolve na área cognitiva e intelectual. Adolescente sozinho só vai fazer besteira. Para muitos, o ambiente protegido e com estímulos da escola é a melhor opção.” Contudo, ela alerta que mesmo os estímulos precisam de certa moderação. É importante que a criança tenha sempre tempo livre, tanto na escola quanto em casa, para não fazer nada. “O que vemos em geral é um massacre de cobranças e agenda cheia, mas falta de convívio familiar. A turbulência começa já de manhã. As crianças têm de entrar num ritmo que não é o delas.”

A diretora da escola infantil Pacto, que funciona das 7 às 19 horas, Maria José Mammana, conta que muitas crianças ficam quase 12 horas sob seus cuidados, por necessidades profissionais dos pais. “Vejo que é um caminho sem volta, a escola é a segunda casa dos alunos. Mas os pais ficam tranquilos porque têm confiança.” A Pacto oferece uma série de atividades: inglês, taekwondo, teatro, circo, robótica, capoeira e ioga. “Tem de ser um tempo prazeroso. Acredito que a escola seja melhor do que criança ficar na frente da TV com uma babá”, afirma.

Vantagens

Se é uma realidade que muitas famílias necessitam de um período escolar mais longo, colégios buscam mostrar que as horas a mais são significativas no aprendizado. “Escolas de quase todo o mundo funcionam em período integral. E ainda assim a criança tem tempo para não fazer nada, brincar individualmente, sonhar”, diz Maria Helena Bresser, fundadora da escola Móbile e da Móbile Integral. 

A Móbile integral está em atividade há dois anos, mas vem sendo planejada desde 2014. “A nossa equipe sempre estudou, pesquisou, buscando conhecimentos interessantes para os alunos, mas tem coisas que não dá para injetar no currículo regular.” No período estendido, o tempo é dedicado sobretudo ao ensino de idiomas – principalmente inglês, mas também espanhol – e a aulas inovadoras de ciências. “Os alunos não ficam só memorizando, aprendem a praticar as ciências, constroem engenhocas. Dessa forma, vão percebendo as inter-relações entre os conceitos. Isso faz com que tenham mais espírito crítico.”

Tatiana Blanco, mãe de dois alunos que estão no ensino fundamental na Móbile Integral, confessa que tinha preconceito com escolas integrais. “A princípio não me interessava, mas alguns pais conheceram a proposta e me falaram bem. Decidi ir em uma reunião de apresentação e saí encantada. Eles aprendem gestão de projetos, as matérias são interdisciplinares, o que é a realidade da vida.” A mãe garante que as crianças dão conta dos estudos e muito mais. “Elas têm muita energia. Saem das aulas por volta das 16 horas e ainda vão fazer atividades, algumas fora, outras na escola, como handebol e aulas de música.”

“Hoje a maioria das famílias olha para além do curricular. Procura algo a mais, quer agregar o idioma e os esportes sem a preocupação de levar e buscar”, diz Patrícia Nogueira, diretora pedagógica da rede Pentágono, que há dois anos mudou o formato do seu período integral. “Não somos escola bilíngue, mas oferecemos uma imersão em inglês. Isso além dos esportes: futsal, vôlei, basquete, judô, ginástica, balé.” 

A educadora garante que não existe um melhor e um pior entre período regular ou integral, que tudo depende de vontade e rotina dos pais. “Para a maioria das crianças o integral funciona bem. Mas o curso precisa ser diferenciado, para ser motivador.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.