Museu da Língua Portuguesa faz reforma para atender às novas regras

Local terá ainda exposição sobre a evolução do idioma

Agência Brasil,

21 de dezembro de 2012 | 14h59

O Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista, prepara as áreas de exposição para o início da vigência obrigatória do Novo Acordo Ortográfico. De acordo com Antonio Carlos Sartini, diretor do museu, a partir do próximo mês, as reformas no local estarão concluídas e os textos das exposições passarão a atender às novas regras da língua.

Para ajudar o visitante a conhecer a evolução da ortografia brasileira, uma exposição vai trazer, em janeiro, a linha do tempo com as principais mudanças já ocorridas. “Pontuando, ano a ano, quando foram adotadas reformas na nossa ortografia e contando um pouco os motivos e as mudanças mais significativas”, explicou.

Para Sartini, exposições como essa auxiliam no aprendizado, mas é preciso um tempo maior para absorver as novidades na língua. “É um processo, mas eu tenho certeza de que, em poucos anos, nós nem vamos lembrar mais o que foi alterado. Vamos absorvendo essas mudanças com naturalidade”.

Sartini lembra que a última reforma ortográfica no Brasil ocorreu em 1972, pouco depois que ele se alfabetizou. Ele conta que, na época, as mudanças pareciam muito difíceis de ser incorporadas. “Mas, hoje, a gente nem lembra mais o que mudou".

Foi uma mudança muito pequena. Só tirou os acentos diferenciais, como o circunflexo em colhêr”, completa Maria Helena de Moura Neves, professora da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Luiz Carlos Cagliari, professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, conta que a primeira reforma na língua portuguesa ocorreu em 1536. A partir do século 16, as discrepâncias ortográficas entre Brasil e Portugal passaram a prejudicar questões burocráticas, oficias e cartoriais, o que motivou as grandes reformas de 1911 em Portugal e de 1909 no Brasil. “No começo do século 20, estava pronta a primeira reforma sociopolítica e não só acadêmica. De lá para cá houve pelo menos 30 reformas”.

Essas reformas, porém, não surtiram efeitos práticos, uma vez que as pessoas ignoravam a lei. “Antônio Houaiss não se conformava com a história de a gente ter chegado quase lá. Comparando a ortografia de Portugal com a do Brasil, apenas 5% das palavras tinham diferenças ortográficas. Então, ele achava que essas diferenças podiam ser facilmente superadas se Brasil e Portugal fizessem um acordo único”, explica.

Na opinião do linguista, contudo, a ideia de superar as diferenças ortográficas entre as duas nações era uma ilusão de Houaiss. Cagliari comparou a Língua Portuguesa, que tem duas ortografias oficiais, com outros idiomas como o espanhol e o inglês, falados com variações em diversos países. Nesses lugares, porém, não existe uma imposição de leis. “Isso é um absurdo. Não se fazem leis sobre uma coisa que não é objeto de lei, é objeto de cultura”.

Sartini concorda que pode haver uma discrepância entre as reformas impostas por leis e a língua falada. “Há muita discussão em relação à legitimidade desses acordos ortográficos. Quando os acordos representam, realmente, a evolução da língua, essa nova ortografia é muito bem vinda. Em alguns casos pode não ter tanta legitimidade, pode não representar bem a evolução da língua falada”, diz.

Para a professora Maria Helena, a lei que impôs o Novo Acordo Ortográfico não acompanha a evolução da língua. “A finalidade foi política, não foi científica. Não foi porque a língua precisava de alguma mudança, mesmo porque a língua não mudou, só a ortografia”.

Umas das principais observações feitas por acadêmicos acerca da implantação da unificação ortográfica, destacou o professor Cagliari, foi que editoras tinham como objetivo reduzir despesas na conversão de seus livros escritos em Portugal e que eram publicam no Brasil. “Esse argumento é falso porque, com a nova ortografia, aí que teve que mudar os livros. Isso custou muito caro para as editoras”.

Breno Lerner, superintendente da Editora Melhoramentos, concorda que as editoras não obtiveram vantagens com o acordo ortográfico. “Só a reforma do banco de dados do dicionário Michaelis nos custou perto de R$ 1 milhão, custo basicamente concentrado entre 2009 e 2010”.

O faturamento da editora, segundo ele, não teve crescimento representativo. “A gente não sentiu um aumento substancial de vendas”. Surgiu ainda outro problema na editora: a obsolescência do estoque. “Em dado momento, a gente teve que começar a picar livro, porque não adiantava fazer doações com a ortografia errada”, disse.

Com as publicações totalmente reformuladas, a editora já se adaptou à nova ortografia. Para o diretor do Museu da Língua Portuguesa, as mudanças trazidas pela reforma ortográfica a partir do próximo ano serão positivas. “Acho que o acordo vem para o bem. É importante que o português tenha uma forma só no mundo todo, ainda que respeitadas as suas regionalidades que são extremante saudáveis para qualquer idioma”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.