Maior matemático do século 20 morre na França

Maior matemático do século 20 morre na França

Alexandre Grothendieck foi premiado em 1966 com medalha Fields, o 'Nobel' da Matemática; ele foi professor visitante da Universidade de São Paulo (USP) em 1953 e 1954

O Estado de S. Paulo

14 Novembro 2014 | 11h39

Alexandre Grothendieck, um dos grandes matemáticos do século 20, morreu aos 86 anos de idade em um hospital no sudoeste da França.  

Grothendieck morreu na quinta-feira, informou o hospital Ariège Couserans de Saint-Girons, sem dar maiores detalhes. 

Considerado por muitos o matemático mais brilhante do século 20, Alexandre Grothendieck havia se mudado para esta região da França na década de 1990 e desde então vivia isolado em Lasserre, um povoado dos Pirineus com apenas 200 habitantes.

Desconhecido do grande público, mas uma verdadeira lenda para os matemáticos, Grothendieck nasceu em 

28 de março de 1928 em Berlim. É considerado por colegas de profissão como um gênio de espírito audaz, que não fazia concessões. 

"Era um gigante que transformou toda a Matemática com seus trabalhos. Vários matemáticos premiados com a medalha Fields foram seus alunos", recordou Cédric Villani, laureado com a medalha em 2010 e diretor do Instituto de Investigações Henri Poincaré de Paris.

Ele foi premiado com a medalha fields, o "Nobel" da Matemática em 1966, mas recusou a premiação. Recusou também, em 1988, o prêmio Crafoord da Academia Real de Ciências da Suécia, no valor de 450 mil euros, considerando que seu salário no Centro Nacional francês de Investigações Científica (CNRS) era mais que suficiente. 

Filho de um fotógrafo anarquista russo de religião judaica e de uma jornalista militante chamada Hanka

Grothendieck, foi confiado a um amigo da família na Alemanha, quando seus pais se mudaram para a Espanha de 1934 a 1939. 

Ao terminar a Guerra Civil espanhola, voltou a viver com seus pais no sul da França. Deportado, seu pai morreu no campo de extermínio de Auschwitz. Sua mãe e ele estiveram em um campo de concentração próximo a Mende, na França.      

Em 1944, se formou no ensino médio francês e ingressou na Universidad de Montpellier, no sul da França. Para sua tese, dois grandes matemáticos, Laurent Schwartz e Jean Dieudonné, entregaram a ele 14 problemas, considerados como um amplo programa para vários anos. Poucos meses depois, receberam, deslumbrados, as respostas: o jovem prodígio havia respondido todos. Ali nasceu a lenda Grothendieck.

Outro mito ligado a seu nome é seu "tesouro científico": milhares de páginas reunidas em cinco gavetas guardadas na Universidad de Montpellier. O matemático proibiu a divulgação dessas notas. 

Em 1953, ele se mudou para o Brasil e foi professor visitante na Universidade de São Paulo (USP).Após ter terminado seu doutorado, não havia perspectivas de emprego para ele na França, uma vez que havia nascido na Alemanha e não era cidadão francês. Para obter a cidadania francesa, teria de prestar o serviço militar, o que se recusou a fazer. Desde 1950 ele tinha um salário do CNRS, mas era mais uma bolsa que um emprego permanente. 

Em 1952, o matemático francês Laurent Shwartz esteve no Brasil e aqui falou sobre o brilhante estudante que estava com dificuldade de achar emprego na França. Como resultado, o alemão recebeu uma oferta de professor visitante, função que ocupou em 1953 e 1954. Ele ministrou na USP um curso sobre espaços vetoriais topológicos e escreveu notas que foram publicadas pela faculdade. As informações sobre o período de Alexandre no Brasil constam em um artigo de 2004 do jornal "Notícias da AMS (Associação de Matemáticos dos EUA)", traduzido para o português pela professora Elza Gomide, da USP.


O diretor do Instituto de Matemática e Estatística da USP, Clodoaldo Grotta Ragazzo, afirma que Grothendieck foi responsável por uma grande contribuição à Matemática. "Ele teve uma grande influência e muito original. Ele teve de aprender por si próprio, pois teve uma instrução precária, teve de estudar em um campo de concentração, não teve uma educação tão boa quanto outros (matemáticos de sua época)." 

Para o presidente da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), Jacob Palis, Grothendieck foi uma referência mundial na Matemática. "Ele foi um dos grandes do período dele. Contribuiu muito para a teoria de geometria algébrica", conta. "Grothendieck poderia ter acumulado mais prêmios, ter tido mais alunos, porque se retirou de cena relativamente jovem"

Palis ressaltou a criatividade matemática de Grothendieck e o seu perfil humanista. "Ele se posicionou contra guerras, como a Guerra do Vietnã, era a favor do meio ambiente". 

Reclusão. Depois do Brasil, Grothendieck foi lecionar nos Estados Unidos. No retorno à França, trabalhou para o Instituto de Altos Estudos Científicos (IHES), onde dirigiu um lendário seminário de geometria algébrica, que contribuiu para a reputação mundial da instituição. 

Mas o matemático, pacifista convencido, abandonou o IHES na década de 1970 quando descobriu que o instituto era parcialmente financiado pelo Ministério da Defesa da França.

Depois de um breve período no Collège de France, voltou a ser professor na Universidade de Montpellier. Trabalhou no CNRS desde 1984 até sua aposentadoria, quatro anos depois. Cortou então toda a relação com o mundo científico e se refugiou nos Pirineus. 

Além de seus trabalhos de geometria algébrica, um campo que revolucionou, Alexandre Grothendieck também é autor do livro "Colher e Semear", que o matemático Denis Guedj, morto em 2010, qualificou de texto que "tece um lúcido vínculo entre a filosofia, as matemáticas, as instituições e a investigação científica". 

Guedj considerava também que o "único ato violento (cometido por Grothendieck) à comunidade científica foi deixar de se dedicar à Matemática". 

O presidente francês François Hollande prestou homenagens a Grothendieck na quinta-feira qualificando-o de "um de nossos maiores matemáticos" e "uma personalidade excepcional por sua filosofia de vida".

*Com agências internacionais. 

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