Motivação do professor precisa ir além do salário, diz Shulman

Para educador americano, condições de trabalho e suporte da escola são fatores mais importantes

Fernanda Fava, Pontoedu

11 Fevereiro 2010 | 11h00

Na noite desta quarta-feira, em São Paulo, uma plateia lotada esperava o início da palestra do professor da Universidade de Stanford, o psiquiatra americano Lee Shulman, de 80 anos, presidente emérito da Fundação Carnegie para o Avanço do Ensino. Ele veio à capital paulista por uma iniciativa do núcleo de estudos de Dinâmica do Ensino e Aprendizagem do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa falar sobre a solução criativa de problemas, o ensino da incerteza e a criação da rotina.   Em um auditório bem equipado da Insper, com a presença de renomados profissionais e professores da casa e de outras instituições, falar nos baixos salários e na desmotivação dos professores no Brasil parecia distante da realidade do local.   Mas Shulman não fugiu do assunto. "O fato de que os professores não são bem pagos já é algo que a sociedade deveria rever, porque mostra que profissionais muito importantes não são recompensados pelos seus esforços, assim como aconteceu com as mulheres um dia", disse. "Mas as pessoas não estarão entendendo se pensarem que a única coisa que motiva a profissão é o salário. Pelo contrário, acredito que o que mais motiva os professores são as condições de suporte da escola e as suas condições de trabalho, sentir que estão fazendo a diferença e rendendo efeitos aos alunos."   Lee Shulman falou sobre assuntos que deveriam ser essenciais para educadores: como relacionar a teoria e a prática, como motivar o pensamento crítico e questionador na escola, como preparar o aluno para reagir frente ao inesperado, à incerteza. De acordo com o especialista, doses controladas de rotina e improvisação fazem toda a diferença. Enquanto a maioria das carreiras universitárias afirma certezas e comportamentos esperados aos estudantes, uma forma de controlar o mundo, lá fora, na vivência do mercado, o mundo nos engana o tempo inteiro, mostrando as incertezas e as surpresas do dia-a-dia.   "A experiência original de Alexander Fleming não deu certo, mas ele estava preparado para a surpresa", lembra Shulman. "E foi assim que ele descobriu a penicilina. A oportunidade favorece as mentes preparadas." Por isso, segundo o pesquisador, a função do docente é fazer seus alunos enxergarem as situações como oportunidades e não como desastres.   No que se refere à relação entre teoria e prática, Shulman acredita que uma boa aula deve trazer material teórico e exemplos de práticas bem sucedidas, com o amparo de vídeos e casos. "Procuro as coisas na prática e só depois vejo se elas têm teoria; nunca começo pela teoria."   A criação de uma rotina, afirma o professor, é um passo muito importante. Antes de ensinar para a incerteza, é preciso criar um dia-a-dia regular para os alunos. A ideia é que eles criem "hábitos de mente e do coração", diz, se referindo à forma de pensar, aos julgamentos e aos valores éticos.   "E isso só se faz pela repetição. Por isso, o primeiro ano da faculdade é o mais difícil de todos, porque é preciso introduzir os modelos mentais que guiarão os alunos para o resto do curso", explica Shulman. Por causa disso, o especialista acha fundamental que os melhores professores deem aulas no primeiro ano e não sejam deixados para o final, como acontece na maior parte das universidades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.