Microcamp é acusada de usar ONG em golpe

Educa São Paulo pede abertura de CPI na Câmara Municipal; rede de escolas oferece falsas bolsas

Luciana Alvarez, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2010 | 09h49

O presidente da ONG Educa São Paulo, Devanir Amâncio, deve protocolar hoje na Câmara Municipal de São Paulo um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a venda de cursos da rede Microcamp. Funcionários da escola estariam usando o nome da ONG para oferecer falsas bolsas em cursos de computação e de idiomas da rede. As "bolsas", no entanto, são parciais - o interessado tem de desembolsar R$ 300, em média.

Procurada pelo Estado, a empresa informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não autorizou nenhuma de suas unidades a usar o nome de Educa São Paulo e não tinha conhecimento do problema. A Microcamp também prometeu apurar a denúncia. Na internet, um site comercial com o nome Educa São Paulo fornece o endereço de uma unidade da Microcamp em Campinas.

 

Amâncio tomou conhecimento do uso do nome de sua ONG no fim do ano passado, quando a advogada Patrícia Araújo o procurou. "Outras pessoas já haviam me ligado, falando sobre cursos, mas eu não entendia o que estava acontecendo", conta. O trabalho principal da Educa São Paulo, fundada em 1988, é a criação de bibliotecas comunitárias para populações carentes. "É um desrespeito com a nossa entidade e também com a população. A empresa tenta esconder sua identidade", diz Amâncio, que pretende encaminhar denúncia para o Ministério Público Federal.

 

Patrícia emprega em sua casa Susana Silveira Veiga, que quase caiu em um golpe. "Deixaram recado no telefone da minha irmã, que é o número que está na escola da minha filha, caso tenham de me encontrar", conta. "Quando retornei, disseram que eram da Educa São Paulo e que minha filha foi bem em uma prova e por isso tinha conseguido um bolsa de estudos.

 

" O endereço indicado para fazer a matrícula era o de uma unidade da Microcamp.

"É um absurdo, porque conhecia de nome a Educa São Paulo e sei que é uma ONG muito séria", diz Susana. Segundo ela, o que a fez desconfiar foi a insistência da atendente.

 

Para Amâncio, porém, usar o nome de Educa São Paulo é só "a ponta de um iceberg". "Eles usam esse nome, assim como os de programas do governo, para confundir as pessoas", diz.

Reconhecimento. Na estratégia de vendas, a Microcamp diz que possuiu cursos técnicos "reconhecidos e aprovados" pelo Ministério da Educação. Mas o MEC informou que não é de sua competência dar aval a cursos técnicos e não sabia da propaganda da escola.

 

Em nota, a pasta esclareceu que as secretarias estaduais e municipais de Educação são as "responsáveis pela autorização, regulamentação e reconhecimento" das instituições de ensino técnico. "O MEC reconhece por meio das secretarias", disse Marcos Alexandre Lopes, gerente da Microcamp.

PARA LEMBRAR

Idec denunciou rede por multa rescisória

Em fevereiro, o Instituto de Defesa do Consumidor denunciou que, no contrato de cursos da Microcamp, 80% do valor era referente à compra do material didático. Dessa forma, se um aluno decide deixar o curso no meio, tem de continuar pagando as parcelas quase integrais até o fim para quitar o material. A empresa diz que seus contratos estão dentro da lei. Em um ano, o Procon de São Paulo recebeu mais de 500 queixas contra a rede.

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