‘Minha história vem de uma luta árdua da região’

Neto dos primeiros moradores a brigar por uma USP na zona leste, aluno conclui graduação com pesquisa sobre bairro

Ocimara Balmant, de O Estado de S.Paulo,

14 Julho 2012 | 18h27

SÃO PAULO - Nos últimos quatro anos, Caio Martins, de 22 anos, saiu de casa todas as manhãs e caminhou por dez minutos até a Universidade de São Paulo (USP). No caminho não estavam os casarões que rodeiam a Cidade Universitária, no Butantã, mas as ruelas de Ermelino Matarazzo, bairro periférico que abriga o câmpus da zona leste da instituição e onde o jovem vive desde que nasceu. Graduado há uma semana, Caio é um exemplar raro do projeto que motivou a criação da USP Leste: facilitar o acesso da comunidade local.

 

“Minha história é resultado de uma luta muito árdua da região. Muita gente brigou por décadas por esse câmpus”, afirma. O discurso do recém-formado no curso de Gestão de Políticas Públicas vem embasado: seu trabalho de conclusão de curso foi exatamente sobre a participação popular e os movimentos sociais em Ermelino Matarazzo.

 

Pela primeira vez naquele câmpus, a defesa aconteceu fora da USP. A apresentação foi em uma associação de bairro. Na plateia, amigos, líderes locais e, na hora em que o “dez” foi anunciado, dona Amélia Martins, de 79 anos, levantou chorando. O abraço no neto era também uma homenagem à região onde vive há mais de meio século.

 

Amélia chegou por ali em 1945, vinda do interior do Estado, conheceu o marido na antiga fábrica dos Matarazzos, teve duas filhas e engajou a família na luta pelos sonhos da região. “No dia do lançamento da pedra fundamental da USP, chovia tanto que a lama chegava até o joelho”, lembra Wania Martins da Silveira, mãe de Caio. “Tinha gente que pensava que não valia a pena tanto esforço, abaixo-assinado. Mas pensei nos meus filhos. Um já está lá, a outra vai em breve”.

 

Se a caçula Renata, de 15 anos, optar por um dos 12 cursos oferecidos na unidade e conseguir aprovação no vestibular, a família vai ajudar a engrossar a fatia ainda magra de estudantes da região matriculados ali.

 

Na sala de Caio, por exemplo, dos 60 estudantes, somente cinco eram da zona leste. E nem precisa de estatística para medir essa disparidade, afirma ele. Basta observar os trens que chegam à estação USP Leste, acoplada ao câmpus. As locomotivas provenientes de bairros mais distantes da zona leste, como São Miguel Paulista e Cidade Tiradentes, chegam vazias. As que chegam da região central estão sempre lotadas.

 

Dos vagões repletos, descem paulistanos de outras áreas da capital, mas principalmente gente nova na cidade e com o perfil parecido ao que se vê no câmpus Butantã. São egressos de escolas particulares do interior, que veem para São Paulo mantidos pelos pais.

 

A maioria mora em repúblicas localizadas no Tatuapé ou Anália Franco, bairros razoavelmente próximos à universidade, porém mais valorizados. São eles que fazem com que chegue a 30% o porcentual de moradores na zona leste.

 

“Eles chegam do interior direto para a periferia de São Paulo. Aqui, ele sai da aula e vai tomar cerveja nos botecos de Ermelino. Uma pena que, muitas vezes, a interação com o bairro termina aí”, avalia o professor Wagner Iglecias, orientador de Caio. “Por isso, a importância e o simbolismo do trabalho dele”.

 

Anacronismo. A pouca articulação com as necessidades da região é antiga. Em 2003, dois anos antes da inauguração do câmpus, uma pesquisa da própria USP ouviu mais de 5 mil alunos de ensino médio para conhecer as suas preferências. No topo da lista estavam graduações tradicionais, como Engenharia, Medicina e Direito.

 

Apesar disso, nenhuma delas entrou no rol da USP Leste - o estatuto da universidade proíbe que um curso seja oferecido em mais de uma unidade no mesmo município. Nasceu assim a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), com um cardápio de dez cursos inéditos na universidade, como Lazer e Turismo e Ciências da Natureza.

 

O curso de Gestão de Políticas Públicas, por exemplo, não era o preferido de Caio. Quando prestou vestibular, no fim de 2007, ele queria Jornalismo. Para ficar perto de casa e valorizar a luta da família pela implantação da USP Leste, abriu uma exceção. “Vi as disciplinas e me interessei pela ideia de trabalhar pelos interesses da comunidade.”

 

A escolha tem dado certo. Caio estagiou na subprefeitura de Ermelino Matarazzo e está esperançoso em ser aprovado em um concurso público ou conseguir uma vaga no terceiro setor.

 

Mas ele é exceção. Na falta do curso de sua preferência, muita gente prefere manter a escolha inicial e trocar a possível vaga na USP por uma em uma das instituições privadas da região, com ajuda dos incentivos federais como o Prouni (Programa Universidade para Todos) e o Fies (que possibilita ao aluno financiar até 100% do curso e começar a pagar apenas depois da formatura).

 

O melhor amigo de Caio, por exemplo, preferiu fazer Ciência da Computação em uma instituição particular e com bolsa do Prouni. Uma preferência perceptível até no cursinho gratuito criado pelos alunos da USP Leste para ajudar os estudantes da região a se prepararem para o vestibular.

 

“Dei aulas de história e vi muita gente escolher uma universidade privada. Principalmente aqueles que já estavam no mercado de trabalho e não queriam trocar de área ou não tinham coragem de arriscar um curso pouco conhecido”.

Sonhos. Como futuro gestor público da região - Caio não pretende arredar o pé de Ermelino Matarazzo -, ele sonha com uma USP repleta de cursos atrativos e com os seus vizinhos na lista de matriculados.

Só para garantir, a mãe e a avó estão empenhadas na chegada da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Se conseguirem e a implementação ocorrer em até três anos, Renata vai ter mais opções. 

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