Médico, pós-graduado, Carlos emenda plantões para completar o salário

Em 47 anos de vida e 23 de serviço público, o baiano Carlos Frederico Anjos, infectologista do Pronto-Socorro do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, ainda não encontrou motivos para completar seus documentos nem tempo para concluir os estudos. Sem dinheiro para viajar ao exterior, Frederico até hoje não tem passaporte."Como nunca precisei, não me preocupei em tirar", diz. Sem tempo para estudar, ainda não pôde redigir sua tese de doutorado em Medicina de Urgência. "Depois de emendar até 24 horas em plantões, só dá para pensar em dormir", lamenta.Tempo e dinheiro são mesmo coisas escassas na vida desse médico, que precisa enfrentar dez plantões de 12 horas por mês (R$ 250,00 cada plantão) para engordar seus salários de R$ 1.876 00 no Emílio Ribas e de R$ 1.358,00 no Hospital do Servidor. "Dá uns R$ 5 mil", calcula Anjos, que nas poucas horas vagas exerce a presidência da Associação dos Médicos do Emílio Ribas.Risco e emoçãoEm compensação, risco e emoção não lhe faltam. Como atendente na emergência de um dos centros de referência em infectologia na América Latina, Anjos lida todos os dias com pacientes terminais, pessoas com um fio de esperança, que chegam de todos os lugares. "Só vêm para a emergência do Emílio Ribas os pacientes em estado muito grave", explica o médico. "E quando você só trata de doenças contagiosas, a periculosidade é altíssima e constante."Nada disso, porém, causa maior estresse em Anjos do que pensar nos seus próximos plantões e na aposentadoria. "No meu trabalho, o estresse é grande mas acaba na hora em que o expediente termina", observa. Duro mesmo, diz ele, é saber que ainda serão necessários muitos plantões para equilibrar seu orçamento doméstico, que lhe consome R$ 2 mil só na educação das duas filhas (uma faz Comunicação e Letras e a outra está no colegial) e outros R$ 800,00 com o seguro-saúde.Padrão ameaçadoSem o dinheiro dos plantões, sua mulher, dermatologista no Hospital das Clínicas, prefere complementar sua renda com um consultório particular, mas seus vencimentos são ainda mais baixos do que os de Frederico. Assim, o patrimônio do casal se resume a um apartamento de três quartos no bairro Cerqueira César (região central), um automóvel Corolla 1999 (R$ 22 mil) e um Peugeot 206, ano 2003 (R$ 20 mil), que os pais dividem com a filha universitária.Pior ainda, ressalta o infectologista, é imaginar que mesmo esse padrão de vida será difícil de manter na aposentadoria. Segundo ele, os plantões e a maioria dos chamados "penduricalhos" acrescidos aos salários-base de R$ 238,99 no Hospital do Servidor e de R$ 319,17 no Emílio Ribas não são incorporados na aposentadoria."Além de não poder fazer mais plantões, como aposentado perderei boa parte das gratificações, que hoje representam 82% dos meus salários", prevê o médico. "Aí eu vou viver de quê? Nem faço contas para não sofrer por antecipação."Opção de vidaAntes que alguém pergunte por que ele não se rendeu ao setor privado, onde talvez até pudesse concluir sua tese Ventilação Mecânica Não-Invasiva em Pacientes com Aids e Insuficiência Respiratória, o infectologista atalha logo: "Sou socorrista e servidor por opção de vida, por acreditar que a saúde, antes de tudo, é um bem público."Ele só lamenta que o ex-colega de diretoria do sindicato o também médico Antônio Palocci Filho, não tenha mantido a mesma convicção após assumir o Ministério da Fazenda. "Lutamos muitas vezes pela saúde pública e é lamentável que hoje ele só olhe para o mercado." Apesar de tudo, Anjos não desiste. Promete concluir logo sua tese e um dia, quem sabe, ter motivos para confeccionar seu passaporte. "Vontade não me falta."

Agencia Estado,

30 de julho de 2003 | 11h03

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