Mindlin: O que eu queria saber aos 21

Advogado, empresário e bibliófilo, José Mindlin diz ter um certo "culto à indiferença"

01 Julho 2009 | 11h00

Uma coisa difícil é saber, aos 21 anos, qual profissão se quer seguir. Reconheço a dificuldade de escolha nessa idade. O ideal seria escolher aos 40 anos, com uma certa experiência, porque aos 20 e poucos anos você não tem elementos para saber o que quer ser na vida.   Comecei a trabalhar cedo, entrei na redação do Estado em 1930, aos 15 anos. Havia terminado o ginásio e ainda não podia começar a faculdade, por isso disse ao meu pai que queria trabalhar – em qualquer coisa, desde que não ficasse parado. Dias depois, ele disse que havia me arrumado trabalho no Mercado Municipal, para controlar a chegada de caixas de frutas. Não era o que imaginava, mas não reclamei. Aí ele contou que estava brincando e tinha conseguido para mim um emprego no jornal.   Foi interessantíssimo e apaixonante. Trabalhei quatro anos e aprendi a escrever com clareza e correção. E tinha a vantagem de falar inglês e francês, que a maioria dos jornalistas não falava. Minha formação se deve muito a esse trabalho, o redator era polivalente, fazia de tudo. Gostava, mas achava, no íntimo, que ser jornalista não era bem o que eu queria. Vivia com indecisão. Cheguei a pensar em Medicina, mas a ideia passou rápido.   Ingressei com 17 anos no Direito da USP. Desde menino ouvia minha família dizer que seria advogado. Brinco até hoje que provavelmente achavam isso porque eu falava muito. Mas, na realidade, advogado não fala muito, ele escreve muito. Aos 21, cursava o 4º ano, portanto o caminho estava traçado para me tornar advogado, embora o jornalismo me atraísse. Mas não dava para continuar no jornal. Naquele momento era mais importante conseguir estágio num escritório de advocacia. Até hoje penso como seria se tivesse conciliado as duas carreiras. Me formei aos 22 anos e advoguei por 15 até que, pelos acasos da vida, surgiu a oportunidade de virar empresário.   Lembro também que quis ser escritor. Até tentei escrever um livro, mas, depois de certo ponto, não avançava. Fui me apaixonando pelos livros. Com 13 anos comecei a formar minha biblioteca. Imaginar hoje que eu poderia não tê-la formado é quase inaceitável.   Olhando para trás, acho que gostaria de seguir o mesmo caminho. Diria que até hoje não sou apaixonado pelo trabalho que faço. Posso passar de uma coisa a outra completamente diferente sem precisar quebrar laços. Tenho certo culto à indiferença. Posso fazer qualquer coisa, o importante é fazer benfeito.

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