Ministro é a favor de ranking de instituições

Maior atração da 13.ª Conferência Ibero-Americana de Educação, que reuniu seis ministros e representantes de 20 países na Bolívia, Cristovam Buarque não se acanha em dizer que ainda não teve tempo de ler o projeto de mudança do ensino superior brasileiro, apresentado na terça-feira. Como relator do documento final da conferência, ele tentou incluir no texto a recomendação para que os países avaliem seus cursos e universidades, mas não conseguiu unanimidade. O consenso, porém, pouco importa ao ministro.Em entrevista, Cristovam deixou claro que defende a continuidade do ranking de instituições, mesmo sabendo que a comissão que ele nomeou para preparar o projeto é contrária à idéia. "Na medida em que você avalia, alguém vai fazer o ranking. O MEC estará sendo omisso se deixar que revistas ou universidades façam isso."Estado - Qual a principal mudança e a vantagem do novo sistema de avaliação?Cristovam Buarque - Eu não sei ainda qual vai ser a diferença porque ainda não está pronto o sistema. O projeto proposto eu ainda nem li. Assisti à apresentação feita pela comissão, mas não tive tempo de ler. Nem tenho pressa. O documento é muito grande. Não entendo como tanta gente já se pronunciou contra ou mesmo a favor sem ter tido tempo de ler.Estado - Pela apresentação, o senhor não pode dizer qual seria a vantagem do projeto?Cristovam - Uma vantagem é não basear a avaliação da universidade na do aluno. A instituição tem de ser avaliada pela totalidade. O Provão se baseava só na avaliação do aluno. O importante é saber que essa não é a proposta do MEC, mas a proposta que o MEC pediu a uma comissão. Ela está circulando e vou pedir a opinião de muita gente. Agradeço ao (ex-ministro) Paulo Renato ter aceitado participar e indicado pessoas pelas quais eu tenho o maior respeito (Maria Helena Guimarães, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, e Eunice Durhan, presidente do Núcleo de Ensino Superior da Universidade de São Paulo). Vou fazer um debate em algumas semanas e vou querer a presença delas. Nós todos temos um débito com ele por ter criado uma cultura de avaliação.Estado - O objetivo do sistema agora é ainda o credenciamento e reconhecimento de cursos, como antes?Cristovam - É isso, mas também queremos que o aluno saiba como é a universidade em que vai estudar. Pretendemos, de certa maneira o mesmo que antes, a radiografia. Mas também queremos avaliar o curso.Estado - Mas o projeto sugerido não prevê a avaliação por curso e sim por área.Cristovam - Mas é só uma proposta. Não há ainda um documento. Se a opinião pública e os especialistas disserem "isto não presta", a gente não vai fazer. Eu tenho de me resguardar um pouco. Não tenho de ficar dando opinião agora sobre esse documento, porque no fim sou eu que vou assinar. Dou opinião sobre a política e não sobre a técnica. Não acho que preciso ficar entrando nos detalhes. Não sei por que a imprensa cobra tanto isso.Estado - O que o senhor acha do ranking de instituições?Cristovam - Eu sou a favor. Na medida que você avalia, alguém vai fazer o ranking. O que a comissão defende é que o aluno faça seu ranking, quando vai escolher a universidade. Faz sentido, mas se a gente deixar assim cada revista vai fazer seu ranking, cada universidade vai fazer o seu ranking. Aí o MEC estaria sendo omisso. Mas não defendo um ranking único. Pode ser por categorias, por exemplo, por regiões. Poderia ser: qual a melhor universidade do Brasil nas cidades com menos de 200 mil habitantes? Há faculdades que, quando comparadas com as melhores de todas, não são boas. Mas o fato de elas existirem naquela cidade já é uma grande coisa.Estado - Mas como fazer ranking com resultados mais subjetivos, como se propõe agora?Cristovam - Se uma instituição não é objetiva, não pode ser avaliada só objetivamente. Já pensou se as pessoas fossem avaliadas só objetivamente, pela altura, por exemplo? E o caráter? Você dá nota para o caráter? As universidades têm caráter, personalidade. É mentir querer avaliar apenas com indicadores objetivos coisas que são subjetivas. A participação da universidade em solução de problemas sociais, por exemplo, é subjetiva.Estado - O governo anterior diz que criou critérios objetivos para não sofrer pressões políticas no reconhecimento de cursos.Cristovam - Eu não tenho medo de pressão política. Mas não dá para dizer que deixou de haver pressão política por causa do Provão. Se um sistema objetivo não dá o resultado correto, a gente evita a pressão política de maneira errada.Estado - O Provão vai acabar. Esse nome vai sumir?Cristovam - Nada se chama Provão. É Exame Nacional de Cursos, mas não ligo se esse nome continuar. Não é uma preocupação nossa. É um nome que pegou. O que a gente vai fazer é melhorar o sistema de avaliação. Espero no próximo ano ter uma sistema mais amplo, mais rigoroso que o atual. Mas só vamos substituir se e quando encontrarmos um melhor. Caso contrário, continua o que está.

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