Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Ministro cita economia ao falar de plano de salas no Enem: 'Imagina se tivesse contratado tudo?'

Ribeiro diz que previsão de abstenção foi acertada e cobrará Inep, órgão ligado ao MEC, sobre capacidade das classes

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2021 | 13h40

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse neste domingo, 24, que acertou ao prever a abstenção do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e citou a economia de recursos ao falar sobre o planejamento de salas. Como o Estadão revelou, as classes foram planejadas para 80% da capacidade - e não 50%, como prometeu o MEC à Justiça.

Gestores estaduais e universidades, como a Federal de Santa Catarina (UFSC), já haviam apontado que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) contava com a abstenção para garantir o distanciamento dos candidatos. Confrontado com essas informações, Ribeiro reagiu: "Se houve um pensamento de 30% (de abstenção), nós estávamos certos. Porque foi de 51%".

"Imagina se o Inep tivesse contratado tudo (salas para todos os inscritos)?", disse ainda o ministro. "O valor do dinheiro público que haveríamos de usar...", continuou Ribeiro, destacando prejuízos econômicos de usar mais salas para menos alunos. Segundo o ministro, foram gastos R$ 700 milhões para a realização do Enem. "Imagina se não tivéssemos feito uma mínima previsão (de abstenção)." 

Apesar de a abstenção ter sido recorde nesta edição do Enem, não foi uniforme, o que levou a salas cheias e outras vazias, em um mesmo local de prova, como ocorreu na Escola Estadual Caetano de Campos, no centro de São Paulo. Indagado sobre por que o planejamento não permitiu a realocação de estudantes em um mesmo local de prova, Ribeiro não respondeu. 

Na segunda onda da pandemia, o problema de salas cheias vai além do desconforto: em algumas classes, estudantes relataram que não foi possível manter o distanciamento mínimo exigido para evitar contaminação pelo coronavírus. Sem segurança sobre a prova, parte dos alunos que fizeram o exame no primeiro domingo não voltou para o segundo

Ribeiro acompanhou a entrada de candidatos na Escola Estadual Cesar Martinez, em Moema, na zona sul de São Paulo. Os estudantes fizeram as provas de Ciências da Natureza e Matemática neste domingo.

Até mesmo na escola que Ribeiro visitou neste domingo, houve relato de sala cheia, embora o colégio tenha apenas 338 inscritos. Rodrigo Silva, de 16 anos, diz que na sala dele, apesar das faltas, havia mais de 20 alunos na semana passada e não foi possível o distanciamento de 2 metros. "Se não tivesse faltado ninguém, estaria lotada."

Conforme o Estadão revelou, um documento enviado pela Cesgranrio, empresa contratada para a aplicação da prova, à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mostrou plano de alocar até 81 estudantes em uma sala com capacidade para 100.

O ofício, encaminhado ao Ministério Público Federal em Santa Catarina, prova que partiu da organização do Enem o planejamento de ocupar as salas com capacidade acima de 50%. Esse porcentual havia sido prometido aos candidatos e informado à Justiça pelo Inep, órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC). 

Sobre o assunto, Ribeiro disse que está sendo monitorado, mas não deu detalhes sobre ações. "Precisamos nos inteirar sobre isso. O presidente do Inep vai dar as respostas", afirmou, destacando que o Inep tem "certa autonomia" em relação ao MEC.

Na semana passada, a Defensoria Pública da União (DPU) entrou com um pedido à Justiça Federal para anular decisão que manteve o Enem nos dias 17 e 24 de janeiro, sob alegação de que o Inep mentiu a respeito da capacidade das salas. O pedido foi negado. 

Apesar dos problemas e da abstenção recorde, de 51,5%, o ministro da Educação classificou, no domingo passado, a realização do Enem, em meio à pandemia, como "um sucesso". "Para quem fez foi um sucesso", disse Ribeiro. Neste domingo, o ministro voltou a destacar a importância do Enem para o ensino superior privado. "Eles não aguentariam mais um semestre sem mensalidade."

 

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