Mesmo sem impedir votação, sindicato e DCE avaliam que ação foi vitoriosa

Do lado de fora do Memorial, presença da polícia e insultos aos candidatos e à atual reitora

Mariana Mandelli, O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2009 | 21h14

Integrantes do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) avaliaram que, mesmo sem conseguir impedir a votação, a ação de boicote e a pressão sobre a o processo de escolha do novo reitor da USP foram positivos. O dia de votação foi marcado pela presença da Polícia e insultos aos candidatos e à atual reitora, Suely Villela.   Antes de abandonar o Memorial da América Latina, onde a votação ocorreu, Magno de Carvalho, diretor de base do Sintusp, comemorou a mobilização. "Nós já cumprimos nosso papel de denunciar essa farsa que é a eleição." Para ele, o fato do pleito ocorrer fora do câmpus com a Polícia Militar mostra o caráter autoritário da reitoria. "Para nós não importa o resultado dessa votação escúria, mas sim o que fizemos ontem e hoje." Os próximos passos do movimento ainda serão discutidos.   Para Aníbal Cavali, diretor do Sintusp, o saldo da ação também foi positivo. "Em 75 anos de USP, nunca tinha acontecido de eles se refugiarem fora da universidade", afirma. "Quem perde politicamente são eles." A representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Renata Conde, de 19 anos, afirma que os manifestantes tinham consciência de que não impediriam a eleição. " Mas a intenção era mostrar uma correlação de forças entre estudantes, funcionários e essa estrutura de poder."   Veja mais: Rua próxima a Memorial é bloqueada por sindicato e estudantes   Já Renan de Oliveira, de 23 anos, aluno de Ciências Sociais, acha que se o ato tivesse sido mais discutido, poderia ter melhores resultados. "A campanha não existiu de verdade, as pessoas sabem pouco sobre a eleição."   Do lado de fora Os candidatos entraram de carro na área do Memorial. Poucos chegaram a pé - caso de Renato Janine Ribeiro. Apenas pessoas autorizadas entravam no local.   Por volta das onze horas da manhã, os carros entravam normalmente pelo portão 6 do Memorial. Na frente da biblioteca, cerca de 15 motocicletas da PM estavam estacionadas. Ao lado, no mínimo 11 carros da PM e dois da guarda universitária espalhavam-se pelo pátio do Memorial, junto a uma base comunitária móvel da PM, que não quis informar o número exato de policiais.   No fim da manhã, apenas dois estudantes - que foram revistados pela PM - assistiam à passagem dos veículos. O candidato João Grandino Rodas chegou por volta de 11h40 em uma Kombi. Foi vaiado pelos alunos. Pouco depois, o carro - com vidro com insufilme - que levava o candidato Wanderley Messias chegou sob gritos de "Que vergonha, Wanderley" e "Com a Polícia aqui está do jeito que o Rodas gosta".  O candidato acenou e caminhou até a biblioteca, para onde os eleitores seguiram. Silvio Sawaya, outro candidato, circulava pela área externa do Memorial. Nas outras portarias do Memorial havia policiais e guardas posicionados.   Pouco depois do meio dia, cerca de 30 alunos distribuiam apitos e gritavam para os conselheiros, que rumavam da Biblioteca para o Salão de Atos para um coffee break. Gritos como "Covarde", "Perua" e "Suely plagiadora" podiam ser ouvidos.   A situação ficou tensa por volta de meio dia e meia, quando chegaram cinco ônibus, vindos do campus, com estudantes, funcionários e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Os veículos tumultuaram o trânsito local.   Cerca de 150 pessoas se acumularam na frente do portão 6 e das outras entradas do Memorial. Os estudantes prenderam faixas nas grades e os funcionários soltaram rojões. Algumas pessoas sentaram sob a sombra da praça que fica no meio da avenida e tomaram cerveja. Um carro de som chegou e estacionou na frente do portão 6.   Sob gritos de "Fora PM", "Você aí fardado é cão de guarda do Estado" e outras ofensas, cerca de 25 policiais e 15 guardas fizeram dois cordões humanos, com escudos em punho, em frente ao portão. Foi quando os manifestantes forçaram a entrada e houve empurra-empurra. Pouco depois, o trecho da via em frente ao portão 6 teve que ser fechado e os carros eram desviados para um retorno antes do trecho.   Um dos funcionários integrantes do Conselho Universitário, Marcelo Pablito, que trabalha em um restaurante do campus da capital, foi barrado na entrada. Para André Orlandin, outro funcionário que tinha direito ao voto, Pablito foi impedido de entrar porque tem "aparência de trabalhador". "Ficamos estarrecidos porque outros conselheiros, que são professores e fazem parte do colegiado, entraram pelo mesmo portão", explicou. "Por não estar de terno e gravata e usarmos roupa mais humilde, não adquirimos o respeito da guarda e da PM." Após os funcionários denunciarem a situação, a entrada de Pablito foi permitida.   Orlandin, que é funcionário de Ribeirão Preto, disse que a USP não deu transporte para quem era de fora da cidade. "Me disseram para ir de metrô e se não fosse os ônibus do Sintusp, não tinha como vir." Segundo Magno de Carvalho, do Sintusp, os três funcionários e os 12 estudantes (oito de graduação e quatro de pós-graduação) que são membros do Conselho Universtário boicotaram a eleição.   Por volta das duas da tarde, a eleição já tinha começado e a manifestação começou a dispersar. A situação só voltou a ficar tensa quando a PM quis liberar novamente a via. Houve discussão entre a polícia e os manifestantes, que acabaram concordando em abrir a rua. Pouco depois, os cinco ônibus foram embora, levando os participantes do protesto.

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