Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

MEC ainda avalia como medir efeitos da pandemia sobre a aprendizagem dos alunos brasileiros

Presidente do Inep disse nesta terça-feira que está vendo a possibilidade de fazer avaliações amostrais. Interrupção das aulas trará desafios extras para a educação nos próximos anos, afirmam especialistas

João Ker, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 14h36
Atualizado 16 de setembro de 2020 | 15h56

O Ministério da Educação (MEC) informou nesta terça-feira, 15, que ainda estuda como avaliar os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a aprendizagem dos alunos no Brasil. O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, afirmou que o órgão está “vendo a possibilidade de fazer avaliações amostrais” sobre esses efeitos, mas seriam para estudos internos e não avaliações em larga escala.  

A declaração foi dada na coletiva de imprensa de divulgação dos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2019, que mostram avanço inédito do ensino médio, mas desacelação do crescimento dos anos finais do fundamental.

Na apresentação, gestores do MEC destacaram o avanço do ensino médio, que vinha de anos de estagnação, mas lembraram do desafio nesta etapa e também nos anos finais do fundamental, grupo que o ministério promete olhar com mais atenção para combater a evasão escolar.

"Entendemos que essa conversa tem que começar lá no ensino fundamental 2, de modo que nossos estudantes possam chegar ao ensino médio e estancarmos essa questão", afirmou Izabel Pessoa, secretária da Educação Básica, reforçando a ideia de investir na educação integral.

Segundo educadores, a pandemia vai trazer desafios extras para a educação nos próximos anos. O período prolongado de fechamento das escolas deve aumentar a defasagem de aprendizagem de grande parte dos alunos, especialmente os mais vulneráveis, e também elevar o risco de evasão. Além disso, o poder público terá dificuldades para implementar medidas sanitárias para reduzir o contágio do novo coronavírus, como reduzir o número de estudantes por turma, em um cenário de maior restrição orçamentária. 

Apesar de ainda não haver um plano traçado pelo MEC, a maioria dos especialistas em educação concorda que os efeitos da pandemia sobre o ensino precisam ser estudados, em especial a forma como as aulas remotas reforçou desigualdades sociais no aprendizado. “O grande problema é que os alunos estão sendo afetados de uma maneira muito desigual, seja por falta de equipamento, conexão, por não saber usar os dispositivos etc.”, afirma Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de Articulação do Instituto Ayrton Senna.

Ela aponta que a falta de ações coordenadas pelo governo federal ou pelo MEC, deixando que Estados e municípios criassem as próprias regras, também foi um problema, já que “cada rede foi tentando achar o melhor caminho para contornar essa situação”. Ainda assim, ela explica que a situação serviu para mostrar como a situação tornou imprescindível a atenção às competências socioemocionais.

“Com a questão da pandemia, levantou-se uma variável que não era muito clara: o quanto o emocional, o sentimento e o afetivo podem ser impactantes para o sucesso ou para o fracasso. Esse é um ponto que não podemos ignorar”, afirma, frisando a importância de políticas públicas que mirem todos os níveis e etapas da vida escolar. 

Izabel Pessoa, do MEC, anunciou que o governo federal vai destinar R$ 525 milhões para ajudar as escolas que decidirem retomar as aulas presenciais ainda este ano. O aporte será transferido pelo Programa Dinheiro Direto na Escola, que ainda inclui apoio técnico e orientações a protocolos de biossegurança para 116.767 escolas de 5.100 municípios em todo o País, impactando 36,8 milhões de estudantes.

Ministro diz não fazer pregação e reforça 'valores'

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse nesta terça-feira, 15, ter sido escolhido para o cargo por estar de acordo com “valores" e "princípios” propostos pela gestão Jair Bolsonaro, mas afirmou estar aberto ao diálogo com secretários estaduais e municipais. 

“Claro que temos uma linha e um propósito com relação à educação e isso deve prevalecer." Ainda segundo Ribeiro, sua indicação não teve viés político, uma vez que ele não é afiliado “a nenhum partido nem grupo religioso, tampouco os evangélicos”.

“Tenho conversas com eles, mas não os represento”, afirmou ele, que além de ter sido vice-reitor da Universidade Mackenzie também é pastor presbiteriano. "Ele (Bolsonaro) pagou o preço de colocar alguém que nem conhecido era. Um pastor, como sou. Embora eu não esteja aqui fazendo pregação no MEC. Minha visão é outra sobre meu trabalho. Ele se expôs politicamente ao me colocar aqui", disse ele, em fala que durou menos de dez minutos, antes de deixar o evento. 

Na quinta-feira, 10, Ribeiro foi criticado após afirmar que os jovens são “zumbis existenciais” por não acreditarem em Deus ou na política, durante evento no Palácio do Planalto. "Temos hoje no Brasil, motivados, creio eu, por essa quebra de absolutos e certezas, verdadeiros zumbis existenciais. Não acreditam mais em nada, desde Deus e política, não têm mais nenhuma motivação."

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