Megaexposição na Faap é aula de Modernismo

Uma megaexposição, que reúne 600 itens, de quase 150 autores diferentes e cedidos por 200 coleções públicas e particulares de diferentes nacionalidades, realiza a partir de amanhã na Faap o mais amplo resumo da produção artística nacional na primeira metade do século 20. Lá estão obras já conhecidas do público brasileiro, como o célebre Abaporu, de Tarsila do Amaral, ou raridades, como a produção fotográfica de Mário de Andrade. Intitulada Da Antropofagia a Brasília, a mostra - que teve uma primeira versão em 2000, na Espanha - tem como eixos centrais os segmentos de artes plásticas e arquitetura, mas também contempla as outras áreas da cultura e das artes, com núcleos dedicados à literatura, cinema, fotografia, música e um segmento especial que destaca a presença estrangeira no País entre os anos 20 e 50. Afinal, a questão da relação entre o nacional e o estrangeiro é uma das questões vitais para a definição da modernidade nacional.Como explica Jorge Schwartz, responsável pela curadoria geral, "nenhum movimento pensou o Brasil como fizeram Mário e Oswald de Andrade". Daí a escolha da Semana de Arte Moderna como uma espécie de ponto inaugural da exposição. É ela, e não o Manifesto Antropófago (o manifesto de Oswald é publicado apenas em 1928) que serve de ponto de partida cronológico da exposição, que se propõe a mostrar as várias faces do nosso processo de modernização artística. Mas ambos, assim como o outro grande recorte histórico, a inauguração de Brasília, são pontos de convergência essenciais no esforço de compreensão desse fértil período. O curador faz questão, no entanto, de ressaltar que a exposição não é uma mera decorrência das efemérides celebradas recentemente. Foi uma coincidência o fato de ela ter sido inaugurada em datas comemorativas (2000 em Valencia e 2002 em São Paulo)."Parti de um sistema simbólico para iniciar a exposição por causa da questão da dependência internacional", afirma Schwartz, mostrando a primeira das dez salas da exposição, onde se vê variadas representações do processo de digestão de elementos estrangeiros iniciado pelos artistas locais. Essa apropriação do outro se dá tanto na relação centro e periferia, com a absorção da modernidade primeiro-mundista, quanto na descoberta da importância da cultura indígena à qual se prestou tão pouca atenção até aquele momento.O encontro entre o civilizado e o nativo está bem representada na foto de José de Medeiros, logo na abertura da exposição, que mostra o encontro surpreendente entre um índio e um avião. A mesma imagem foi escolhida para ilustrar o alentado catálogo da exposição, que reúne textos de todos os curadores, uma farta seleção de imagens e uma série de documentos importantes. Também são emblemáticas obras como o tríptico Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife, de Cícero Dias, uma afirmação poética de extrema beleza da necessidade de vermos o mundo a partir dos nossos referenciais.Um livro de 638 páginas, editado no País pela Cosac & Naify - é uma edição revista da publicação lançada na primeira versão dessa mostra. Schwartz, que assina alguns dos textos, celebra a idéia dos organizadores espanhóis de editar uma publicação tão alentada, lembrando que essa coletânea de ensaios assinados por pensadores de relevo da cultura nacional - como Annateresa Fabris (artes visuais); Jean-Claude Bernardet (cinema); José Miguel Wisnik (música); Carlos Ferreira Martins (arquitetura e urbanismo); Rubens Fernandes Jr. (fotografia); e Carlos Augusto Calil (presenças estrangeiras ) - terá importância documental que se prolonga além da exposição.

Agencia Estado,

29 de novembro de 2002 | 17h13

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