Mercado emprega quase 75% de quem sai do ensino técnico

Pesquisa para medir a empregabilidade dos alunos foi feita pela primeira vez por órgão vinculado ao MEC

Raphael Hakime, especial para o Estado

06 de março de 2009 | 18h15

A Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), realizou, pela primeira vez, uma pesquisa para medir a empregabilidade dos alunos formados pelos cursos técnicos da rede federal. A 1ª Pesquisa Nacional de Egressos mostrou que 72% dos ex-alunos estão encaixados no mercado de trabalho - 65% destes na área em que estudaram - e, de cada dez alunos, seis têm salário na média da categoria. Foram entrevistados 2.657 ex-alunos, de todas as regiões do País, formados entre 2003 e 2007.   Leia a reportagem na edição do sábado, 7, de O Estado de S. Paulo   "Alguns órgãos vinculados ao comércio (Confederação Nacional do Comércio) e à indústria (Confederação Nacional da Indústria) estimam que faltem 200 mil profissionais de nível técnico no mercado brasileiro", diz o secretário de educação profissional e tecnológica da Setec/MEC, Eliezer Pacheco. "Faz parte da cultura da classe média brasileira o estudante fazer o ensino médio tradicional e se tornar bacharel, o que provoca a falta de técnicos no mercado."   Para padronizar a nomenclatura e reorganizar o setor técnico, o MEC elaborou um catálogo com 185 cursos. De acordo com a "cartilha", para ingressar em um deles, o aluno deve ter terminado o ensino fundamental e, para obter o diploma, apresentar o certificado de conclusão do ensino médio. Seu objetivo é acelerar a entrada do jovem no mercado de trabalho, sobretudo no setor produtivo. "O curso técnico ainda ajuda o estudante descobrir se aquela área realmente lhe interessa antes de entrar na faculdade", afirma a diretora de regulação e supervisão da Educação Profissional, Andréa Andrade.   De olho nessa demanda, o número de escolas técnicas se multiplica no Brasil. Em 2003, eram 2,7 mil. Em 2006, o censo escolar apontou a existência de 3,3 mil escolas. A Setec estima que esse número já esteja na casa dos 3,5 mil atualmente. Segundo Pacheco, só a rede federal possui 215 unidades em funcionamento e a meta é chegar a 366 no final do governo Lula (2010).   O Estado de São Paulo planeja adaptar as salas ociosas de 105 escolas estaduais - 60 no interior e 45 na grande São Paulo - em locais para receber cursos técnicos. De acordo com a Secretaria de Planejamento, 18 Centros Educacionais Unificados (CEU) também devem ser incluídos no programa e 43 mil alunos devem ser beneficiados. A implantação dos laboratórios será feita pelo Centro Paula Souza, órgão responsável pelas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs), e o início das aulas está previsto para o início de 2010.   Apesar do crescimento de unidades, o número de matrículas no ensino técnico ainda é pequeno comparado a outras nações. "Cerca de 10% das matrículas do ensino médio são em nível técnico no Brasil. Para se ter uma ideia, países mais desenvolvidos, como a Coreia do Sul, têm índices entre 40% e 50%", afirma Andréa Andrade. Os dados do censo escolar de 2007 comprovam a afirmação. Dos 8,2 milhões de alunos do ensino médio, só 670 mil são no ensino técnico - 8% das matrículas.   Evasão   O curso técnico pode ser um artifício para amenizar o abandono no ensino médio. De acordo com um levantamento da ONG Ação Educativa, feito em 2007 com estudantes do ensino médio, 43% dos alunos, ao entrar no 1º ano, esperavam que a escola os preparasse tecnicamente para o mercado de trabalho, e 25% que ela os capacitasse para superar o vestibular. Para piorar, 8% dos alunos disseram que só permanecem no colégio para obter o diploma.   Segundo a socióloga e coordenadora da pesquisa, Ana Paula Corti, o ensino médio é um período que deve apresentar direcionamentos aos alunos, que sofrem com as escolhas pessoais necessárias nessa faixa etária. "O ensino médio não pode ser oferecido apenas como uma continuidade do ensino fundamental. Essa fase é estratégica na vida do aluno já que ele precisa decidir qual faculdade fazer e qual profissão seguir", afirma Ana Paula.   Proximidade com o mercado   Em São Paulo, o Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia (IFSP) conta com 11 unidades espalhadas no estado e mantém cursos técnicos em todos. Para ingressar, o estudante precisa fazer um vestibular e a disputa é acirrada. No curso de técnico em informática em São Paulo, havia quase 50 candidatos por vaga no processo seletivo 2009.   O estudante Rafael Ferreira Diniz, de 16 anos, fez todo o ensino fundamental em escola pública e enfrentou a concorrência para ser aprovado no curso integrado de informática em 2008. Hoje no segundo ano, ele já conseguiu estágio na área dentro da própria instituição. "O curso é focado em programação de sistemas, desenvolvimento de softwares e tecnologia da informação. Em dois dias na semana tenho aulas das matérias técnicas e aprendo as disciplinas do ensino médio nos outros três", diz Rafael, que, após o curso, pretende fazer engenharia de computação e se especializar em softwares.   A colega de sala Juliane Vasconcelos prestou e passou em três vestibulinhos para escolas técnicas em 2008, mas preferiu fazer informática no IFSP. "Quem quer consegue estágio. Recebi uma proposta para trabalhar de manhã, mas só não estou trabalhando (fazendo estágio) porque minha mãe achou melhor eu só estudar no início do curso", revela a aluna de 15 anos que sonha falar quatro línguas e trabalhar em uma multinacional.   O curso técnico geralmente é criado para suprir a demanda de mão-de-obra de uma região. Foi isso o que aconteceu no campus de Cariacica do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES). "Em 2006, fizemos uma parceria com a Vale do Rio Doce para estruturar os cursos de ferrovias e de portos. Apesar da crise financeira atual, a maior parte dos profissionais que formamos conseguem emprego (na mineradora)", afirma o coordenador do curso de ferrovias, Fábio Uliana. Em agosto de 2008, a escola formou sua primeira turma.   A Vale foi o destino do ex-aluno do curso técnico em ferrovias, Jorge Miguel Ribeiro da Silva, de 20 anos. "Procurei o curso de ferrovias porque sabia que existia uma empresa forte do setor no estado, que é a Vale", diz. Após um processo seletivo com cerca de 50 pessoas, Jorge Miguel foi escolhido e conseguiu o emprego antes mesmo de concluir o curso. "A Vale ia buscar alunos para estágio no Cefet. A ideia é que todos fossem contratados, mas a crise econômica acabou prejudicando esse plano", revela.   Ampliada Às 19h19

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