Mais de 600 mil estudantes em greve no Chile

Mais de 600 mil estudantes chilenos do ensino secundário participaram de um protesto para exigir reformas no sistema educacional do país. A manifestação, que já se configura como a pior crise enfrentada até agora pela presidente Michelle Bachelet, foi apoiada por universitários, políticos e pela população em geral. Os dirigentes estudantis, que classificam o sistema educacional de "classista", convocaram manifestações pacíficas no interior das escolas, mas confrontos foram registrados com a polícia quando milhares de estudantes começaram a se dirigir ao centro de Santiago e em várias outras cidades. Segundo a mídia chilena, pelo menos dois policiais ficaram feridos e cerca de 200 estudantes foram detidos. Os estudantes exigem passes escolares no transporte público e vestibulares gratuitos, além de merenda escolar, fim do período integral de aulas e reformas na lei que rege o sistema educacional. Bachelet e seu ministro da Educação, Martín Zilic, haviam advertido que não negociariam sob pressão, mas a extensão do conflito os obrigou a dialogar. Vários colégios particulares paralisaram suas atividades, incluindo a escola privada onde estuda a filha menor de Bachelet, Sofía. O apoio aos estudantes é expressado por todos os partidos e setores da sociedade, inclusive pela própria presidente. Os jovens se queixam de que a jornada escolar integral não reforça seus estudos e apenas agrega mais horas de aula. Mas sua principal demanda diz respeito à mudança na Lei Orgânica Constitucional de Ensino, que foi assinada pelo ex-ditador Augusto Pinochet um dia antes de deixar o poder, em 1990. Essa legislação transferiu a responsabilidade pelo financiamento da educação aos municípios, alguns muito ricos, outros médios e a maioria muito pobre. Até aquele dia, o ensino no Chile estava a cargo do Estado. De acordo com especialistas, na realidade, lei estabeleceu uma subvenção ao setor privado pela função de ensinar. Eles explicam que, na prática, os empresários particulares criam escolas, cobram dos pais e, além disso, recebem dinheiro do poder público. Segundo o líder estudantil Javier Romero, os estudantes querem que "o Estado seja o único garantidor e administrador da educação pública". De acordo com ele, "só assim teremos uma maior igualdade". Jenny Assael, acadêmica da Universidade do Chile, disse ao jornal La Nación que "este é o único país do mundo em que o Estado entrega fundos públicos, sem nenhum controle, a empresários privados da educação que têm a finalidade de obter lucro". Em 1992, os políticos que hoje estão no poder no Chile tentaram modificar a lei de ensino no Congresso, mas não contaram com os votos da oposição de direita, que atualmente, diante da magnitude do conflito, promete analisar o problema.

Agencia Estado,

30 de maio de 2006 | 17h56

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