UNICEF Afeganistão/ 2020
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Renata Cafardo
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Meninas do Afeganistão

Boa parte das meninas do país estava até agora fora da escola, mesmo durante a ocupação americana

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2021 | 05h00

Nada incomodou mais as pessoas decentes na semana que passou do que ver o desespero da população do Afeganistão. Além das chocantes imagens de quem tentava fugir pelo aeroporto, surgiram também relatos das mulheres que temiam perder seu direito de existir em um país dominado pelo Taleban

Muitas delas que colocaram a voz para o mundo em áudios, textos ou tuítes falavam que seriam impedidas de estudar. O mais devastador é saber que elas ainda eram exceções. Boa parte das meninas do país estava até agora fora da escola, mesmo durante a ocupação americana

Há muitos fatores que impedem as mulheres de ir à escola no Afeganistão, que incluem tradição, religião, casamento precoce, insegurança, falta de estrutura nas unidades escolares e pobreza. Uma das conclusões mais tristes de um relatório do Unicef feito em 2019 sobre a educação de meninas no país mostra que quanto mais velhas menos chance de estudar elas têm. 

Aos 10 anos, quase 60% das meninas frequentam escolas; aos 15, essa taxa cai para 30%; e aos 17 anos, para 20%. Três vezes mais homens do que mulheres cursam universidades aos 19 anos.

A pobreza e o trabalho infantil também afetam mais as meninas do que os meninos no Afeganistão. Entre as mais pobres do país, que têm entre 10 e 19 anos, 50% nunca foram à escola. Entre os garotos, o índice é de 20%. Os meninos são chamados para ajudar os pais em trabalhos pesados, mas para as meninas há a expectativa de que assumam serviços domésticos, como a cozinhar, cuidar de irmãos mais novos e limpeza, diz o Unicef. 

A tradição de que a mulher precisa estar pura e reclusa em casa esperando um marido também é uma barreira enorme para a escolaridade, mesmo sem Taleban. Pesquisas mostram que a desaprovação dos pais ainda é um dos maiores motivos para uma menina afegã não ir à escola. E apesar de estarem caindo as taxas, 35% das mulheres se casam antes dos 18 anos e outras 9% antes dos 15. Depois de casadas, estudar é praticamente impossível.

Nas áreas rurais e entre populações nômades, esses números são ainda mais gritantes. Enquanto 1,1 milhão das meninas de 13 a 15 anos estavam fora da escola em 2017 nessas regiões, eram 200 mil nas áreas urbanas. Uns dos temores das famílias é o de que as meninas sejam abusadas ou raptadas no caminho para a escola.

Em um vídeo feito há cerca de três anos pelo Human Rights Watch, chamado "Eu não vou ser médica e um dia você vai estar doente" (tradução livre), as meninas estudam em tendas. Não há prédios suficientes construídos para escolas e os que existem são dados aos meninos. 

Os olhos curiosos das adolescentes em aulas de inglês miram uma pequena lousa com palavras como "table" e "umbrella". Elas se amontoam em barracas, que deixam vento e areia entrar. Uma das alunas mostra os banheiros imundos que são autorizadas a usar, sem portas. Depois da aula, as meninas ainda varrem as salas de aula usadas pelos meninos. 

A desigualdade de gênero e a desvalorização da educação, ambas em níveis que beiram o inacreditável, nos unem na revolta, mas deixam um sentimento de impotência. Aqui no Brasil ainda temos nossas próprias lutas contra um governo que abandonou milhões de meninos e meninas durante a pandemia e fez do Ministério da Educação o símbolo de suas barbaridades ideológicas. 

A gestão de Jair Bolsonaro não chega nem perto de saber o que é educar uma criança para a cidadania, para a humanidade, para a igualdade. A batalha agora é para que reste a eles pouco tempo no poder e possamos reverter o estrago, antes de nos aproximarmos do que há de pior no mundo em educação. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADÃO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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