'MBA deveria ter um prazo de validade’

Bodo Schlegelmilch, diretor da Association of MBAs, defende que se criem mecanismos para atrair alunos para a educação continuada

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 03h00

Responsável por credenciar escolas de negócio no mundo todo para o oferecimento de cursos de MBA oficiais, o alemão Bodo Schlegelmilch, diretor da Association of MBAs (Amba), acredita que os diplomas na área não valem para sempre. Assim como as escolas só recebem as credenciais a cada cinco anos, ele defende que se criem mecanismos para atrair alunos para a educação continuada. O diretor conversou por telefone com o Estado sobre o assunto e sobre os desafios da área para o futuro.

Muitos especialistas em educação executiva no Brasil apontam para uma banalização do MBA, aplicando o nome a cursos não relacionados à área. O senhor observa isso em outros países?

O Brasil é particularmente conhecido por isso, mas qualquer um vai se dar conta que essa é uma oferta rasa, vazia. Vejo isso em outros países também. Nós (da Amba) somos muito céticos em relação a isso. Dito isso, eu pessoalmente não acho que seja o grande problema. Empregadores vão olhar o ranking das escolas, se há um selo da Amba, etc. Ao mesmo tempo em que o MBA parece ser um diploma banalizado, ao menos no uso do rótulo, acho que é um problema superficial. Não é o verdadeiro problema. Os alunos não vão se deixar enganar por isso.

Qual é o verdadeiro problema?

O problema real é o quanto os alunos fazem educação continuada após o MBA. Eu costumo dizer que o MBA deveria ter um prazo de validade. É uma afirmação forte mas, essencialmente, aponta para a seguinte ideia: quando a Amba credencia uma faculdade, há um limite de cinco anos para a validade do selo. Depois, é preciso pedir novamente para ser credenciado. Há motivos particulares para isso, como o fato de que a escola pode piorar ao longo do tempo, ou o ambiente (de negócios) poder ter mudado, e a escola, não. O que vemos como um perigo é que, em um ambiente de negócios muito turbulento, os alunos façam um MBA e, depois, não façam nada pelos próximos anos. Você precisa ter uma situação em que o aprendizado se torna uma condição, um hábito. Muitas coisas mudaram e precisamos ter certeza que temos mecanismos que atraiam pessoas da área de negócios de volta (à academia) para aprender regularmente.

Quais são os principais desafios da área hoje?

Em primeiro lugar, mudança nas demandas dos estudantes. Os alunos, com frequência, querem algo que seja de uso imediato, não querem investir muito tempo em cursos. Há mais demanda por assuntos e temas que oficialmente não estão no escopo de um MBA, como modelos de negócio alternativos, organizações sem fins lucrativos, sustentabilidade e por aí vai. O segundo desafio são as várias mudanças na tecnologia. Elas influenciam a maneira como os cursos podem ser oferecidos, caso dos realizados online. Mas também no sentido de inteligência artificial e como os cursos podem ser customizados.

Quais são as consequências de customizar o conteúdo?

A primeira pergunta que se deve fazer é “para quem estou oferecendo esse curso?”. É alguém que está entre seus 30 e 40 anos, e já tem uma longa carreira? Ou uma pessoa com dois ou três anos de experiência, que quer começar na área de gestão? Para os mais novos, acho a ultra especialização um perigo. Com frequência, os estudantes têm uma noção de que gostam de uma coisa e não da outra com base em pouco fundamento. Eles podem começar a se especializar demais muito cedo. 

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