Mayana Zatz: 'coisas que eu queria saber aos 21 anos'

'Naquela época a distrofia muscular progressiva matava aos 20 anos'

26 Outubro 2009 | 21h50

"No ano em que me formei, em 1968, a USP vivia plenamente a efervescência política da época. Tive colegas presos e torturados. Na Biologia, não havia tanta patrulha ideológica. Mesmo assim, eu fui parada e questionada diversas vezes pela polícia quando ia, em carro oficial, colher sangue de pacientes.   Cheguei a ser presa, não me lembro quando. Fui assistir a um curso noturno de genética e havia denúncia de assembleias na USP. Levaram quase todo mundo. Eu não cheguei a dormir na delegacia, porque nos soltaram de madrugada. Lembro que meus pais ficaram muito assustados.   Aos 21 anos, eu estava no último ano da Faculdade de Biologia da USP, me formando e prestes a me casar. Já era interessada pela genética. Desde o primeiro ano da faculdade, eu já era apaixonada. Aliás, isso começou antes, na época da escola. Eu era fascinada pelos livros de genética.   Procurei, logo no início do curso da USP, o autor de um desses livros, o professor Oswaldo Frota-Pessoa. Ele tinha formação em Medicina e Biologia e, logo que viu meu interesse no assunto, me convocou para trabalhar com o grupo de aconselhamento genético na faculdade.   Nós recebíamos os pacientes que vinham do Hospital das Clínicas e de outros lugares. Eram pessoas com doenças geneticamente determinadas. A gente atendia os pacientes junto com o professor. Não para tratá-los, mas para confirmar o diagnóstico, estimar se havia ou não o risco de a doença genética se repetir na família e orientá-los acerca do que podia ser feito. Não havia naquela época tantos exames como hoje. Além disso, os procedimentos eram menos precisos. Prossegui fazendo o aconselhamento genético durante todo o curso de Biologia.   Desde então, me interessei pelas distrofias musculares progressivas. A pessoa que tem essa doença nasce aparentemente normal e, aos poucos, vai perdendo a força nos músculos. A forma mais grave acomete meninos. Ainda é um problema sem cura, mas a expectativa de vida aumentou muito ultimamente. Antes, morria-se com cerca de 20 anos. Hoje, com os tratamentos disponíveis , como a ventilação assistida, a fisioterapia e as drogas que protegem o coração, é possível viver além dos 40. Naquela época, a gente não sabia nada. Era tudo novo.   Acho que foi isso que me atraiu, trabalhar com uma fronteira do conhecimento. Eu não sei se mudaria alguma coisa saber que a genética se tornaria a ciência do futuro. Talvez isso me estimulasse mais ainda! A única coisa que eu sabia e se confirmou é que eu não ganharia muito dinheiro fazendo essas pesquisas. Minha paixão pela genética continua igual. Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo de novo."

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