José Luís da Conceição/AE
José Luís da Conceição/AE

Mau cheiro toma conta do parlatório em frente à São Francisco

Monumento diante da Faculdade de Direito da USP vive cheio de sujeira

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2010 | 10h06

Não são poucos os locais no centro utilizados como “banheiros informais”. Há, claro, os cantos mais óbvios – os canteiros gramados da Praça da Sé, as muretas de concreto na Praça Ramos de Azevedo e os vários becos estreitos na região da Rua 25 de Março. Mas existem também locais mais simbólicos, marcos de um passado não tão remoto que hoje estão bem menos cheirosos do que há algumas décadas.

 

Entre eles está o Vale do Anhangabaú. A poucos metros da Prefeitura de São Paulo e do Teatro Municipal, o tapume ao redor dos banheiros inativos e as várias escadas que ligam a praça às ruas acima são diariamente maltratados por transeuntes e moradores de rua. Um dos pontos mais marcantes é a escadaria que liga o túnel (onde há um ponto de ônibus) à praça, logo abaixo do prédio da Prefeitura. O pior horário é no início da manhã, antes da lavagem diária feita pelos garis. “Parece um campo minado”, descreve um vendedor.

 

Mas talvez o local mais emblemático seja a tribuna livre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo de São Francisco. Construído no início da década de 60, o parlatório era usado quase diariamente por estudantes de Direito, que na época discursavam para os pedestres que cruzavam o Largo para ir do Anhangabaú à Praça da Sé, onde se concentravam ônibus para quase todos os locais da cidade.

 

Tristeza

“Nós antes tínhamos o caixote livre, mas aí construíram a tribuna. E quase todos os dias fazíamos verdadeiros comícios. O pessoal da direita falava, o pessoal da esquerda também. E não só para colegas, mas para comerciantes, operários que paravam para ouvir nossos discursos. Era uma época muito politizada e nós éramos, modéstia a parte, grandes oradores”, lembra Sérgio Resende de Barros, então aluno e hoje professor da Faculdade.

 

Com a instauração da ditadura militar, discursar a céu aberto tornou-se uma atividade mais perigosa e a tribuna começou a entrar em desuso. Hoje, o monumento é muito mais utilizada como latrina pelos sem-teto do que como parlatório. Basta uma esticada de pescoço para flagrar um cenário deplorável na antiga tribuna, tombada pelo patrimônio histórico estadual desde 2002. “Fico triste de saber que a tribuna livre está virando um defectório livre”, lamentou o professor.

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