Nilton Fukuda/ Estadão
Quase um quarto das mulheres (23,8%) deixou os estudos por ter engravidado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019 Nilton Fukuda/ Estadão

Mais de 10 mi de jovens de 14 a 29 anos não concluíram ensino médio; 70% deles são pretos ou pardos

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, feita pelo IBGE, mostra que metade dos jovens homens que abandonaram a escola precisava trabalhar; entre as mulheres, quase um quarto deixou os estudos por ter engravidado

Daniela Amorim e Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 10h00

RIO E SÃO PAULO – Os dados sobre a escolarização da população brasileira vêm melhorando, mas ainda mostram uma forte desigualdade, especialmente a partir da adolescência, quando parte expressiva dos jovens ainda interrompe os estudos. O País tem 10,1 milhões de jovens de 14 a 29 anos que não frequentam a escola nem concluíram o ensino médio, sendo que 7,2 milhões deles são pretos ou pardos.

As informações são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados mostram que o abandono escolar se agrava a partir dos 15 anos. Metade dos rapazes que abandonaram a escola alegar que precisavam trabalhar. Entre as mulheres, quase um quarto delas (23,8%), deixaram os estudos porque ficaram grávidas.

“Os motivos da evasão, do abandono, são diferentes. O que chamou mais atenção foi a diferença entre homens e mulheres. A questão do trabalho para os homens pesa muito mais. É óbvio, se olhar a realidade heterogênea do Brasil, a gente sabe que muita gente tem que trabalhar cedo porque precisa prover dinheiro para dentro de casa, para alimentação, para o sustento. Mas impressiona como a questão da gravidez entre as mulheres faz com que haja uma ruptura da questão escolar. Isso chamou a atenção. Óbvio que o trabalho é importante, mas, para as mulheres, a questão da gravidez foi também decisiva”, disse Marina Aguas, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, organização que atua para a melhoria da educação pública no Brasil, comenta que entre os diversos fatores que explicam a evasão escolar, como vulnerabilidade social e econômica, o racismo é o traço mais importante desse problema.

“Proporcionalmente, os negros estão em famílias mais vulneráveis. Esse número traduz a educação tanto no nível do fluxo como no nível da escolaridade e é talvez a expressão mais nítida de como a desigualdade racial é estrutural na sociedade”, diz. Segundo ele, o racismo estrutural que foi naturalizado e é negado ou ocultado no Brasil rebate em todas as estruturas do País, tendo a educação como espelho mais nítido.

O impacto do abandono escolar, independente do motivo ou gênero, é da mesma natureza. “Não entrar na escolaridade básica é preditor garantido de uma péssima inserção na vida adulta e tem uma implicação inequívoca que será a inserção precária no mundo do trabalho. Os casos excepcionais, em geral, são só uma alegoria de uma situação que teria sido melhor”, afirma Henriques. Ele indica, ainda, que parte da evasão tem a ver com o próprio ambiente escolar, como no caso de crianças que sofrem bullying.

Segundo o IBGE, elevar a instrução e a qualificação dos jovens é uma forma de combater a expressiva desigualdade educacional do País, mas também pode facilitar a inserção no mercado de trabalho, reduzir empregos de baixa qualidade e a alta rotatividade, especialmente em um contexto econômico desfavorável.

Para o porta-voz do Instituto Unibanco, o discurso de que bastaria dar oportunidades iguais a todos na base educacional não garante uma menor evasão. “Isso é uma tese abstrata sem vínculo à realidade brasileira, que não consegue dar conta do desafio histórico da sociedade que tem racismo estrutural e onde a população negra é majoritária. Igualdade de oportunidade deveria ser tratada como responsabilidade pública a ser garantida ao longo do processo da educação”, comenta.

Apenas 41,8% dos adultos pretos ou pardos acima de 25 anos tinham concluído o ensino básico obrigatório em 2019, contra uma fatia de 57% da população branca na mesma faixa etária. Os pretos e pardos tinham, em média, 8,6 anos de estudos, enquanto os brancos tinham estudado 10,4 anos, quase dois anos a mais.

“A população branca tem quase dois anos a mais de estudo que a população preta ou parda, mostrando aí mais uma vez essas diferenças de acesso à educação, ainda que à educação básica”, disse Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

As taxas ajustadas de frequência escolar líquida - que mostram as pessoas em idade escolar que cursam a etapa adequada de ensino para a respectiva idade – evidenciam que o atraso e a evasão afetam mais a população negra ao longo do progresso da vida escolar.

“O desequilíbrio, as desigualdades, o início dos gargalos já começa no ensino fundamental. As pessoas falam que o grande problema seria o ensino médio, ele não começa no ensino médio, ele jé se manifesta nesses anos finais no ensino fundamental”, ressaltou Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Até a faixa de 10 anos, brancos e negros tinham uma taxa de frequência escolar líquida similar, perto de 96%. Entre os 11 e 14 anos, o resultado descia a 90,4% entre os brancos, mas despencava a 85,8% entre os pretos ou pardos. Quando considerada a taxa ajustada de frequência escolar líquida ao ensino médio entre as pessoas de 15 a 17 anos, o resultado foi de 79,6% para os brancos e de 66,7% entre os pretos ou pardos.

“Se o cara já vem atrasado, ele tem mais chance de sair (da escola) nessa idade, e tem o próprio trabalho concorrendo com o estudo. A gente queria mostrar esse marco que acontece de 14 para 15 anos, e como é importante pensar o que fazer nessa idade para que esse jovem permaneça na escola”, explicou Marina Aguas.

A pesquisadora do IBGE lembra que já existe uma discussão ampla sobre como tornar o Ensino Médio mais atraente para os jovens, mas ressalta que é preciso também levar em consideração a necessidade de parte expressiva dos alunos que precisa conciliar os estudos com o trabalho e afazeres domésticos.

“Não é só uma questão de atração pela escola, de querer aprender, estudar, mas a questão do trabalho, tem que fazer com que ele também tenha tempo para o trabalho”, opinou Marina. “Como tornar a educação mais atrativa e, principalmente, de conseguir conciliar nas idades já maiores com o trabalho, a questão da gravidez, dos afazeres domésticos. Tudo isso faz com que o tempo da pessoa seja dividido em várias tarefas”, concluiu.

Quatro perguntas para:

Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Insituto Unibanco

Como avalia o fato de pretos e pardos terem menos acesso e menos anos de estudo do que os brancos?

A gente observa que é uma fotografia que segue coerente com o filme de discriminação e desigualdade racial que a gente tem ao longo da nossa histórica. Está reduzindo um pouco, mas segue altíssimo. A grande questão é que primeiro temos uma desigualdade racial na estrutura do País, e ocorre um racismo que em regra é negado ou ocultado. O que nós vemos mais ainda é que, de alguma forma, esse racismo estrutural naturalizado se traduz em mecanismos e práticas no interior da escola que mantém ou aumenta essa desigualdade racial. Como é um sociedade que ainda nega seus traços racistas, a escola é uma expressão desse racismo estrutural que pode ser ainda mais perverso. Acho que a história brasileira é atravessada pela desigualdade racial, que estrutura a desigualdade social brasileira e na educação como um todo isso acaba se revelando.

Por que o atraso e a evasão escolar afetam mais a população negra?

O traço mais importante é na origem, o racismo. Na evasão, os fatores que explicam são multidimensionais. A vulnerabilidade socioeconômica da família pressiona para que os mais jovens saiam da escola e vão trabalhar. Isso afeta desproporcionalmente os jovens negros do que brancos, porque proporcionalmente os negros estão em famílias mais vulneráveis. Há fatores econômicos associadas à evasão e o Brasil se organizou de forma que naturalizou o padrão de desigualdade. Isso rebate em suas estruturas e a mais nítida é a educação como um todo.

A educação de jovens e adultos tem papel importante nesse ponto?

Com certeza. O ensino básico regular deveria estar obcecado em reduzir a defasagem e garantir que jovens concluam os 12 anos obrigatórios perto dos 17, 18 anos. Além disso, é muito importante ter EJA que seja sólida o suficiente para fazer essa correção de rotas na política educacional brasileira. É necessário ter EJA de qualidade, mas está tentando corrigir problemas estruturais que fizeram com que jovens não construíssem sua escolaridade na idade adequada.

Quais políticas públicas em educação poderiam ser adotadas para reverter esse cenário?

A desigualdade de acesso é baixa, a permanência é o desafio, de crianças negras que começam a sair mais cedo da escola. Tem problema no acesso, mas é mais intenso a permanência e a conclusão. Então, a política educacional deve reconhecer o racismo estrutural brasileiro e criar instrumentos no campo pedagógico que sejam capaz de ter estratégias adequadas a esses desafios. Em geral, as crianças negras vão estar submetidas a produzir defasagem, e a escola produz essa defasagem maior. É fundamental que a política educacional reconheça a desigualdade de origem, reconheça que o racismo organiza a sociedade, precisa formar professores e dar conta disso ao longo do processo. Dizer que desigualdade é na origem social é um modo de ocultar que ele é racial. O econômico e social, a desigualdade de classe, são secundários frente à desigualdade racial.

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IBGE revela que 6 em cada 10 jovens que concluem o ensino médio param de estudar para trabalhar

Levantamento mostra que o ensino superior é hegemonicamente privado no Brasil; apenas um quarto dos estudantes de graduação (26,3%) estão matriculados em instituições de ensino superior públicas

Daniela Amorim e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 10h00

RIO e SÃO PAULO – Ao menos seis em cada dez jovens que concluem o ensino médio não continuam a estudar porque precisam trabalhar ou porque não têm recursos para bancar os estudos, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento mostra que o ensino superior é hegemonicamente privado no Brasil. Apenas um quarto dos estudantes de graduação (26,3%) estão matriculados em instituições de ensino superior públicas.

O País tem 13,810 milhões de jovens de 15 a 29 anos que já têm ao menos o ensino médio completo mas não puderam prosseguir com os estudos e ingressar no ensino superior: 44,4% deles argumentaram que precisavam trabalhar, e outros 17,5% alegaram falta de recursos para bancar os estudos.

“Esse motivo da falta de dinheiro é presente principalmente entre essas pessoas que estariam aptas a cursar o ensino superior. A gente tem preponderância do ensino superior privado no Brasil”, lembrou Marina Aguas, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

A rede pública de ensino atende a maior parte dos estudantes brasileiros desde a creche até o ensino médio, período em que a taxa de escolarização da população na faixa etária avança para patamares de universalização. Em 2019, as instituições públicas concentravam 74,7% dos alunos na creche e pré-escola, 82,0% dos estudantes do ensino fundamental regular, e 87,4% dos que cursavam o ensino médio regular.

Dentre esses alunos, estava o confeiteiro Augusto da Silva Santos, de 18 anos, que começou a trabalhar aos 14 anos de idade. Quando estava no 1.º ano do ensino médio, ele se dividia entre a escola e o trabalho em um hospital em Guarulhos, na Grande São Paulo. Morador de Guaianases, na zona leste da capital, ele também ajudava a família nas tarefas domésticas. No 2.º ano, sofreu um acidente trabalhando em uma obra para ajudar a pagar as contas da casa e ficou dois meses afastado das aulas. 

"Sempre trabalhei. Ajudo com os afazeres da casa, faço a janta dos meus pais. Às vezes, não dava tempo de fazer as atividades de casa, mas eu não podia deixar de trabalhar."

Isso não o afastou dos estudos, nem quando quase perdeu o ano. "Quando sofri o acidente, fiquei internado por 21 dias. Fraturei o polegar esquerdo trabalhando em uma obra em um final de semana. Minha família estava passando por uma situação delicada e eu estava ajudando. Até fazer a cirurgia, tomou dois meses e acabei me atrasando em todas as matérias."

Apesar de todas as dificuldades, Santos, que sempre foi aluno de escola pública, conseguiu concluir os estudos com a ajuda da Educafro, entidade que atua na inclusão de negros no ensino superior por meio de cursinhos.

Na instituição, ele também auxilia outros jovens e coordena um projeto com aulas online com foco em vestibular, o Educafro 100% online. "Comecei a pensar nisso no ano passado e tem dois meses que teve início. No começo, eram dez participantes. Agora, temos 40. Com a situação da pandemia, não seria possível a gente se reunir para estudar. A gente vê o potencial das pessoas e, quando elas me procuram, faço um relatório sobre o que é o estudo para ela, vou tentando ajudar."

Agora, ele sonha em ser médico. “Minha família tem um histórico grande de problemas cardíacos.  Agora, o que quero é correr atrás para prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e tentar tirar uma nota boa para entrar em Medicina", finalizou. 

“A principal provedora é a rede pública, e cai bastante quando a gente vai para graduação e pós-graduação. Tem a ver com a nossa lei de educação, tem a infraestrutura montada pelos governos locais para prover esse ensino básico. Quando a gente parte para o ensino superior, a gente já percebe a presença das instituições privadas”, disse Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Rede pública 

Em 2019, 73,7% dos estudantes de graduação frequentavam uma instituição de ensino privada. Nos cursos de pós-graduação, a rede privada deteve 74,3% dos estudantes nessa etapa de instrução.

No Brasil, a proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade que terminaram a educação básica obrigatória – ou seja, concluíram, no mínimo, o ensino médio – alcançou 48,8% em 2019, ainda menos da metade.

Em 2019, 51,0% das mulheres passaram a ter ao menos o ensino médio completo em 2019, contra uma fatia de 46,3% dos homens. Entre os que não completaram a educação básica, 6,4% eram sem instrução, 32,2% tinham o ensino fundamental incompleto, 8,0% tinham o ensino fundamental completo e 4,5%, o ensino médio incompleto. O porcentual de pessoas com o ensino superior completo subiu de 16,5% em 2018 para 17,4% em 2019.

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Instituições públicas perdem participação no ensino de pós-graduação

Além de corte de bolsas, valores estão menos atrativos devido à falta de reajustes ao longo dos anos; em abril, o Ministério da Educação bloqueou parte do orçamento das 63 universidades e dos 38 institutos federais de ensino

Daniela Amorim, Érika Motoda e Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 10h00

RIO E SÃO PAULO - As instituições públicas de ensino perderam alunos de mestrado, doutorado ou especialização em 2019, ano em que as universidades federais enfrentaram um duro contingencionamento orçamentário. A fatia de estudantes nessa etapa da vida acadêmica matriculados na rede pública de ensino encolheu de 29,0% em 2018 para 25,7% em 2019. O ensino privado ganhou espaço.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A crise de restrição orçamentária no ensino público pode ter ajudado no fenômeno, segundo Marina Aguas, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

"Obviamente que a gente está vendo aí uma educação que tem sofrido, não só de um ano para o outro, mas ao longo do tempo, com relação a verbas para o ensino público", disse Marina.

É o que também observa Ana Maria Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos de Educação Superior da Universidade Estadual de Campinas. Ela indica que além do grande corte de bolsas destinadas ao mestrado e doutorado, esses auxílios tornaram-se menos atrativos ao longo do tempo pela falta de ajuste no valor. Outro aspecto que ela observa é a redução do número de concursos para professores em universidades públicas, em sua maioria mestres e doutores, o que levaria a um desestímulo na busca por esses títulos.

Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), tem a mesma avaliação. “O aluno que faz mestrado e doutorado tem de ter dedicação integral. Com bolsa já era difícil, mas sem bolsa e sem dinheiro para fazer pesquisas, boa parte deles estão deixando de fazer ou fazendo no exterior, onde tem mais incentivo de bolsa e linhas de financiamento de pesquisa”, afirma. 

De acordo com os dados do IBGE, o número de pessoas em curso de pós-graduação até aumentou, saindo de 1,528 milhão em 2018 para 1,568 milhão em 2019. No entanto, o ensino público de pós-graduação perdeu 40 mil alunos apenas no último ano, enquanto as instituições privadas ganharam 81 mil estudantes.

Segundo Ana Maria, embora o título de mestre ou doutor seja interessante, algumas pessoas podem estar recorrendo a cursos de especialização em universidades privadas por não vislumbrarem um horizonte melhor. Outra justificativa para o crescimento de alunos em cursos de especialização no setor privado é a rapidez e dinamismo com que são feitos.

“O mestrado no Brasil é quase um doutorado, com três, quatro anos de duração, e depois o aluno vai fazer doutorado. Hoje, um programa de mestrado na Europa é quase uma complementação da graduação”, diz Capelato. Para ter menos pessoas no mestrado e doutorado no Brasil gera grande impacto na competitividade do País. “Você acaba não tendo pessoas de um nível mais especializado para ter efetivamente inovação, seja tecnológica ou na ciência. Se não tem esses cérebros na pesquisa, o Brasil vai ficando sempre à margem”, comenta.

Crise orçamentária na educação

Em abril do ano passado, o Ministério da Educação, comandando pelo então ministro Abraham Weintraub, bloqueou parte do orçamento das 63 universidades e dos 38 institutos federais de ensino. No fim de setembro, o ministério anunciou o descontingenciamento de R$ 1,156 bilhão para as universidades federais, o que correspondia a pouco mais da metade do que havia sido bloqueado do orçamento do ano passado para as unidades.

No primeiro semestre, o MEC teve contingenciado o equivalente a R$ 5,8 bilhões. Além das universidades e institutos federais, os bloqueios também atingiram a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Programa Nacional dos Livros Didáticos.

“Está tendo restrição no governo federal como um todo, com cortes há bastante tempo devido ao ajuste fiscal. (A universidade) Fica com menos folga para contratar professores que seriam os futuros mestres e doutores”, diz a pesquisadora Ana Maria, da Unicamp.

O corte de bolsas da Capes atingiu em cheio o engenheiro florestal Gabriel Máximo da Silva, de 27 anos, que só não engrossou os números de alunos que desistiram da pós-graduação porque pode contar com a ajuda de amigos e uma motivação pessoal. “Venho de uma família bem humilde; minha mãe tem até a 4.ª série do ensino fundamental. O que sempre me motiva é a busca por educação para melhorar a qualidade de vida e acreditar que, com a ciência, a gente vai conseguir evoluir o País.”

Silva mal havia começado o primeiro ano do doutorado em Sensoriamento Remoto no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) quando a Capes instituiu, em março, uma portaria estabelecendo novas regras de concessão de bolsas de forma abrupta, prejudicando alunos cujos auxílios já estavam em andamento. Ele recebia R$ 2,5 mil. 

Sem bolsa, o doutorando saiu de São José dos Campos (SP) e voltou para a casa dos pais em Belém (PA) para reduzir os custos. Por causa da pandemia, as aulas estão sendo online. Ele cogitou desistir ou trancar o curso, mas, agora, a ideia é tentar continuar no doutorado até a abertura do próximo edital de bolsas. Enquanto isso, ele se mantém com o auxílio emergencial de R$ 600 mais os trabalhos por fora como professor de inglês, tradutor e com os mapas que faz. 

No último mês, disse ele, alguns colegas de turma fizeram uma vaquinha para ajudar com algumas o aluguel da casa no interior paulista, que não foi cancelado porque o custo seria maior. “O pessoal da minha turma se sensibilizou e contribuiu com o que podia para pagar o aluguel. A que ponto chegamos na educação brasileira, pessoal ganhando bolsa de R$ 1,5 mil tirando dinheiro para ajudar quem, como eu, está sem?”

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Taxa desce a 6,6%, mas Brasil ainda tem 11 milhões de analfabetos

'Concentração de analfabetismo tem faixa etária e raça. A taxa de analfabetismo fica mais alta ainda se restrinjo as pessoas de 60 anos ou mais e além disso da cor preta ou parda', diz analista do IBGE

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 10h00

RIO - A taxa de analfabetismo ainda recua a passos lentos, descendo a 6,6% em 2019. O Brasil ainda tem 11,041 milhões de analfabetos, ou seja, pessoas que já completaram 15 anos de idade sem aprender a ler nem escrever. A imensa maioria deles, cerca de 76%, era de cor preta ou parda. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"A concentração de analfabetismo tem faixa etária e raça. A taxa de analfabetismo fica mais alta ainda se restrinjo as pessoas de 60 anos ou mais (de idade) e além disso da cor preta ou parda”, apontou Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Quase seis em cada dez analfabetos no País são moradores da região Nordeste, onde houve ligeira piora no analfabetismo em relação ao ano anterior, contrariando a tendência das outras regiões. A taxa de analfabetismo do Nordeste é mais que o dobro da nacional: 13,9%, com 6,200 milhões de pessoas nessa condição. Na região Sul, é de apenas 3,30%.

O Brasil já está quatro anos atrasado em relação ao cumprimento da meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de reduzir a taxa de analfabetismo a 6,5% em 2015. O PNE também prevê a erradicação do analfabetismo até 2024.

Segundo o IBGE, o analfabetismo vem diminuindo gradualmente no total do País, mas por uma questão demográfica, e não pela escolarização de analfabetos.

"O efeito dessa queda é muito mais demográfico do que por introduzir a educação para esse grupo de 60 anos ou mais”, lamentou Marina Aguas, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE. "Ainda mais no Nordeste onde o acesso à educação é mais difícil do que nas outras regiões", completou.

O analfabetismo é até três vezes maior entre os idosos do que entre os jovens. Na faixa etária a partir de 60 anos, a taxa de analfabetismo no País foi de 18,0% em 2019. Entre os idosos pretos ou pardos, o analfabetismo subia a 27,1%.

Quanto às diferenças regionais, a taxa de analfabetismo entre idosos alcança 37,20% no Nordeste e 25,50% no Norte. Por outro lado, no Sul e Sudeste, o analfabetismo na terceira idade está abaixo dos 10%.

"Nosso sonho é que exista igualdade de oportunidade de qualquer coisa, inclusive educacional, para todo o País e para todos os grupos. De forma que, no futuro, a gente não veja uma desigualdade tão expressiva como a gente vê quando a gente pega os dados de educação. Não sé de educação, mas mercado de trabalho, qualquer um. O Brasil tem inúmeros Brasis dentro", declarou Marina.

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27,5% dos bebês até 1 ano de vida não estão na creche por falta de vaga ou de estabelecimento

Oferta de vagas em creches e pré-escola tem relação com a entrada de mulheres em idade reprodutiva no mercado de trabalho

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 10h00

Rio - Embora venha aumentando a escolarização de crianças e adolescentes no País, uma parte significativa das crianças até 3 anos de idade estão fora da creche ou da pré-escola contra a vontade dos pais, mostram dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, 27,5% dos bebês até um ano de vida não estavam na creche porque não havia vaga ou porque a escola disponível ainda não aceitava a criança por conta da idade. Esse porcentual subia a 37,4% no Norte e a 33,9% no Nordeste.

Entre as crianças de 2 a 3 anos de idade, 39,9% não estudavam por falta de vaga ou de estabelecimento que aceitasse a criança nessa faixa etária. No Norte, essa fatia era de 46,1%, e no Nordeste, de 49,3%.

A oferta de vagas em creches e pré-escola tem relação com a entrada de mulheres em idade reprodutiva no mercado de trabalho. O estudo mostra que 27,5% das mulheres jovens, de 15 a 29 anos de idade, não estudavam, nem trabalhavam nem faziam qualquer tipo de qualificação.

Segundo Marina Aguas, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, essas mulheres muitas vezes estão ocupadas com afazeres domésticos e cuidado de pessoas, especialmente crianças.

“Principalmente as mulheres muitas vezes exercem atividades e afazeres de base, e que dentro da Organização Internacional do Trabalho (OIT) já tem uma discussão enorme de que sejam as outras formas de trabalho, trabalho ampliado, que não só trabalho de mercado. O que a gente quer mostrar aqui é a questão do trabalho de mercado e do estudo, mas não significa que esse grupo não esteja fazendo nada”, disse Marina Aguas.

Entre as mulheres de 14 a 29 anos que não frequentam a escola nem concluíram o ensino médio, quase um quarto delas (23,8%) deixaram os estudos porque ficaram grávidas. Mais 23,8% deixaram os estudos porque precisavam trabalhar, e 11,5% porque precisavam realizar afazeres domésticos ou cuidar de pessoas.

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