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Werther Santana/Estadão
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'Medida de proteção fora da escola é o que vai mantê-la aberta', diz especialista

Para o pediatra Marco Aurélio Sáfadi, é preciso que famílias redobrem cuidados e fiquem atentas a sintomas; escolas suspenderam atividades presenciais de grupos de alunos após infecções

Entrevista com

Marco Aurélio Sáfadi

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 11h00

As aulas presenciais para alguns grupos de alunos foram suspensas em escolas de elite de São Paulo após infecções pelo coronavírus. Os colégios afirmam que a contaminação ocorreu fora do ambiente escolar - o que evidencia a importância de que as famílias redobrem os cuidados ao frequentar outros espaços, segundo Marco Aurélio Sáfadi, presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

"É inexorável que enquanto o vírus estiver circulando em determinada comunidade, existam casos e vão correr em todos os grupos etários e inclusive em crianças", diz o especialista, que faz parte de uma comissão médica criada para orientar a volta às aulas no Estado de São Paulo. Para Sáfadi, as medidas de proteção adotadas fora da escola são fundamentais para garantir que as unidades continuem abertas. 

Pais têm, ainda, um papel importante de rastrear sintomas e evitar a ida da criança à escola em caso de suspeita ou confirmação. A regra vale também para situações em que o estudante teve contato com pessoas infectadas. Na rede pública, segundo o médico, o desafio será garantir a testagem rápida de alunos e professores em caso de suspeita de contaminação para orientar eventuais suspensões de atividades.  

Vimos casos de infecções de alunos e funcionários que fizeram escolas particulares suspenderem a presença de alguns grupos de estudantes. Essas suspensões de grupos serão procedimentos rotineiros daqui para frente?

Quando se tem as bolhas (grupos de alunos que só têm contato entre si) é possível fazer com que o fechamento não se estenda para a escola inteira. É uma estratégia interessante e que deve, sim, ser adotada. A dúvida que existe ainda - e há condutas diferentes em diversos locais - é qual seria o gatilho necessário para interromper a atividade de uma bolha. Alguns adotam estratégia bem conservadora de que a partir de um caso já fecham aquela bolha (procedimento adotado pelas quatro escolas de São Paulo que suspenderam turmas de alunos). E outras escolas, mesmo na Europa e nos Estados Unidos, são mais tolerantes, fazem uma investigação e optam por manter a classe em funcionamento.

Pensando que as contaminações vieram de fora, segundo as escolas, qual o papel das famílias, dos pais, para que as escolas não se tornem focos de transmissão?

Essa talvez seja uma das mensagens de maior importância na discussão do retorno das crianças. É inexorável que enquanto o vírus estiver circulando em determinada comunidade, existam casos e vão correr em todos os grupos etários e inclusive em crianças. E, muitas vezes, quando há retorno escolar, entendem que aquele caso é fruto da exposição da criança ao vírus dentro da escola ou do seu staff de professores. 

Estudos identificaram que é claro que existem casos de contaminação dentro da escola, mas ocorrem em número muito menor do que os contraídos fora do ambiente escolar. Muitas vezes, vinham do adulto que adentrava o domicílio ou de atividades que a criança fazia fora da escola, como clube, parque e igreja. E, nesses eventos sociais, os cuidados não são tão rigorosos. 

Famílias, então, deveriam restringir outros tipos de interações para proteger o ambiente escolar?

Eu não diria impedir ou restringir porque isso é radical e tem uma ou outra atividade que eventualmente pode se fazer necessária. Mas é importante que fique claro a mensagem de que, nesse momento, até para preservar as escolas abertas, temos de focar que, quando a criança ou membro da família frequentarem essas atividades, estejam atentos para tomar medidas que nos protegem porque é isso que vai garantir manter as escolas abertas. Se a cidade assumir uma proporção de casos de novo desequilibrada, uma situação caótica, teremos de tomar medidas de lockdown, que, em algum momento, podem até implicar no fechamento das escolas. 

Sabemos que a criança com sintoma não deve ir à escola. E em relação aos contatos da criança? É importante que as famílias prestem atenção se a criança teve contato com um parente infectado?

Mais importante do que algumas estratégias como medir temperatura é a triagem de sintomas. Se a criança tem sintomas sugestivos da doença ou se um familiar que convive com ela ou esteve com ela por um período está infectado, deve-se orientar que essa criança não frequente a escola até que se esclareça a origem do quadro. 

No ano passado, tivemos um cenário epidemiológico em que desapareceram quase virtualmente todas as doenças respiratórias de março para frente que não fossem covid-19. Ficaram muito raras doenças do dia a dia do pediatra, como a gripe e a bronquiolite. Agora, estou voltando a ver os vírus respiratórios. Isso faz com que muitas crianças tenham tosse, coriza, espirro, mas não é covid. Por isso, é importante ter um mecanismo de testagem. E, com a volta desses vírus, cria-se a expectativa de existir uma competição entre os vírus, e que eles ocupem um espaço que dificulte o coronavírus circular. 

Mas esse cenário de circulação de outros vírus respiratórios não confunde ainda mais o quadro de reabertura das escolas, pensando que uma criança com coriza não deve ir para o colégio?

Esse é o lado negativo, você vai ter muitas crianças com sintomas que não são covid e que às vezes vão ser impedidas de ir para a escola. Por isso, é importante ter acesso à testagem, para verificar o que de fato está acontecendo. 

Nos casos das escolas de elite que suspenderam grupos de alunos, em geral fizeram isso depois que a criança teve sintomas e foi testada, em um período de tempo curto. Para alunos da rede pública, com menos acesso aos serviços de saúde e resultados de testes que podem demorar mais tempo, isso não compromete a suspensão das bolhas? Ou seja, a criança tem sintoma, mas não sabe que é covid, o resultado demora a sair e, nesse período de tempo, ela foi para a escola... Como equacionar isso em um cenário com acesso ainda mais complicado aos testes?

Isso só destaca a importância de termos os testes. Temos de ter muita clareza em relação a essas medidas e batalhar para isso nas escolas públicas. Entendo que uma das ferramentas que define um ambiente seguro é a disponibilidade da testagem. 

E os casos de crianças que são assintomáticas, que nem passariam por um teste? 

A transmissão de assintomáticos existe, não só em crianças. Mas, paralelamente a isso, o que a gente viu nos locais onde o retorno às escolas ocorreu é que as medidas de precaução são exatamente para combater esse tipo de risco do transmissor assintomático. A despeito de ter a preocupação de muitas serem assintomáticas, não é o que vimos na prática. O cenário de transmissão nesse grupo etário é muito menos importante do que entre adultos e adolescentes.

Em São Paulo, temos vários setores abertos, como os shoppings com horário estendido, bares e restaurantes. Essa abertura de todos os setores pressiona os casos nas escolas? Para priorizar a abertura das escolas, deveríamos restringir outros setores neste momento? 

É um momento que merece muita atenção de todos. Se observarmos recrudescência dos casos e piora da situação epidemiológica na comunidade, isso vai acabar respingando na abertura das escolas. Temos de estar atentos para implementar as medidas corretas, sempre destacando que a escola nunca deve ser a primeira a fechar. Esse é sempre um último recurso. Temos de estar atentos à situação epidemiológica e, caso seja necessário implementar medidas, entender que o fechamento das escolas não deve ser a primeira, que há diversas outras que talvez tenham custo político maior, mas que são muito mais efetivas para controlar a transmissão do vírus.

E o senhor não acredita que chegamos a essa situação epidemiológica?

Nas últimas uma ou duas semanas, não estamos vendo aumento do número de casos. Esperamos o fim dessa semana, mas analisando com muita cautela e atenção para não corrermos risco. 

Qual a mensagem para o pai que quer mandar o filho para a escola e contribuir com uma escola segura, sem coronavírus?

Que todos continuem se cuidando, estejam atentos com as situações já conhecidas sobre riscos e medidas de proteção. Caso contrário, as infecções vão ocorrer na escola na mesma proporção que estão ocorrendo na comunidade. O que significa que teremos na escola a mesma coisa que vemos no nosso dia a dia e isso ninguém quer.

 

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