Volker Lannert/DAAD
Volker Lannert/DAAD

Modelo alemão

Governo mobiliza indústria, universidades e startups para revolucionar tecnologias médicas

Simone Iwasso, enviada especial a Munique, Alemanha,

30 Julho 2012 | 20h30

Com orçamento garantido e apoio governamental, Christoph Alexiou não esconde o entusiasmo ao falar dos avanços em sua pesquisa: um tratamento que leva quimioterápicos em nanopartículas magnéticas injetadas na artéria do paciente diretamente para o centro do tumor, guiadas por um aparelho de ressonância magnética. O tratamento tem 200 vezes mais potência que o tradicional, sem efeitos colaterais como espalhar o medicamento pelo organismo, diluindo seu efeito e matando tanto células doentes quanto saudáveis.

Os resultados em animais até agora foram animadores e a equipe de Alexiou, formada por médicos, engenheiros, físicos, bioquímicos e especialistas em programação, aguarda ansiosamente a autorização para começar os primeiros estudos em humanos. O projeto, desenvolvido num dos laboratórios da Universidade de Erlangen, é mais um entre as centenas de iniciativas promissoras desenvolvidas no sudeste da Alemanha, centro de excelência e inovação no desenvolvimento de tecnologias médicas.

Os números da região impressionam: são 45 mil estudantes, pesquisadores, professores e técnicos trabalhando em 500 empresas, 65 hospitais, 60 departamentos de universidades e 20 institutos independentes de pesquisa, todos voltados para as tecnologias médicas. Lá são desenvolvidos aparelhos de diagnóstico e tratamento de doenças; softwares para cirurgias minimamente invasivas; chips para implantes cerebrais; lasers portáteis que funcionam como bisturis; próteses e implantes com materiais biossintéticos que substituem órgãos, tecidos e válvulas; roupas que monitoram funções do corpo; e qualquer outra invenção que ajude a enxergar, compreender e reparar lesões, tumores e todos os tipos de desgastes do organismo.

O cluster é financiado pelo governo alemão – que traçou um plano de desenvolvimento para a região até 2020 – e por inúmeras empresas privadas, entre elas gigantes no seu setor, como a Siemens. Envolve a participação de mais de cem startups, lideradas por estudantes, recém-formados e jovens pesquisadores.

“Nosso objetivo é ver as tecnologias que desenvolvemos se transformarem em tratamentos convencionais seja daqui a 1, 5, 10 ou 20 anos”, explica Alexiou, médico especializado em gastroenterologia que migrou para a área oncológica. “Temos um ambiente único, de convívio entre pesquisadores experientes e jovens estudantes, e precisamos estar à frente na nossa área”, diz.

O discurso do pesquisador é bastante semelhante ao que se ouve nos corredores de qualquer um dos institutos e departamentos desse conglomerado, formado por vários consórcios e por estudantes e pesquisadores de todo o mundo.

“Há um intenso apoio à pesquisa e inovação que transformou a Alemanha num país líder na área de tecnologias médicas. Nosso desafio é garantir essa posição e promover uma cooperação mais forte entre a pesquisa e a indústria, com uma transição eficiente do estudo clínico para o mercado”, explica Richard Mittreiter, representante do Ministério da Educação alemão. “Há estímulo para que jovens pesquisadores se transformem também em jovens empreendedores.”

Mapa.O governo traçou um mapeamento da área e identificou os campos com maior interesse para a pesquisa: nanotecnologia, diagnóstico e tratamento oncológico, próteses e implantes, entre outros (veja lista nesta página). Para isso, desde a graduação há um grande estímulo à inovação e a transformação da pesquisa em produtos para a indústria. Além disso, os empreendedores recebem apoio para registrar patentes, abrir empresas ou submeter produtos à aprovação das agências de regulação.

“A vantagem desse convívio é que aprendemos com os outros especialistas, convivemos com profissionais que têm formações muito diversas, que vieram de outros países. Durante um café na lanchonete você pode ter uma ideia, desenvolver um projeto, ajudar um colega e começar uma startup”, diz Ing Kurt Höller, diretor do Instituto de Engenharia da Saúde da Universidade Friedrich-Alexander, em Nuremberg, que recentemente criou uma graduação em tecnologias médicas, uma mistura de ciências biológicas com engenharia. “Eu me formei aqui, fundei mais de uma startup com outros colegas quando estava saindo da graduação, e fui estimulado a fazer isso. Experimentei participar de vários projetos e quero criar um ambiente para que os alunos se sintam compelidos a fazer o mesmo.”

O bioquímico francês Nicolas Beziére experimenta esse convívio: em seu projeto, ele trabalha com médicos, biólogos e físicos. “Estamos testando um marcador que, acionado por um tipo de laser, permita ao cirurgião visualizar todas as células de um tumor; é um projeto que precisa do conhecimento de áreas diferentes, de físicos, de programadores, de médicos, e isso nós encontramos facilmente aqui”, diz Beziére, lotado no Instituto Helmholtz Zentrum, de Munique. A proposta do grupo é injetar o contraste no paciente e acionar o laser no momento da cirurgia, fazendo com que todas as células cancerígenas brilhem e permitindo que sejam todas removidas – o que envolve novos softwares, novos produtos químicos e novas técnicas cirúrgicas. “Trabalhamos para um dia ver isso usado nos centros cirúrgicos de qualquer hospital.”

PRÓTESES E IMPLANTE: Universidades e novas empresas trabalham no desenvolvimento de próteses e implantes feitos com materiais biossintéticos, que provocam menos rejeição e se adaptam melhor à anatomia humana.

TELEMEDICINA E SAÚDE: Softwares de comunicação e câmeras com alta definição já permitem que médicos se comuniquem em localidades distantes, auxiliando no diagnóstico e tratamento de doenças complexas, principalmente em regiões pobres e mais afastadas.

DIAGNÓSTICO IN-VITRO: Novas possibilidades para os exames de biologia molecular, alguns já no mercado e outros em teste, incluem dados genômicos, diagnóstico de tumores e respostas imunológicas, que mostram a eficácia de um remédio de alto custo.

ENGENHARIA CELULAR E DE TECIDOS: A busca de quem está na área é produzir, a partir de células-tronco, órgãos e tecidos. Uma das pesquisas, em fase de teste, pretende reconstruir uma mama a partir das células de gordura da própria paciente, sem silicone.

MINIATURIZAÇÃO: Boa parte dos projetos que procuram aperfeiçoar o tratamento do câncer aposta na nanotecnologia – micropartículas que levam medicamentos ou vírus programados diretamente para a célula doente, sem matar as saudáveis.

TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO: Aplicativos de celular que monitoram dados vitais do paciente, como o controle da glicemia no caso de um portador de diabete, estão crescendo e abrindo um novo campo para médicos e desenvolvedores.

PERSONALIZAÇÃO: Segundo especialistas, o futuro do tratamento médico é ser individualizado: remédios para cada tipo de célula de tumor, testes que identificam as doses corretas para cada pessoa, próteses feitas de acordo com a anatomia de cada paciente.

INTEGRAÇÃO: Especialidades trabalhando juntas e diagnósticos feitos de forma integrada: médicos se reúnem para discutir o caso e pensam o tratamento de forma integrada - ao contrário do modelo mais comum ainda hoje, onde cada área age isoladamente.

MEDICINA POR IMAGEM: Resolução cada vez maior, visualização em 3D – com profundidade –, equipamentos mais anatômicos e máquinas capazes de diagnósticar lesões e aplicar o tratamento ao mesmo tempo - já existem formas incipientes para alguns tumores, por exemplo.

SISTEMAS CIRÚRGICOS: Robôs inteligentes, comandados pelo cirurgião, devem ocupar cada vez mais espaço dentro dos centros cirúrgicos, na realização de procedimentos menos invasivos e extremamente complexos, acompanhados de novos softawes para visualização.

* A repórter viajou a convite do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD)

Mais conteúdo sobre:
medicina startups

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.