Mochilas pesadas: o perigo volta com as aulas

A mãe de Ana Carolina, aluna da 5.ª série, não se conformou. "O que é que você está levando aqui dentro, menina?", perguntou ela na manhã de terça-feira, ao erguer a mochila da filha, antes de acompanhá-la até a escola. A mochila pesava entre 7 e 8 quilos. Quase 20% do peso de Ana, de apenas 10 anos. Dentro da mala, uma agenda, quatro cadernos grandes, uma pasta e dois livros. Para compensar o peso, Ana caminha da escola até sua casa com o corpo inclinado um pouco para a frente. No ano passado, foi parar num ortopedista. "Fez seis meses de fisioterapia para tratar de um problema ortopédico por sentar de maneira errada e por carregar mochila pesada", diz a mãe, a professora Miriam Faria, de 38 anos. Embora ainda não haja pesquisas conclusivas sobre qual o limite de peso que as crianças podem levar, médicos consideram que as mochilas, malas, bolsas não devem ultrapassar 10% do peso da criança. No ano passado, a Prefeitura chegou a sancionar uma lei que impõe esse limite aos alunos da rede pública. A nova legislação ainda precisa ser regulamentada e, por enquanto, não tem valor. O problema, do ponto de vista médico, é que durante a idade escolar o esqueleto ainda não se desenvolveu plenamente e o peso excessivo não é nada recomendável. "Nos meninos, em geral, o desenvolvimento vai até os 14 anos, e nas meninas, até os 16 anos", diz o ortopedista pediátrico Cláudio Santili, responsável pelo grupo de Ortopedia Pediátrica da Santa Casa de São Paulo. "O pior é transportar o peso de um dos lados, porque pode provocar um desequilíbrio muscular, dores e, em tese, predispor a uma escoliose, um desvio lateral da coluna", diz o médico. "Como o esqueleto ainda está em crescimento, pode haver alterações de postura no futuro." Levar o material numa mochila é melhor, dizem os especialistas. Mas, atenção ao peso. "Para se manter equilibrada, a criança projeta o corpo para a frente e força a região da cintura escapular (dos ombros à base do pescoço)". Se isso for uma prática crônica, poderia favorecer o chamado dorso curvo, segundo Santili. Ele lembra, porém, que faltam estudos sobre o assunto. As malas com rodinhas também são uma boa alternativa. Mas como vencer escadarias ou calçadas irregulares senão levar a bolsa lateralmente ou nas costas? "É muito peso, mas não dá para tirar livros e cadernos de dentro da mala dele", diz o empresário André Padilla, de 40 anos, ao lado do filho, André, de 10 anos, 39 quilos e dono de um pesada mochila de quase 10 quilos. "É claro que faz mal, é um grande incômodo." O pequeno André, assim como Ana Carolina, são alunos do Colégio Sagrado Coração de Jesus, na Pompéia, zona oeste, instituição que recebe alunos da classe média da cidade. Muitos pais levam seus filhos de carro. MunicipalDo outro lado da cidade, na Escola Municipal de Ensino Professor Aroldo de Azevedo, no Limão, zona norte, a situação é outra. Muitos alunos vão a pé. E reclamam ainda mais do peso de suas malas. Franzino (31 quilos), Diego Oliveira, de 11 anos, volta e meia tem de caminhar cerca de 10 minutos até a escola. "Uso mochila, mas meus ombros sempre ficam doendo", diz o menino, matriculado na 5.ª série. Tiago Pereira, de 11 anos, também reclama. "No caminho de casa às vezes paro para descansar um pouco. Tem dia que a gente precisa trazer cinco livros, porque tem uma aula de cada matéria", afirma. "Há quatro anos eu levo este peso." Duro de levar

Agencia Estado,

08 de fevereiro de 2003 | 11h55

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