Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Mobilidade ativa no currículo

Estudo do deslocamento de pedestres e de ciclistas ganha espaço nas grades de graduações e pós de várias áreas

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estado

28 Abril 2018 | 03h00

Qual é a chance de alguém que estuda Engenharia Civil ou faz um curso tecnológico em Transporte Terrestre estudar o deslocamento do pedestre ou as rotas de ciclistas? Até bem pouco tempo, esses temas inexistiam ou eram extremamente periféricos nos currículos universitários brasileiros. Recentemente, no entanto, os sinais de esgotamento do modelo urbanístico que prioriza o carro têm feito com que novos conceitos de mobilidade urbana conquistem espaço nas grades curriculares das graduações e das pós-graduações de áreas diversas do conhecimento.

“No Brasil, a mobilidade é uma área dominada por engenheiros, que vêm da tradição de construir pontes. Essa outra discussão é ainda incipiente aqui, mas ganha espaço com essa nova geração, que mudou a chave. Eles têm 20 anos de idade e o sonho de consumo é mais uma bicicleta elétrica e morar perto de ciclovia e de metrô do que ter um carro”, afirma Rodrigo Moita, professor do Insper.

Moita é professor de Economia e coordena um grupo de estudos sobre mobilidade urbana com alunos da graduação - a iniciativa surgiu há quatro anos com a proposta de ser provisória, mas o interesse dos estudantes fez com que se tornasse definitiva. Os alunos têm bolsa de iniciação científica para estudar temas como a economia do transporte urbano e a teoria econômica por trás do trânsito.

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Custos. Algumas cifras mostram a urgência de se repensar os paradigmas de mobilidade vigentes. Um estudo do Observatório Nacional de Segurança Viária mostrou que os custos derivados de acidentes de trânsito chegam a R$ 56 bilhões por ano - soma de gastos com socorro, seguro, leito de hospital, medicamentos, afastamento de trabalho, indenizações e Previdência.

Esse valor seria suficiente para construir 28 mil escolas a um custo de R$ 2 milhões cada unidade ou 1,8 mil novos hospitais, custando R$ 30 milhões cada. A opção pela mobilidade ativa também previne doenças ligadas ao sedentarismo, que levam a um custo para o Sistema Único de Saúde (SUS) de cerca de R$ 3,5 bilhões por ano. 

“Também vale citar o valor do tempo de cada indivíduo e de como ele tem sido desperdiçado em horas no trânsito”, completa Ingrid Ribeiro Aguiar, aluna do 4.º semestre de Economia do Insper.

Atualmente, Ingrid e os colegas desenvolvem uma pesquisa de Origem e Destino dentro do próprio Insper que, dentre outros fatores, revela a disposição dos estudantes em utilizar meios de locomoção ativos, como a bicicleta e a caminhada. 

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Poder público. Os resultados do interesse por mobilidade ativa ganham contornos ainda mais efetivos quando a disciplina extrapola o câmpus. Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o estudo do tema foi impulsionado pela parceria com a prefeitura desse município mineiro e se desenvolveu até chegar a um acordo de cooperação com a Frente Nacional dos Prefeitos e a WRI Brasil, ONG voltada à sustentabilidade urbana.

A disciplina, oferecida no curso de Arquitetura e Urbanismo, funciona como um ateliê de projetos com aplicação em vias de Juiz de Fora: os estudantes fazem o diagnóstico e propõem possibilidades de ruas completas, com ciclovias e ciclofaixas, prioridade do transporte coletivo e espaço seguro e adequado para pedestres.

“Nossa principal dificuldade é conscientizar as pessoas para transformar a lógica de organização das cidades, que ainda é pautada na centralização do automóvel. Mas a prefeitura já tem procurado estagiários com esse perfil e outras universidades da cidade também querem se unir a nós nesse projeto”, afirma o professor Fernando Lima.

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O papel da academia como instigadora de políticas públicas na área da mobilidade urbana também é percebido e valorizado no mestrado em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). O tema está associado às disciplinas Desenho e Planejamento Urbano e Cidades do Futuro.

“A Política Nacional de Mobilidade Urbana, em 2012, e as políticas de acessibilidade são nossos objetos de estudo, ao mesmo tempo que temos consciência de que tais políticas também são criadas pela pesquisa dentro da academia, associada aos movimentos sociedade civil organizada”, afirma André Turbay, professor da Escola de Arquitetura e Design da PUC-PR.

“Curitiba é a capital brasileira com maior número de carros por habitante, apesar de termos um transporte público até razoável. As conversas de bar tratam de problemas como engarrafamento. Só que no bar não conversamos sobre as alternativas que discutimos na universidade”, compara o professor.

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Por isso, a importância da articulação entre cidade e academia, mesmo quando ela não é proposta pelo poder público. A PUC-PR, por exemplo, estuda o projeto de compartilhamento de bicicletas e a instalação de parklets - aquelas vagas de estacionamento transformadas em espaços de convivência.

Parceria Internacional. Como o Brasil ainda engatinha nessa área, em que muitos países já caminham com segurança e resultados, buscar conhecer e entender as experiências internacionais é um expediente comum no estudo de mobilidade urbana.

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU-Mackenzie), por exemplo, tem parceria com o instituto francês Cidade e Movimento, com a Universidade Politécnica de Barcelona, com a PUC do Chile, com a Universidade de Los Andes (em Bogotá) e com a Universidade de Hannover, uma das mais prestigiadas da Alemanha, com a qual a instituição oferece possibilidade de dupla titulação.

“Tivemos um doutorado defendido recentemente em dupla titulação em que nossa aluna estudou os nós de transporte e lugar. Ela discutiu a importância de uma estação de trem não ser vista só como um ‘nó de transporte’, mas como um lugar na cidade com várias atividades e uma dinâmica complexa”, explica Angélica Alvim, diretora da FAU-Mackenzie e conselheira do instituto francês Cidade em Movimento.

O princípio é que, para pensar na mobilidade, o aluno tenha de considerar a melhoria do espaço público, das atividades urbanas. “É uma visão ampla e transversal, que considera a promoção de uma cidade mais diversa, mais mista, em que se pense em trabalhar a pé, estudar perto de casa”, completa Angélica.

Nesse ponto, defende, a cidade de São Paulo sancionou, em 2014, um Plano Diretor promissor, com uma visão combinada entre uso do solo e transporte. “A lei propõe um trabalho intersetorial entre as Secretarias Municipais de Transporte e de Desenvolvimento Urbano porque não adianta pensar em um sistema de ciclovias e faixas de ônibus sem considerar a relação com o adensamento urbano.”

Mudança. A grade curricular do curso superior tecnológico de Transporte Terrestre da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) mostra como as instituições de ensino da capital têm se adequado a esse novo momento. Criado a pedido de organizações como Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e Desenvolvimento Rodoviário (Dersa), o curso nasceu com a grade voltada para a infraestrutura pura. “Em 2012 foi feita uma revisão e inserida uma visão mais humanística do processo, uma visão ampla de mobilidade urbana”, explica o coordenador do curso, professor Edegar Keretch.

Kereth conta que, entre os alunos, há muitos funcionários de empresas como a CET, o Metrô e a CPTM. “No geral, os alunos que nos procuram são muito direcionados, sabem o que querem. Conseguem enxergar os problemas da cidade. E, posteriormente, quando vão executar projetos como corredores de ônibus e faixas exclusivas, aplicam uma visão ampliada, tanto de usuário como de planejador, o que é impressionante.”

Rafael Drummond está no terceiro dos seis semestres do curso e conta que, nas aulas de planejamento urbano que teve nesse período, estudou como o desenho urbanístico afeta pedestres e ciclistas, como o transporte impulsionou o crescimento da cidade e também como as pessoas se relacionam com a cidade a partir do uso das calçadas. “Neste semestre, temos uma matéria sobre mobilidade e sustentabilidade e a professora tem focado muito na questão do compartilhamento das vias, na necessidade de haver mais ciclovias e de serem conectadas”, afirma.

De fato, mobilidade vai muito além do motor: inclui das rodinhas dos skates às cadeiras de roda, do pneu da bicicleta a andar sobre dois pés. E tudo isso cabe no currículo.

​Mobilidade Ativa

Significado. O termo mobilidade ativa se refere aos deslocamentos de pessoas e bens por propulsão humana. Os principais modos ativos são o caminhar e andar de bicicleta, porém também são considerados modos ativos usar skate, patins, patinetes e cadeira de rodas. A prática é considerada a mais eficiente para curtos deslocamentos, até cerca de cinco quilômetros, e também um dos modos mais eficazes de redução de custos na saúde pública. Algumas entidades se dedicam a pressionar os governos para a implementação de políticas públicas que valorizem a mobilidade ativa e a conscientização da sociedade para os benefícios decorrentes dela.

Pedestres. Em São Paulo, a associação Cidadeapé tem como foco a promoção de melhores condições para o pedestre e, para isso, elenca os fatores que dificultam a vida de quem caminha pelas cidades. “Os principais desafios são convencer a sociedade e o poder público a verem o andar a pé como uma forma de transporte e conseguir os investimentos em mobilidade para melhoria da caminhada, como melhores calçadas, tempo para atravessar a rua e mais faixas de pedestres”, explica Glaucia Pereira, membro do grupo. A especialista chama a atenção para o papel fundamental do pedestre dentro do sistema de mobilidade urbana. “Lembrando que é o meio de transporte mais utilizado, até porque é o que conecta todos os outros meios”, resume ela.

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