Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ministro da Educação diz que universidade deveria ser para poucos

Em entrevista, Milton Ribeiro defendeu a volta às aulas, ironizou demanda de professores por vacinação e se mostrou surpreso com o tamanho da pasta que chefia

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 17h02
Atualizado 10 de agosto de 2021 | 19h43

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse nesta segunda-feira, 9, que as universidades brasileiras deveriam ser para poucos. Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, Ribeiro defendeu a volta às aulas na educação básica, ironizou a demanda dos professores por vacinação contra a covid-19 e se mostrou, mais uma vez, surpreso com o tamanho da pasta que ele chefia há mais de um ano. 

Para Ribeiro, os institutos federais, com ensino técnológico e profissionalizante, serão “as vedetes” do futuro. Ele disse estar cansado de encontrar motoristas que têm graduação completa. “Tem muito engenheiro, advogado, dirigindo Uber porque não consegue a colocação devida, mas, se fosse técnico em informática, estaria empregado porque há demanda muito grande”, disse o ministro. 

“Então, o futuro são os institutos federais, como é na Alemanha hoje. Na Alemanha, são poucos os que fazem universidade. A universidade, na verdade, deveria ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade”, completou Ribeiro. A declaração foi criticada por especialistas em Educação nesta terça-feira. Para Lucas Hoogerbrugge, do Todos pela Educação, as falas expõem mais uma vez equívocos da visão do governo sobre a educação brasileira.  

Os institutos federais, elogiados por Ribeiro, foram criados em 2008. Apesar de dizer que são essenciais à educação, o ministro não tem conseguido manter os investimentos nos institutos federais. Em documento enviado ao Ministério da Economia em maio deste ano, Ribeiro admitiu que a verba para os institutos federais estava aquém das necessidades reais dessas unidades - o que, segundo o próprio MEC, compromete o "funcionamento geral" das instituições.

Na entrevista à TV Brasil, o ministro disse que desconhecia, quando assumiu a pasta, a existência das 38 unidades. Também admitiu que "tomou um susto" quando percebeu a variedade de atribuições da pasta. 

“Quando cheguei ao MEC, tomei um susto. Eu administro 50 hospitais universitários”, afirmou ele. Não é a primeira vez que Ribeiro demonstra surpresa com a importância e tamanho do MEC. Em janeiro deste ano, questionado sobre falhas na realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o ministro argumentou que ainda estava se inteirando sobre a pasta que ele chefia

Segundo o ministro, metade das vagas nas universidades é destinada a cotas e a outra parte vai para os “alunos melhor preparados”. “Eu acho justo, considerando que os pais desses meninos tidos como ‘filhinhos de papai’ são aqueles que pagam os impostos do Brasil, que sustentam bem ou mal a universidade pública. Não podem ser penalizados.”

Sobre o Enem, principal porta de entrada ao ensino superior, o ministro voltou a atribuir a alta abstenção na última edição à gratuidade nas inscrições. Segundo ele, "muita gente não comparece" após receber isenção na taxa. O Enem de 2020, realizado durante a pandemia, teve abstenção recorde, de 51,5%. Neste ano, o número de inscrições na prova foi o menor desde 2005. Entidades argumentam que restrições à gratuidade na taxa para quem faltou no último Enem levaram ao baixo número de inscritos agora. 

O ministro respondeu ainda questões sobre a autonomia das universidades e a escolha de reitores. O governo Jair Bolsonaro tem ignorado os primeiros colocados na lista tríplice elaborada pelas universidades para a sucessão de reitores. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a nomeação por Bolsonaro do último colocado na lista causou reação contrária dentro da instituição. 

Segundo Ribeiro, dos 69 reitores das federais, ele conversa “plenamente” com 20 a 25. “Dez deles (reitores) eu trouxe para visitar o presidente (Jair Bolsonaro), uma coisa inédita. Não precisa ser bolsonarista, mas não pode ser esquerdista, lulista. As universidades não podem se tornar um comitê político nem de direita e muito menos de esquerda.”

Ribeiro defendeu a volta às aulas presenciais e disse que “não faltaram recursos”. Segundo o ministro, o MEC transferiu R$ 1,7 bilhão para a compra de máscaras, equipamentos de proteção individual e álcool em gel. A pasta, no entanto, vem sendo criticada pela falta de coordenação nacional para apoiar Estados e municípios no ensino remoto e na reabertura dos colégios com segurança. 

Uma análise da execução orçamentária do MEC realizada pelo movimento Todos pela Educação mostrou que o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) teve apenas 17% dos seus recursos empenhados e, para o período dos quatro primeiros meses do ano, não houve nenhuma ação específica no combate à pandemia.

Para o ministro, porém, não houve "culpa do governo federal" na retomada das aulas. Pelo contrário, há um grupo de "maus professores" que não querem o retorno presencial às escolas, segundo Ribeiro. “Eles fomentam a vacinação deles, das crianças, depois do cachorro, do gato”, disse. “Como é que o professor é capaz de ficar em casa e deixar as crianças sem aula? A culpa não é do governo federal. Se eu pudesse, tinha mandado abrir todas as escolas.”

O governo também tentou barrar um projeto que garantia conectividade nas escolas, ação importante para garantir o ensino híbrido - o que, segundo Ribeiro, se justifica pela necessidade de atacar prioridades como a falta de água e saneamento em parte dos colégios. Na semana passada, Bolsonaro editou uma medida provisória que retira o prazo para que o governo repasse R$ 3,5 bilhões para internet nas escolas.

Estudantes reagem à declaração de Ribeiro

A União Nacional dos Estudantes (UNE) criticou nesta terça as declarações de Ribeiro. Segundo a UNE, o ministro verbalizou o "projeto do governo Bolsonaro" para a educação. "A entrevista concedida ao Sem Censura da TV Brasil foi um verdadeiro ataque a todas as esferas da educação brasileira. Estamos em guerra, amanhã é estudante na rua", escreveu o grupo no Twitter. 

Para Rozana Barroso, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), há um projeto do MEC de construir uma universidade para poucos. "Não é à toa que nos impossibilitam de acessar a internet e escolas estruturadas. Quero ser a primeira da família no ensino superior, como milhões de jovens", disse, nas redes sociais. 

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