Mobilização enfraquece reitora

Desgaste vem desde 2007, quando alunos ocuparam reitoria por 50 dias

Renata Cafardo e Eduardo Nunomura,

15 Junho 2009 | 17h07

A greve dos funcionários da Universidade de São Paulo (USP), que começou em 5 de maio e tem hoje o apoio do sindicato dos professores e de parte dos alunos, desgastou ainda mais a imagem da reitora Suely Vilela. A farmacêutica, de 56 anos, está a cinco meses do fim de um mandato conturbado. Professores titulares ouvidos pelo Estado consideram que ela está isolada, mas avaliam ser difícil prosperar o movimento que pede "Fora Suely". O pedido de destituição da reitora entrou na pauta de reivindicações na terça-feira, quando a Polícia Militar confrontou-se com servidores, estudantes e docentes na Cidade Universitária. Há dois anos, Suely foi pressionada por alunos e servidores grevistas que ocuparam a reitoria por 50 dias e deixaram um prejuízo de R$ 350 mil em danos ao patrimônio (entre móveis e computadores quebrados). À época, a reitora optou por negociar, deu sucessivos prazos para a retirada do grupo do local e evitou a reintegração de posse pela polícia até o fim. A atitude rendeu críticas à reitora tanto no meio acadêmico como no governo estadual. Neste ano, agiu de maneira oposta. Mas Suely – que pesquisava venenos de serpentes antes de ser eleita a primeira reitora da USP – está sendo novamente criticada pela posição diante da greve. Após a ocupação da entrada do prédio da reitoria por manifestantes no início do mês, Suely optou por usar um documento recente da instituição que garante o pedido de reintegração de posse na Justiça em casos de invasão. Para cumprir a medida, pediu a presença da Polícia Militar na Cidade Universitária. Na terça-feira a PM ainda estava lá e acabou em confronto uma provocação de grevistas a policiais. Foram usadas, de um lado, bombas de gás e balas de borracha e de outro, pedras e garrafas. "Eles são intolerantes. Chega um momento em que não aguentamos tanta provocação", afirmou o coronel Claudio Miguel Longo, do 4º Batalhão da PM, que estava no local. O conflito deixou feridos e rendeu um debate sobre a necessidade ou não da presença de policiais na universidade. A reitora, segundo relatos, acompanhou o confronto pela TV. Na reunião de negociação com manifestantes, mais tarde, enviou o vice-reitor, Franco Lajolo. O filósofo José Arthur Giannotti resume o momento: "Ela deixou de ser magnífica reitora e virou só reitora", usando a forma de tratamento cerimoniosa, comum a reitores no País. O professor do Instituto de Matemática e Estatística Sergio Oliva acredita que uma ala mais conservadora da USP tentará pôr panos quentes na crise. Um eventual afastamento antes do término do mandato seria desastroso. "Suely não cai, mas não por ela e sim porque a universidade não poderia demonstrar essa fragilidade", diz a diretora de uma das faculdades, que pediu para não ter o nome revelado. Em 2005, na primeira entrevista após a confirmação de seu nome pelo então governador Geraldo Alckmin (PSDB), Suely se mostrou uma mulher vaidosa e apreciadora de Julio Iglesias, filmes como Titanic e livros de autoajuda. As declarações feitas ao Estado repercutiram mal entre intelectuais. À época, ela considerou ingenuidade sua ao lidar com a imprensa. Desde então, passou a evitar entrevistas e até hoje pouco se pronuncia. No dia a dia, a reitora é apontada por professores e funcionários como uma mulher centralizadora, decidida a impor seus projetos. "Ela não confia em ninguém", afirma uma ex-integrante do seu staff. Uma de suas aliadas é a pró-reitora de graduação Selma Garrido Pimenta, que conseguiu aprovar a mudança mais significativa – e polêmica – do vestibular da USP. Em 2006, a Fuvest passou a dar pontos a mais para alunos de escolas públicas, o que os colocou em vantagem na concorrência com os demais. Se não fossem os embates com movimento estudantil e sindicatos – que ajudaram a elegê-la reitora, com apoio e votos – a avaliação era de que Suely poderia ficar na história como a mulher que abriu a USP para alunos de escolas públicas. Alguns apontam que, na prática, a reitora tem conseguido aprovar medidas nas votações do Conselho Universitário (órgão máximo da instituição, composto por diretores de unidades) por conta de uma razão: é dela a chave do cofre. A maioria do orçamento da USP (cerca de R$ 3 bilhões) vai para despesas fixas, como custeio e salários. Rendas extraorçamentárias, como as taxas cobradas por cursos e laudos produzidos pelas unidades, passaram a ser centralizadas na reitoria. Essa seria a moeda de troca de Suely. Foi o mesmo conselho que votou em maio de 2008 uma deliberação garantindo a reintegração de posse de prédios da USP. "Internamente, todos sabem que ela não poderá ser acusada de ter tomado essa decisão sozinha (de pedir a reintegração nessa greve, com presença da PM)", disse um professor titular. Mesmo assim, comenta-se que isso prejudicaria também seus planos futuros: de se candidatar a um cargo político em Ribeirão Preto, cidade em que morou na juventude. Desde o início da greve, a reitora não mudou sua rotina. Chega por volta das 8h30 e sai às 20h30, de segunda a sexta. Despacha no prédio da reitoria, que tem sido alvo das manifestações no câmpus. Tem sob seu comando um gigante educacional, com mais de 80 mil alunos, 5 mil professores e 15 mil funcionários.

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