Alex Silva/Estadão
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Roberta Bencini, especial para o Estado

14 Setembro 2018 | 06h00

SÃO PAULO - O termo coaching banalizou-se nos últimos anos, e a onda de cursos e serviços no mercado voltados para desenvolver pessoas não passou incólume à área de Administração. Mas é genuíno que se destaque em um campo no qual se exige alta performance profissional, competitividade, liderança e gestão de equipe.

A ferramenta tem a função de apoiar as pessoas em suas relações profissionais e em decisões pessoais. Especificamente em Administração, serve como ferramenta em Recursos Humanos, mas também em Logística, Marketing, Finanças, Comércio Exterior, Tecnologia.

“O conhecimento dessa metodologia é vital para quem quer ser um bom administrador, em qualquer área, e a qualidade de um curso é o diferencial em uma carreira. Não consideramos coaching um produto nem o vendemos de uma maneira marqueteira”, explica Ana Pliopas, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), qualificada em Coaching pela mesma instituição.

A professora é responsável pelas aulas de Orientação de Carreira, Relações Interpessoais e Gestão de Pessoas e explica que na FGV, como em grande parte das faculdades, não há uma disciplina específica de coaching na graduação. Os cursos são permeados por programas, atividades planejadas e conhecimentos que discutem as mudanças do mundo atual e a necessidade de investimento em capital humano.

Busca de equilíbrio

Para a professora, a metodologia do coaching já provou que é eficiente no desenvolvimento de equipes e colaboradores. Em muitas empresas, principalmente nas americanas, nas quais a prática já existe há décadas, o resultado de uma equipe harmoniosa e competente é solução para grande parte dos problemas corporativos. Gente feliz leva a mais lucro.

Pela definição da International Coach Federation (ICF), uma das maiores organizações do mundo em formação e fomento de coaches, presente em 140 países, coaching é um processo de acompanhamento reflexivo e criativo feito em parceria com colaboradores para maximizar o potencial pessoal e profissional. “Caso típico de necessidade de coaching é aquela pessoa que apresenta resultados, mas é inadequada nas relações. É importante se dar conta das mudanças atuais e de que há erros que precisam ser superados. O aperfeiçoamento passa por ter uma ajuda para aprender a refletir e a promover reflexão no trabalho”, aponta Ana.

Comportamento

Parte da superação dos erros nas relações interpessoais teve início com o surgimento da teoria das inteligências múltiplas, no início da década de 1990, nos Estados Unidos. O professor Howard Gardner, da Universidade de Harvard, contribuiu com importantes pesquisas em Neurologia, desvendando parte do funcionamento da mente humana. As capacidades socioemocionais logo entraram em voga e tiveram tremendo impacto em áreas como Medicina, Educação e Psicologia.

O estudo do comportamento de consumidores e a performance de gestores e subordinados, por exemplo, ganharam impulso. De início, era comum a ideia de “consertar” os funcionários, e o coach vinha de fora da empresa. Mas a velocidade acelerada das descobertas nessa área aumentou, e novas concepções do trabalho e das relações interpessoais não pararam mais de surgir.

Investir apenas em pesquisas de clima dentro das empresas também virou obsoleto se abordado isoladamente diante de tantas demandas novas. Atualmente já se fala em life coaching, um processo que envolve a vida diária e não apenas a profissional, afinal tudo está interligado e a fragmentação talvez seja apenas etapa do desenvolvimento dessa ferramenta.

Por aqui, o conceito de coaching ainda está em fase de descoberta e aperfeiçoamento. Mas faculdades de ponta do Brasil estão se adaptando às novas ferramentas, por meio da ampliação dos conteúdos de disciplinas curriculares já existentes, como ocorre nas matérias ministradas pela professora Ana Pliopa, na FGV, e em diversos outros componentes curriculares oferecidos pela faculdade, a partir do início da trajetória do ensino superior. 

Desde o primeiro semestre de curso na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), programas de vivência, visitas e estágios garantem essa abordagem. Um programa de estágio, chamado de Cintegra, aproxima o aluno do mercado de trabalho desde o início da graduação, oferecendo um banco de dados com aproximadamente 6 mil vagas em empresas.

O coordenador do curso de Administração, Marcelo Zorovich, explica que o objetivo principal é contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional em conexão direta com as práticas profissionais. “O aluno vai aprender a gerir custos, conectar pessoas e tomar decisões no âmbito dos recursos humanos, ou seja, competências analíticas, empreendedoras, mas também socioemocionais”, explica. “Tudo ao vivo, em cores, bem real.”

Os professores nessa história viram conselheiros (advisors), mentores e coaches, de acordo com as situações encontradas. Ora Zorovich é procurado para uma orientação sobre vocação, ora para compartilhar uma experiência e mostrar exemplos para um recém-chegado à faculdade e ora faz um atendimento mais personalizado, capaz de provocar sistematicamente reflexões e busca de soluções concretas, cada vez mais autônomas.

É assim, ouvindo e sendo ouvido por professores e pelo coordenador do curso de Administração que Guilherme Pessoto Ceroni, aluno do segundo semestre da ESPM, está aprendendo a gerir a própria carreira.

O estudante já redirecionou sua ideia inicial e não pretende mais atuar na área de negócios de entretenimento, como queria ao ingressar na faculdade.

Já sabe o que não quer. E das visitas a empresas e experiências práticas tem aprendido algumas técnicas de gestão de pessoas, como desenvolver ações em equipe. Mas ainda falta muito por conquistar. “O coordenador me inspira e dá sempre um caminho quando peço, conta experiências, me provoca”, conta Guilherme. 

No último semestre da graduação na ESPM, quando o estudante terá de cumprir estágios supervisionados, o papel de coach dos professores e de Marcelo ficará mais evidente. Uma equipe docente ajuda a traçar um projeto de estágio e a conectar as competências que o aluno desenvolveu no ambiente científico com as demandas do ambiente de trabalho. Psicólogos especialistas em público jovem também entram em cena no processo de desenvolvimento pessoal, muito próximo do trabalho de coaching.

Evolução

Numa área da faculdade denominada Carreiras, há apoio para que o futuro administrador identifique suas fraquezas e fortalezas (reconheça seu perfil) e aprofunde o autoconhecimento. E, além de oportunidades formais, a oferta de espaços informais de conversa potencializam ideias, projetos e autogestão, completando a rede de apoio.

“É bonito ver a construção de carreiras, do início da formação até o ingresso definitivo no mercado de trabalho. É gratificante fazer parte dessas histórias”, afirma o coordenador, demonstrando uma competência importante do processo de coaching: a capacidade de sensibilizar-se, na medida certa.

De acordo com Suzana Kubric, diretora de Recursos Humanos da empresa internacional Katar Ibope Media, é preciso ter muita sensibilidade para ser capaz de orientar CEOs em situações complicadas, que envolvem, por exemplo, adaptação a uma nova área, maternidade e volta ao trabalho, impasses entre chefes e subordinados.

Muitas vezes, situações pessoais interferem nas questões profissionais e vice-versa e há um limite desafiante para não ultrapassar: coach não é terapia. Ficam claros os motivos da necessidade de uma sólida formação para atuar na área.

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O conhecimento dessa metodologia é vital para quem quer ser um bom administrador.
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Ana Pliopas, professora da FGV e qualificada em Coaching pela instituição

Melhoria de processos

As ferramentas podem ter vindo da área da Psicologia, mas devem ser aplicadas na gestão de pessoas por meio de outras bases. “Uma das técnicas que abordamos é a escuta ativa. Reuniões de feedback são oportunidades para escutar e entender pontos de melhoria para o coache, ao mesmo tempo que se fortalece o relacionamento interpessoal”, diz a diretora. Confiança e confidencialidade são pressupostos básicos para manter as relações e o emprego.

Com o fundamento do coaching estabelecido na empresa (a escuta ativa), ela pode atuar sob um “contrato” claro que cria confiança, gradativamente, e importantes trocas de experiências. “Em alguns momentos, os cargos de liderança podem ser desafiadores e um pouco solitários. Ter uma pessoa como apoio para momentos de reflexão é fundamental. A técnica de coaching é muito adequada para a resolução de conflitos e tomada de decisões”, explica a CEO da Kantar, Ibope e Media, Melissa Vogel.

 

 

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Roberta Bencini, especial para o Estado

14 Setembro 2018 | 06h30

SÃO PAULO - Quando Enzo Fusaro, de 19 anos, passou no vestibular de Administração do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), seu pai naturalmente se encheu de orgulho. O empresário Waldomiro Fusaro, de 57 anos, voltou 30 anos no tempo e se lembrou de quando também ingressou no mesmo curso superior, em outra instituição. 

O gap existente entre as duas formações é enorme. Waldomiro aprecia a desenvoltura com a qual o filho, no segundo semestre da faculdade, discute estratégias de marketing, manipula planilhas e domina controles de produção e programação, em diferentes meios digitais. Em sua época de estudante, o empresário só contava com caderno, lápis e calculadora, as aulas eram expositivas e o professor detinha o conhecimento. Aulas práticas? Só no fim do curso e, mesmo assim, eram superficiais em comparação com o aprofundamento exigido atualmente. “Enzo fica testando meus conhecimentos, me estimula a não ficar parado. E vou dizer uma coisa: estou dando um baile nele em muitos quesitos”, conta Waldomiro. 

Realidade

A diferença na formação de pai e filho ilustra as transformações pelas quais o mundo vem passando. A revolução 4.0, ou a nova revolução industrial, já bate à porta e os profissionais que não estão estacionados no presente (ou no passado) se preparam para uma realidade de automatização marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. 

Nesse cenário, poder contar com pessoas qualificadas, em situações de colaboração e confiança, é um diferencial que amplia resultados e vira do avesso a forma atual de trabalhar e fazer negócios. A velocidade na tomada de decisões, um fator fundamental em um mercado cada vez mais competitivo, passa a depender muito mais da qualidade das relações interpessoais dentro de uma empresa do que da tecnologia já estabelecida. O boom das startups dá um pequeno panorama do que está por vir: empreendimentos com equipes enxutas, em ambiente de incerteza e que depende fortemente do potencial criativo de seus colaboradores.

Perfil

Para Rodrigo Ferreira, coordenador do curso de Administração do Ibmec, o administrador 4.0 continuará a ser um profissional dinâmico, empreendedor e atuante em várias frentes. “Mas duas características principais já se destacam na carreira e precisam ser aperfeiçoadas cada vez mais: saber administrar o capital humano e solucionar problemas de maneira rápida e eficiente”.

No primeiro semestre do curso do Ibmec, o aluno pode vivenciar a realidade de um ambiente corporativo ao participar de um programa de empresas juniores. Um processo de seleção rigoroso, como ocorre em grandes empresas, introduz o estudante em uma das células. Conseguir uma vaga já é o primeiro problema a resolver. Mas, uma vez dentro do programa, a qualidade da colaboração entre os participantes vai definir onde as equipes vão conseguir chegar. 

Enzo conquistou seu lugar no programa assim que ingressou na faculdade, no ano passado. Hoje é presidente de uma empresa júnior que atua como consultora para pequenos empreendedores que buscam organizar e ampliar negócios. Enzo e uma equipe formada por administradores, economistas e advogados buscam alternativas para reduzir custos e aumentar as vendas. Mas o aluno não parou aí.

No começo do ano, Enzo foi para um grande banco conhecer de perto o mercado financeiro. Por meio de um programa de estágio de férias (summer job), o estudante teve mais chances de trabalhar em equipe. “Participei de reuniões, visitei clientes, ajudei a solucionar questões simples. Aprendi como me portar em algumas situações e acompanhei o fluxo de venda de produtos até o fim de uma operação. Tudo em pouco tempo. Assim você fica estimulado a estudar, a crescer, a se aperfeiçoar”, conta o aluno. O que aprendeu em três semanas levou para a empresa júnior que administra no Ibmec. 

Essa curta trajetória cheia de experiências práticas exemplifica uma preocupação do Ibmec: “oferecer um repertório de vivências que conecte a teoria com a prática, de maneira rápida”. “Assim, interliga-se também a faculdade, a sociedade e o mercado. Nessa dinâmica, os alunos entram em contato com diferentes situações e áreas de trabalho, e com todo tipo de gente”, explica o coordenador do curso do Ibmec. 

Agilidade

No Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), o administrador 4.0 também está em testes, a pleno vapor. Lá a resolução de problemas é assunto tão sério que foi criado um programa específico só para desenvolver essa competência. A faculdade direcionou o currículo para uma metodologia de aprendizagem conhecida como problem based learning, ou aprendizagem baseada em problemas.

“As atividades propõem pesquisa e investigação, em discussões sobre problemas reais da área de administração, envolvendo conhecimentos de estatística e ferramentas socioemocionais”, explica Guilherme Martins, coordenador do curso de Administração.

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O administrador tem se tornado um profissional que transita por áreas em busca de respostas eficientes.
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Guilherme Martins, coordenador do curso de Administração do Insper

Em estudo recente, os alunos tiveram de elaborar uma estratégia de vendas para uma cerveja light, com direito a mentoria e banca para analisar o percurso e os resultados. A parceria com a empresa, uma das maiores companhias de bebidas da América Latina, exigiu que os alunos tivessem uma ampla visão do negócio, passando por vários departamentos. Cerca de 30 empresas participam do programa.

“A imagem que se tinha do administrador era de um profissional ultrapassado, em função do descolamento da realidade. Preso em um escritório, com terno e gravata, muitas vezes tinha de tomar decisões sozinho. Hoje o perfil é outro. O administrador tem se tornado cada vez mais um profissional curioso, que vai a campo, que experimenta, testa, pesquisa e transita por diversas áreas em busca de experiência e respostas eficientes”, explica o coordenador do curso do Insper.

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Roberta Bencini, especial para o Estado

14 Setembro 2018 | 07h00

SÃO PAULO - Mais tecnologia não significa necessariamente mais comunicação. É preciso se preparar para dominar dados, cruzar informações e utilizar todo poder das redes sociais em ações calculadas. O mercado espera que o administrador tenha a capacidade de compreender que pessoas e interesses estão envolvidos na intrincada teia de informações e contextos digitais.

Ricardo Ferreira, coordenador do curso de Administração do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), aponta que a cada dia novas informações e dados deixam mercados e empreendedores atentos. “As estratégias de comunicação mudam constantemente e novas redes se expandem. É preciso compreender a efemeridade da comunicação em determinados meios, a capacidade de engajamento, as fake news e muitos outros desafios da era digital”, afirma. 

Para exemplificar a importância de estar atualizado, Ferreira lembra do recente escândalo envolvendo Esla Musk. O CEO da Tesla publicou no Twitter a intenção de tornar privadas as ações de sua empresa produtora de motores e automóveis elétricos. “Quando poderíamos imaginar que um tuíte fosse capaz de agitar o mercado financeiro?” As ações da Tesla subiram e ajudaram o multimilionário a ficar mais rico. Na semana passada, o diretor financeiro causou impacto por outro meio. Em entrevista online para um programa, fumou maconha e provocou, dessa vez, a queda de cerca de 6% das ações. “Pensar e agir estrategicamente passa por dominar o poder de ação dos meios e ser hábil na interpretação de propósitos”, diz. 

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É preciso compreender a efemeridade da comunicação em certos meios, as fake news e outros desafios.
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Ricardo Ferreira, coordenador do curso de Administração do Ibmec

Conhecimento

O Ibmec tem um curso envolvendo Comunicação, Internet e Jornalismo. À frente da disciplina está o apresentador Marcelo Tas, que vai ministrar o curso de extensão online Comunicação na Aceleração Digital. O objetivo, segundo a coordenação da faculdade, é reconhecer tendências, virtudes e efeitos colaterais da era digital. Nova turma tem começo previsto para 5 de novembro. O curso custa R$ 730 e segue até 5 de dezembro. 

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