Alex Silva / Estadão
Com distanciamento e máscaras de proteção facial, estudantes fazem a prova de vestibular da Unicamp Alex Silva / Estadão

Munidos de máscara e álcool em gel, estudantes comparecem ao primeiro dia do vestibular da Unicamp

Jovens ouvidos pelo Estadão relatam preocupação com o coronavírus e dificuldades de focar nos estudos ao longo da pandemia

João Ker, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 17h50

Com canetas pretas no bolso e máscara no rosto, dezenas de estudantes se aglomeraram em frente à entrada da UNIP da Vergueiro, na cidade de São Paulo, na tarde desta quarta-feira, 6, para o primeiro dia do vestibular da Unicamp. Com o início da avaliação marcado para 13h, os vestibulandos entraram sem atraso e com maior distanciamento no prédio, onde eram recebidos por um funcionário com álcool em gel nas mãos.

"Sinceramente, eu acho que não deveria ter prova, mas também não estou me preocupando muito. O ideal seria que cancelassem ou adiassem, mas me sinto confiante", conta Geovanna Silva, de 17 anos. Concorrendo a uma vaga no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, ela chegou ao seu primeiro vestibular munida de álcool em gel e com máscara no rosto.

Em 2020, Geovanna terminou o ensino médio na ETEC enquanto conciliava as aulas à distância com os estudos para o vestibular. "Foi um pouco difícil manter os dois. Mas não me sinto nervosa, consegui me preparar, planejar e seguir o cronograma de estudos que eu mesma fiz. Também assisti a muitos eventos online", conta. 

Aos 18 anos, Renan Martins também tentou balancear os estudos para o vestibular de Sistema da Informação com as aulas do curso técnico. "Foi bem difícil. Quando mudou o ambiente e fomos para o EAD, eu ainda tive problemas de acesso à internet e confesso que dei uma desacelerada nos estudos quando o ano foi chegando ao fim."

Ao todo, 77.655 candidatos concorrem pelas 3.237 vagas, espalhadas por 69 cursos de graduação. Este ano, devido à pandemia, a Unicamp mais que dobrou o número de salas de prova, passando de 1.502 no ano passado a 3.381 este ano, para garantir o distanciamento adequado entre os andidatos. E se manter o pique de estudos para o vestibular já é difícil, a tarefa fica ainda mais em um ano atípico como 2020 foi. Dentre os estudantes ouvidos pelo Estadão, essa foi a maior dificuldade na hora de se preparar para as provas, e cada um lidou com a pressão e ansiedade do seu próprio jeito. 

"Olha, eu não consegui fazer nada. Fiquei a maior parte do tempo deitado na cama ouvindo notícias de política e lendo os livros que eu gosto, não os que eu precisava. Decidi focar em mim mesmo", conta Arivaldo Santana, também de 17 anos. Durante a pandemia, ele fazia simulados por conta própria e, quando checava no gabarito as questões que errou, investia seu tempo pesquisando sobre aqueles temas. "Fui fazendo e aprendendo."

Natural de Belém, ele chegou a São Paulo na noite da véspera e tenta uma vaga no curso de Ciências Sociais. O ritmo de estudos, explica, foi completamente alterado pelo ensino à distância. "No início do ano, eu terminava a aula presencial de manhã, almoçava e voltava para a escola, ficava até umas 20h na biblioteca. Com a pandemia, não consegui mais." 

Em seu quarto ano de vestibular, Dayana Guimarães, de 19, também mudou o ritmo de estudos ao longo do ano, mesmo que tenha abandonado a paixão pelos videogames e decidido focar pelo menos 5h diárias aos livros: "Foi muito difícil concentrar, mesmo fazendo simulado e testando minha redação. Depois de seis meses, não consegui mais."

Acompanhada da mãe, dona Eliete Guimarães, de 55 anos, e do pai, Seu Jeneci Machado, de 56, a estudante veio de Petrópolis e conta que teve medo de se contaminar pela covid-19 na viagem de ônibus. Já Sofia Taibu, de 17 anos, explica que sua preocupação maior é a mãe, com quem mora. "Estou nervosa, porque ela é população de risco. Mas espero que lá dentro esteja tudo aberto e com distanciamento." 

Pleiteando uma vaga no curso de História, a estudante explica que fez muitos simulados para se preparar, mas que focou inevitavelmente nas matérias que mais gostava. "Pela situação toda, confesso que deu uma preguicinha, mas tive bastante ajuda dos meus professores. Sinto que o vestibular da Unicamp é bem justo. Essa questão de diminuírem a quantidade de questões e o tempo de prova também ajuda."

Evelyn Santos, de 18 anos, conta uma história similar de perda do foco à medida que a pandemia se estendia por 2020. “Eu fiz meu próprio cronograma no início do ano e segui por ele até julho, quando assinei um cursinho online. Foi ótimo, porque consegui ter dicas de redação, por exemplo, e ajuda em temas que eu nem sempre encontrava as informações corretas na internet.”

Apesar de estarem munidos com álcool em gel e máscara, o coronavírus não estava na lista principal de preocupações para alguns estudantes, pelo menos não naquele momento. “Sinceramente, estou mais focada na prova”, conta Evelyn, que tenta vaga em Ciências da Computação.

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Aos 58 anos, homem dá aula de matemática na calçada em frente ao vestibular da Unicamp

Marcio Barbosa abandonou o curso superior em Engenharia, mas se diz um ‘apaixonado pela matemática’ desde então

João Ker, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 18h06

Há mais de 40 anos, Márcio Barbosa é apaixonado pela matemática. Hoje, aos 58, o ex-aluno de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tenta viver dessa paixão com um curso prático para estudantes. Na tarde desta quarta-feira, 6, ele deu vazão a esse sonho na porta da UNIP da Vergueiro, em São Paulo, com os alunos que se preparavam para fazer o vestibular da Unicamp.

"Meu objetivo é colocar o jovem em 'estado alfa' para ele chegar tranquilo na hora da prova", conta Barbosa. Ele acredita que o principal motivo de nervosismo para muitos alunos é a matemática e, por isso, ensina truques para acalmá-los, como "a tabuada em 5 segundos" e macetes para aprender a raiz cúbica "de qualquer número".

Com um quadro branco e uma calculadora, ele reuniu grupos de jovens nesta tarde que aproveitaram o intervalo até as 13h para tirarem dúvidas de matemática. "Ajuda bastante e simplifica muito a matemática. Entendi uns 'bagulho' que eu nunca aprendi na escola", comemora Victor Azevedo, de 17 anos, prestes a tentar uma vaga em Engenharia Elétrica na Unicamp.

No início do ano passado, Barbosa desenvolveu esse minicurso com três DVDs e dicas de matemática. Seu objetivo, conta, era tentar vendê-lo de porta em porta nas escolas, apesar de nunca ter conseguido dar aula em uma. Os planos, entretanto, foram por água baixo com a pandemia do coronavírus, que migrou o ensino do País para a modalidade remota.

"Eu quero banalizar a matemática", explica Barbosa, que agora pretende oferecer essas aulas relâmpago na porta dos próximos vestibulares de São Paulo. "Se eu chegar com isso no Enem ou na Fuvest, vou arrebentar!", torce.

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