Mais um crime abala escola em Guaianases

Wallace Ornelas Passos, de 17 anos, foi assassinado, anteontem à noite, na porta da escola municipal Madre Joana Angélica de Jesus, em Guaianases, zona leste, com 15 tiros ? oito na cabeça. Outros sete adolescentes foram baleados (seis deles são alunos do colégio). Há nove meses, no mesmo lugar, Edi Greenfeld, de 52 anos, então diretora do colégio, foi assassinada da mesma forma. ?O lugar ficou amaldiçoado?, acredita o dono de um boteco próximo da escola. Segundo o Núcleo de Ação Educacional (NAE) da Prefeitura, o colégio era considerado exemplar. O órgão jamais recebeu reclamações de pais, alunos ou professores. Até o ano passado, a procura por uma das 1.500 vagas para o ensino fundamental era grande. Em abril de 2002, porém, surgiram as primeiras denúncias. Moradores e colegas de Edi diziam que traficantes cobravam pedágio dos alunos. A diretora era bastante ativa no combate à violência e incentivava a promoção de palestras feitas pela Polícia Militar sobre criminalidade e tráfico de drogas. Todo dia, almoçava num barzinho bem em frente à porta principal do colégio, no final da Rua Torre de Santiago, onde também os alunos e PMs da Ronda Escolar costumam ir. A polícia levantou a hipótese de a morte de Edi ter sido um alerta de traficantes. O inquérito para apurar o assassinato continua aberto, mas sem suspeitos. Ontem, a polícia desconfiava que o novo crime era mais uma ação do tráfico de drogas. Wallace não era aluno, mas vivia na região. Tinha saído havia poucos dias da Febem e era conhecido pelos alunos mais ?malandros?, que o chamavam de Tipolita. ?Estava marcado?, disse um menino de 7 anos, ontem, na porta da escola. ?Tipolita vendia pó? , contou uma balconista, referindo-se ao tráfico de cocaína. ?Não era aluno, mas saltava o muro, vendia lá dentro.? Acusado de homicídio A polícia acredita que o rapaz morto na porta do colégio tenha sido o autor de um assassinato ocorrido horas antes de ser executado. Por volta das 13h30, Valter Daniel de Rezende, de 18 anos, levou dois tiros na cabeça numa viela perto da Rua Feliciano de Mendonça. A morte teria acontecido por causa de uma dívida de Rezende com Tipolita. ?Tipolita vivia de encrenca?, disse outro garoto, que imitava para os colegas a forma como o rapaz foi morto. ?Vi tudo?, contava. ?Eram parentes do outro, que morreu na ruazinha, vinham se vingar.? Na porta de sua casa, perto do colégio, o pai de um aluno confirmou a história. ?Tem tráfico aqui sim?, disse. ?Eles já mataram a diretora e agora estão colocando em risco a vida dos nossos filhos.? Anteontem, a porta da escola já tinha fechado quando três pessoas com camisas cobrindo o rosto e pistolas na mão chegaram. Gritaria e corre-corre era o que as pessoas que estavam lá na hora conseguiram descrever. Uma das alunas baleadas, B., de 13 anos, lembra que corria e não sentiu o tiro. ?Não vi nada?, diz ela, que após os dois primeiros disparos tentou se proteger. ?Descia a ladeira e senti minha perna formigando.? Só depois que percebeu o sangue teve medo. ?Pensei que eu poderia ficar paraplégica.? Outro aluno caiu no meio da rua. ?Fechei os olhos e rezei, pensei que fossem me matar.? Todos os baleados passam bem e já estão em casa. Ontem, as aulas foram suspensas.

Agencia Estado,

14 de fevereiro de 2003 | 17h51

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