Milton Hatoum conta o que queria saber aos 21

"Ainda devo um romance sobre São Paulo, sobre essa época", diz o escritor

Paulo Saldaña, Estadão.edu

29 Março 2010 | 19h49

Nascido em Manaus, o escritor Milton Hatoum tem 52 anos e lembra como era um sonhador à seção Coisas que eu queria saber aos 21, do Estadão.edu. Vencedor de três prêmios Jabuti (por Um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte), Hatoum adiantou o que pode ser o tema de sue próximo livro: "ainda devo um romance sobre São Paulo, sobre essa época". Confira o depoimento:

 

 

"Como muitos jovens latino-americanos, eu queria saber como transformar o mundo. Tinha chegado a São Paulo com 17 anos, vindo de Manaus, e aos 21 estava na Faculdade de Arquitetura da USP, uma espécie de centro de grandes transformações. Pensava que os arquitetos podiam mudar a cidade, a sociedade, tudo, eram demiurgos. E eu tinha que estar ali.

 

 

Queria justiça social, participava do movimento estudantil na luta contra a ditadura. Não entrei nos grupos de guerrilha, porque não queria ser mandado por ninguém. E já sabia que queria ser escritor. Não tinha certeza, mas um desejo – porque parece que a certeza é quase uma fatalidade.

 

 

Queria ser poeta. Ajudei a fundar uma revista na FAU, de desenho e poesia, a Poetação. A revista era criticada por gente mais de esquerda, só porque traduzíamos textos franceses, gregos. Naquela época, escrevia sem parar – cinco anos mais tarde, em 1978, publiquei meu primeiro livro de poesia. Também jogava muita coisa fora. Coisas ruins. Joguei fora todos os textos em prosa.

Era sonhador, mas não me achava tão ingênuo assim. O que mais pensava era em sair do Brasil. O País era escandalosamente provinciano, com governo repressivo, censura.

 

 

Com o passar dos anos, vi coisas, percebi coisas que na época eu não podia perceber. Mas hoje eu teria militado do mesmo jeito, feito as mesmas loucuras. Porque era uma época de luta contra as convenções, de liberdade sexual, a coisa de morar em república com muitas pessoas. O ser humano sempre tem ciúme, mas parecia que estávamos imunes ao ciúme... Hoje o mundo está muito careta.

 

 

A literatura é uma transcendência de todas as experiências, a arte é transcendente sempre. Meus narradores não são exatamente o que fui ou sou, mas uma construção disso pela linguagem. Meu livro Cinzas do Norte já trata disso, mas desloquei tudo para Manaus, Berlim, Paris. Exatamente para não usar esse período. Porque ainda devo um romance sobre São Paulo, sobre essa época. "

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