Daniela Harsanyi
Daniela Harsanyi

Medicina aliada a áreas da Saúde é o desafio

Tratar paciente de forma ampla é preocupação em faculdades, mas ainda não está na grade

Gabriel Navajas, Especial para O Estado

16 Outubro 2018 | 03h00

A formação cada vez mais completa do médico é tema constante na pauta das grandes faculdades de Medicina no Brasil. Sair do pensamento individual para o coletivo na formação de futuros profissionais e no tratamento dos pacientes, abrangendo a integração com outras especialidades da área de Saúde, é um desafio para ampliar o sentido da palavra “cuidar”. Isso envolve não apenas lidar com o paciente de forma mais ampla, mas até com quem convive com ele.

O tratamento, muitas vezes, pode significar para o médico ir além da sua atuação, exigindo a participação de profissionais de outras especialidades e até de diferentes campos da saúde, seja para cuidar do paciente ou das pessoas no seu entorno. Em renomadas faculdades de Medicina do País, considera-se, então, importante essa atuação coletiva, integrada a várias áreas da Saúde, mesmo que isso ainda não esteja na grade curricular.

“É uma questão extremamente oportuna. Vivemos um momento de fragilidade nos currículos médicos. O grande desafio é conseguir essa interprofissionalidade. Ela praticamente inexiste. É muito frágil, principalmente em escolas tradicionais, nas quais a visão do médico é como dono do saber. Nós temos trabalhado muito nisso. É um desafio muito importante e necessário”, afirma Aécio Gois, professor e coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Milton de Arruda Martins, professor de Clínica Médica na Universidade de São Paulo (USP), também acredita que é preciso rever essa visão e cita uma frase da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ratificar a importância de uma grade que contemple a interprofissionalidade nos cursos de Medicina: “Aprender juntos para trabalhar juntos por uma saúde melhor”.

Necessidade

De acordo com Martins, já ocorreram mudanças. Porém, há ainda um caminho a ser percorrido para atingir esse objetivo. “O coletivo tem de vir primeiro. Precisa-se pensar um pouco na atuação de uma equipe, não só o médico fazer tudo. Tem prevenção, hábitos, os aspectos físico e psicológico, o estilo de vida. Sozinho, muitas vezes o médico não consegue resolver tudo”, reforça o professor de Medicina da USP.

“Durante o curso, o estudante tem de aprender a trabalhar em equipe. É importante que hoje haja uma disciplina que aborde isso, além de atividades e estágios, com estudantes de várias áreas atuando juntos”, acrescenta.

E é justamente na sala de aula que está a solução para transformar o individual em coletivo na atuação dos médicos, aponta o coordenador do curso da Unifesp. Ele destaca a importância da interação entre diferentes especialidades da Medicina na preparação dos estudantes. Segundo Gois, o objetivo é que eles saiam da universidade com um conhecimento mais amplo, capazes de atender às necessidades dos pacientes, tudo ligado ao conceito da interprofissionalidade.

Atuação

No entanto, para que isso funcione, de acordo com ele, são necessárias mudanças na grade curricular. “Se somos uma família tradicionalmente de gordinhos que são sedentários, ociosos, que comem mal e têm uma série de conflitos, devemos mudar os hábitos. Assim, um estudante de Medicina precisa aprender a fazer essa intervenção na família. Precisariam ir um médico, um educador físico, um psicólogo, uma nutricionista para ver tudo isso”, exemplifica o coordenador da Unifesp.

Martins concorda. “O aluno de Medicina, e depois o médico, tem de ter uma ideia clara do que são alimentação inadequada, inatividade física, uma série de problemas da saúde mental, ritmo de vida.”

Novo enfoque. Na Faculdade Israelita Albert Einstein, o método TBL (sigla em inglês para Team Based Learning), o aprendizado com base no trabalho em equipe, já permeia os seis anos do curso de Medicina, que também inclui na grade curricular a disciplina Humanidades. “Tudo é feito em grupo. Somos expostos desde o primeiro dia de aula a trabalhar em equipe. A aprender desde sempre a lidar com as diferenças, a ter empatia”, conta Daniela Harsanyi, estudante do Einstein.

“Discutimos muito que a saúde não é só uma doença específica. A gente quer promover um cuidado amplo para o paciente, e isso se estende para a equipe: técnico de enfermagem, enfermeiro, nutricionista, terapeuta, médico”, lembra Daniela.

No 6.º semestre do curso, a estudante pensa em se especializar em Cardiologia, mas destaca a interprofissionalidade como um fator primordial para o bom exercício da Medicina. “É fundamental partir desse conceito de saúde. Não basta cuidar de um problema pontual. É preciso estar atento a todas as áreas. Ao físico, ao emocional, tudo mexe e afeta a saúde”, afirma a estudante do Einstein. “Em doenças crônicas, por exemplo, não adianta só tomar remédio, a pessoa precisa mudar os hábitos. Precisa de uma equipe, realmente.”

Essa transformação passa por uma atualização nos cursos de Medicina, na opinião de Gois. Para o coordenadordo curso da Unifesp as faculdades trabalham pouco com o médico que está no mercado. “Grandes instituições têm muito do ensino do século passado”, afirma Gois. “O que nós ensinamos tem de estar em cima com o que acontece no mercado. Precisamos sair das aulas tradicionais e ser mais interativos. Temos de fazer vivências e atividade práticas em conjunto com os diversos cursos. Precisamos sair dessa coisa do pedestal e trabalhar o conjunto”, diz o coordenador da Unifesp.

Vantagens

Inserir a interprofissionalidade no curso de Medicina, como defendem os especialistas, só traria mais benefícios aos pacientes. Professor da Universidade de Campinas (Unicamp), no Departamento de Alimentos e Nutrição, Mário Roberto Maróstica Junior lida com uma área que faz parte da integração das especialidades médicas. De acordo com o professor da Unicamp, vai na linha do que pensam os profissionais da área.

“É realmente algo necessário. É preciso haver uma intervenção nutricional e um educador físico para quem tem sobrepeso, por exemplo. No caso de obesidade, talvez ainda seja necessário entrar com medicamento, e isso precisa ter acompanhamento médico. A partir daí, há a necessidade de sinergia entre os diferentes profissionais”, endossa Mário Junior.

Na Unifesp, o coordenador do curso de Medicina traça planos para o futuro, de olho na modernização e na formação de um profissional mais completo. “Pretendo fazer uma disciplina de Medicina Culinária. Tem a ver com mudança de hábito, para que o médico saiba explicar como se come”, conta Gois. “(Nas aulas), que compareçam um educador físico para falar de sedentarismo, uma nutricionista que escolha produtos, chefs de cozinha, um psicólogo ou psiquiatra, para falar sobre felicidade, ansiedade, resiliência. Isso também se ensina”, conclui.

DEPOIMENTO

‘Há um esforço institucional por visão integral do paciente’

Ana Débora Souza Aguiar, aluna do 3º ano de Medicina na Unesp-Botucatu

“Depois de ter largado três cursos diferentes (Letras, Audiovisual e Enfermagem), tenho plena certeza da minha escolha pela Medicina. Por causa dessas experiências anteriores e até por ter prestado vestibular mais velha do que meus colegas, passei a ter uma visão mais realista do que seria a faculdade. Talvez por conta disso, estudar em Botucatu esteja sendo uma experiência extremamente satisfatória para mim.

Além das dificuldades inerentes ao curso de Medicina, como a alta carga horária, estudar em Botucatu também implica particularidades de se morar no interior. O transporte público é escasso (um ônibus por hora, nas rotas que vão para o câmpus), o que acaba fazendo com que a maior parte dos estudantes dependa de carona. Não existe um restaurante universitário propriamente dito no câmpus. Mas, para quem gosta de um ritmo mais calmo, a cidade oferece uma qualidade de vida muito melhor do que a capital. 

O curso de Medicina é extremamente puxado, mas de maneira geral os professores estão entre os mais dedicados e receptivos que já tive. Existe um claro esforço institucional que visa a formar médicos humanizados, com uma visão mais integral do paciente. 

A Unesp oferece um pouco de tudo em termos de vida universitária, mas o que mais me trouxe satisfação até agora foi o trabalho nos projetos de extensão, em especial no Cursinho Desafio, comunitário e gerido pelos estudantes. É uma boa forma de passar para frente tudo o que estudei no vestibular.” 

Problemas dos pais afetam as crianças, dizem pediatras

Segundo pesquisa, médicos percebem isso nas consultas, mas têm dificuldade de tratar temas

Em pesquisa feita pela editora americana Sage Publishing com 200 pediatras, mais de 150 dos profissionais ouvidos revelaram que os pais, no momento da consulta, apresentam pelo menos um problema de saúde que afeta diretamente o bem-estar das crianças. Publicados no Clinical Pediatrics e no Journal of Pediatrics, nos Estados Unidos, os dados destacam que questões como depressão materna ou uso de tabaco pelos pais, porém, não são tratadas nas consultas, porque muitos médicos não se sentiam à vontade para abordar os temas com as famílias. Tais problemas podem, assim, influenciar o comportamento dos filhos.

Os médicos encontram dificuldades para abordar os problemas dos pais por diversas razões, como falta de tempo na consulta e dificuldade no encaminhamento dos pais às especialidades necessárias. “O serviço público, por exemplo, tem prazo (tempo de consulta) para atender e tanta coisa para falar que, por vezes, fica difícil de tratar com os pais. Quando você atende um recém-nascido na primeira consulta, a depressão pós-parto é um quadro bem presente e importante, mais do que se imagina, e pode determinar o sucesso da amamentação. Se a gente não tem espaço para abordar, resolve de forma superficial”, afirma o pediatra e homeopata Moises Checinski, autor do blog #EuApoioLeiteMaterno.

A pesquisa abordou seis questões de saúde que envolvem os pais: depressão materna e uso de tabaco lideram o ranking dos problemas, seguidos por violência sofrida pelo parceiro, status de imunização para dTpa (tétano, difteria e coqueluche - tríplice acelular), status de seguro de saúde e planejamento familiar.

“Acredito que, se o mesmo trabalho fosse realizado no Brasil, os dados obtidos seriam diferentes, até mesmo por questões culturais. O pediatra é, classicamente, um dos especialistas de maior empatia com seus pacientes e familiares, e dinâmica familiar, hábitos e saúde dos pais são itens obrigatórios em nossas consultas”, comenta Ricardo Luiz Affonso Fonseca, coordenador médico do pronto-socorro pediátrico do Hospital Sírio-Libanês.

Mas Fonseca reconhece algumas dificuldades encontradas pelos profissionais no momento da consulta. “Claro que, em uma consulta de rotina, esses aspectos (problemas dos pais) devem ser abordados, mas, muitas vezes,pela falta de tempo ou de enfoque, por exemplo no pronto-socorro, essas questões são deixadas em segundo plano.”

Hábitos

Para Moises Checinski, a questão da alimentação é um dos aspectos agravantes para a saúde dos filhos. Neste caso, segundo ele, toda a família teria de passar por uma reeducação alimentar. “Se falamos de obesidade, por exemplo, não conseguimos interferir na alimentação da casa, da escola, não adianta. Ou a família se envolve, ou a crianças sofre as consequências”, explica Checinski. “Nós deveríamos ter um tempo adequado na consulta, independentemente de onde estamos. No meu consultório, reservo uma hora. Mas alguém que atenda em ambulatório ou pelo plano de saúde até pode dedicar tempo, mas acaba interferindo no dia desse profissional de Saúde.” / COLABOROU EDUARDO GERAQUE, ESPECIAL PARA O ESTADO

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