'Minha opinião pessoal será aquela que a USP decidir'

Pró-reitor de Extensão diz que universidade divulga mal sua atuação

Renata Cafardo,

07 Setembro 2009 | 10h10

O engenheiro eletricista Ruy Altafim não gosta muito de dar sua opinião sobre assuntos polêmicos da Universidade de São Paulo (USP). Não se posiciona contra ou favor de a instituição participar de avaliações nacionais ou sobre a mudança nas regras da eleição para reitor. "A minha opinião pessoal vai ser aquela que a universidade decidir como tal", diz. Seu plano de gestão como candidado a reitor tem só uma página e fala em "participação para uma USP mais democrática". Para ele, a sociedade conhece pouco e também participa pouco das atividades da universidade. Altafim, de 52 anos, gosta mesmo é de falar sobre extensão universitária – área menos valorizada do que graduação ou pesquisa – e da qual ele é pró-reitor. "Extensão é aquela atividade que você tem com a sociedade em que a pesquisa e o ensino são indissociáveis. Se vou dar uma assistência odontológica a um paciente, atrelado a isso tem o treinamento dos nossos alunos, que recebe orientação de professores."    Ele é o segundo pró-reitor da gestão Suely Vilela que se declara candidato a substituí-la. Além de professor de engenharia da unidade de São Carlos, Altafim é artista plástico. Durante a entrevista, falou muitas vezes usando a primeira pessoa do plural e revelou pensamentos que ele mesmo chama de "filosóficos". Ao contar sobre seu relacionamento com a reitora, lembra que foram só quatro enco ntros entre os dois até que ela o convidasse pra compor sua equipe. "Eu percebi que cada um de nós tem um eu que mora nas outras pessoas."   O seu programa fala de "excelência com participação para uma USP mais democrática". O que quer dizer com isso? A excelência ja existe, a USP é um patrimônio e um dos orgulhos do Brasil, estamos entre as 50 melhores universidades do mundo. A ideia é manter e para isso temos que ter participação de todos. Abrir os canais da universidade para que todos possam emitir suas opiniões, isso é a tônica. Como? Temos várias mídias, podemos usar os organismos que já temos, abrir canais de diálogo. Muitas vezes muitos dos problemas da universidade são por falta de diálogo, de respeito, de entendimento do outro. Mas essa participação não é só interna, a sociedade precisa ser ouvida. Como eu venho de uma área extensionista, em que a universidade interage com a sociedade, vejo que os seus anseios não são ouvidos. Precisamos ter a imprensa dentro da universidade, com toda a sua abertura, sem precisar de muitos questionamentos, ter um livre canal. Alguns não se aproximam porque não conhecem os canais. Por que o senhor resolveu ser candidato a reitor? Os pró-reitores são naturalmente candidatos a reitor, uma vez que o vice-reitor não pode, por questão de idade. Colocamos o nosso nome, com a visão extensionista. A visão de uma sociedade muito mais participativa. A USP hoje executa muita coisa, mas não tem divulgação. Temos nossos hospitais, institutos de câncer, ações na Amazônia, em prefeituras. A população não conhece o que está sendo desenvolvido. A pesquisa que soluciona os desafios da sociedade é uma pesquisa extensionista. Quando você observa que tem um espaço, um universo a ser explorado, não adianta ter uma excelência se a população não vê esse valor. Nós sabemos a USP é importante, mas quão importante? Só se sabe isso quando a sociedade conhece as pesquisas, as ações que a universidade está fazendo. O senhor acha que há problemas na comunicação e na divulgação na USP? A USP tem excesso de veículos de comunicação, cada unidade, cada departamento tem seu jornalzinho. É como se fosse um engarrafamento de informação, você acaba não indo para lugar nenhum. Nosso objetivo é que tenhamos menos veículos, mas que possam receber encartes. Uma faculdade que tem uma comunicação específica coloca um encarte no jornal da USP. Quando alguém de fora quiser saber o que se passa na USP só vai ver esses poucos veículos. Se quiser saber de uma área específica, procura o encarte. Como os jornais fazem. Temos também que aprimorar o jornalismo científico, como transportar o conhecimento para uma linguagem acessível para os setores que precisam disso. Quando tem muitos veículos de informação você acaba não tendo nenhum. A reitora declarou voto no senhor? Voto é uma coisa do coração porque é secreto. A reitora tem se mantido na posição de reitora. Quando nós colocamos o nosso nome, ela não se opôs nem nenhum momento. Nós somos da gestão, participamos dos frutos da gestão. Caso não tivesse nenhum apoio dela, não seria nem pró-reitor. O senhor havia trabalhado com a reitora antes se ser chamado para a pró-reitoria? Antes de ser pró-reitor tivemos apenas quatro encontros que se resumiram a poucas palavras. O primeiro após uma apresentação que fiz pela pró-reitoria (ele era pró-reitor suplente) para o secretário da Ciência e Tecnologia. Ela falou: "Gostei." A segunda vez foi em uma reunião, ela era candidata a reitora e perguntou se eu iria votar nela. Na presença de todos, eu disse que não poderia votar porque estava apoiando outro candidato. A terceira vez foi numa festa e ela falou: "Passa lá para nós conversarmos." E a quarta frase foi: "Você quer ser meu pro-reitor?" Eu percebi que cada um de nós tem um eu que mora nas outras pessoas. Filosófico, não? Quer dizer que você agora vai ter um pouco do meu eu, você vai ter memórias minhas do que eu falei aqui. Como analisa a gestão dela? Eu me sinto à vontade para analisar pela pró-reitoria de Extensão. Nós tivemos uma conceituação melhor do que é extensão universitária, é aquela atividade que você tem com a sociedade em que a pesquisa e o ensino estão indissociáveis. Se vou dar uma assistência odontológica a um paciente, atrelado a isso tem o treinamento dos nossos alunos, que recebem orientação de professores. E esse grupo de pacientes pode estar relacionado a determinada patologia e aí se cria uma pesquisa e se faz treinamento com cursos de extensão. Nós tivemos a implantação de uma série de programas que valorizaram a extensão, como o Circuito USP Esportivo, congregando todas as atidades esportivas. O circuito de corridas se tornou profissional, ou seja, um grande laboratório real para as nossas faculdades de educação física. Hoje é usada pela Medicina, Enfermagem, Psicologia. Você deu oportunidade para revelação de atletas da sociedade e está treinando nossos estudantes no preparo do atleta. Isso tudo é um grande ganho da gestão Suely. E os conflitos, as greves? Temos diferentes opiniões em diferentes questões dentro da USP. Temos que estar sempre trabalhando para encontrar mecanismos que contemplem a possibilidade de negociação. E houve negociação, tanto que a greve acabou. Mas as pessoas não ficaram contentes, é normal. Eu sempre falo para o meu filho: você pode pedir o que você quiser, Ferrari, rolex, avião, helicóptero, pode pedir. Depois ele pede lenço, cueca. Daí, senta a família e pensa, o que nós vamos fazer? Ele não vai poder ter Ferrari, essas coisas. Negociação é isso. Eu não participei das negociações, mas votei no Conselho Universitário que decidiu pelo encaminhamento que foi dado (entrada da polícia no câmpus). Houve uma violência contra a universidade, eu me senti lesado. Ninguém perguntou como o professor Rui Altafim se sentiu acuado aqui dentro, quando não me permitiram não ter acesso ao gabinete para trabalhar. Eu só queria trabalhar. Os alunos me proibiram de trabalhar. Eles não sabem o que eu vi aqui. Eu fui impedido de pensar. Como a reitora é de uma unidade do interior, o que se tem dito na universidade é que a intenção é eleger um novo que venha do câmpus da capital. Por ser de São Carlos. O senhor teme isso? Não entendo isso. Vejo que é extremamente importante que o reitor pense a universidade como um todo. Quem pensa isso tem uma mentalidade pequena. A USP é mais que capital ou interior, é o conjunto. Essa é a força da nossa universidade. A USP neste mês decidiu mais uma vez que não participará do próximo Enade. O senhor concorda? Nós temos um Conselho de Graduação, formado por presidentes das Comissões de Graduação de todas as unidades. Esses conselhos estudam essa problemática há muito tempo. A USP está tentando encontrar uma forma de participar sem que haja um boicote de alunos que venha denegrir a sua imagem. Não há diferenciação do aluno que participou e do que fez um boicote. Os instrumentos precisam ser aprimorados. Mas se nós estamos sendo avaliados por rankings internacionais é muito importante que sejamos avaliados por nacionais. A USP tomou essa decisão por ser cuidadosa. Mas o senhor concorda? A minha opinião ficou irrelevante, o reitor não pode obrigar a USP entrar no Enade. O reitor pode pautar, agendar, promover discussões, mas a opinião dele deve discutir com todos. Ele tem que levar a opinião da universidade, não dele, por mais dura que seja. E a adesão ao novo Enem, que funciona como vestibular? O candidato sofre uma pressão muito grande no dia do vestibular. A vida dele está decidida em um exame, não é justo. Então, ter um processo de ingresso permanente é o que entendemos ser ideal. O nosso considera uma parte do Enem e agora tivemos mais o mecanismo, o Pasusp (avaliação seriada para alunos de escolas públicas que conta pontos na Fuvest). São mecanismos que a universidade está encontrando de aprimoramento. Eu acho que o sistema tem que ser estudado e quem faz isso é o pessoal da graduação. Você tem que respeitar os seus colegiados. O senhor pretende mudar as regras da eleição para reitor? Temos que pautar o assunto. Vamos discutir. Temos que ter propostas. O senhor não tem uma opinião a respeito? Qual é a opinião? É aquela que a universidade decidir. A minha opinião pessoal vai ser aquela que a universidade decidir como tal. O reitor não pode definir a opinião dele e impor. Minha opinião é que ele precisa ser aprimorado. Não tenho uma proposta. Há uma investigação sobre a compra de laptops para os integrantes do Conselho de Extensão. Eu achei um preconceito contra uma inovação. Comprei 56 laptops seguindo as diretrizes de que deveriamos comprar em lotes para reduzir os preços. Houve licitação. O problema é que as atas das reuniões do conselho exigiam material impresso muito volumoso, com 125 mil folhas. Gastava-se R$ 15 mil a R$ 20 mil por pauta. Então eles passaram a ver as atas pelo computador, foi feita uma economia. Os computadores são patrimoniados, são da USP, não são dos professores. Algumas pessoas não entenderam o que aconteceu. Nós ficamos muito chateados com tudo. É uma perda para a USP. Mas vamos continuar informatizando.  

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