FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Maior federal, UFRJ vive eleições em meio à crise

Discussão sobre o futuro inclui falta de recursos, verbas retidas, obras paradas e hospital universitário em uma situação precária

LUCIANA NUNES LEAL, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2015 | 02h02

RIO - Um mês após o início das aulas, retomadas com duas semanas de atraso por falta de pagamento do serviço de limpeza, alunos, professores e funcionários da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foram às urnas escolher a nova reitoria, em disputa que reacendeu as discussões sobre falta de recursos, obras paradas e a dramática situação do Hospital Clementino Fraga Filho (Hospital do Fundão), na zona norte.

Os professores Denise Pires, do Instituto de Biofísica, e Roberto Leher, da Faculdade de Educação, disputarão o segundo turno em 4, 5 e 6 de maio. A professora Angela Rocha, do Instituto de Matemática, que trabalhou na atual gestão, ficou em terceiro. Os três se formaram na UFRJ, maior federal do País, com 62.240 alunos e 95 anos de existência.

O futuro do Hospital do Fundão foi tema central da campanha. A situação precária se agravou com a implosão do prédio da ala sul em 2010. Até hoje a lateral do edifício remanescente não foi recuperada. O cenário é de guerra. De uma parede no 9.º andar, avista-se um precipício. Por corredores e salas se espalham camas, cadeiras e equipamentos fora de uso.

O Ministério da Educação (MEC) ofereceu contrato com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), entidade pública de direito privado que administra 30 dos 50 hospitais federais universitários. Em 2013, o conselho da UFRJ vetou. "A Ebserh não resolve. Não traz dinheiro novo. Não vou esconder os problemas, temos de discutir com a sociedade", disse o diretor Eduardo Côrtes.

O hospital recebe R$ 4 milhões mensais do Sistema Único de Saúde (SUS). Côrtes diz que, com investimento de R$ 170 milhões, é possível fazer uma reforma completa e aumentar o número de leitos de 230 para 760 a 800. Segundo ele, o MEC barrou, em 2014, a transferência de R$ 7 milhões para a reforma de uma ala. O ministério informou que os recursos estavam disponíveis desde fevereiro, mas só foram solicitados em novembro, fora do prazo. "Não posso aceitar essa resposta", protesta Côrtes.

Roberto Leher é contra o contrato com a administradora de hospitais. Denise Pires defende discussão sem veto a nenhuma alternativa. Presidente da Ebserh, a médica Jeane Michel rebate os argumentos contra o contrato. "É uma empresa pública, com recursos do Tesouro. Não existe privatização."

Mais problemas. A situação alarmante do hospital é o mais urgente, mas não o único problema da UFRJ, a 12.ª melhor avaliada no Índice Geral de Cursos do MEC de 2013, entre 228 instituições. Uma visita à Cidade Universitária mostra, em meio a alguns prédios novos, esqueletos como o edifício que deveria abrigar o curso de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social e outras unidades de ensino, com salas e laboratórios.

A obra, de R$ 38,1 milhões, deveria estar pronta desde 2014. Segundo a UFRJ, a construção parou porque o solo era mais resistente do que o previsto.

No câmpus da Praia Vermelha, na Urca (zona sul), chamam a atenção duas piscinas quase vazias, cobertas de lodo e lixo. Ficam ao lado do Palácio Universitário, prédio neoclássico do século 19 que abriga a Capela São Pedro de Alcântara, danificada por incêndio em 2011.

A universidade contratou emergencialmente uma empresa para rescaldo e pesquisa arqueológica da igreja. Em março de 2013, iniciou a restauração do palácio, investimento de R$ 50 milhões que dependerá da disponibilidade de recursos, em ano de graves restrições orçamentárias do ajuste fiscal.

Pró-reitora de Graduação até o início da campanha eleitoral, Angela Rocha diz que, em 2014, foram retidos R$ 70 milhões em recursos federais para a universidade. O contingenciamento deste ano ainda não foi informado. O orçamento aprovado é de R$ 438,4 milhões, o que não inclui pagamento de pessoal, atribuição do Tesouro. Ao menos metade do recurso é destinado a serviços terceirizados, como limpeza, manutenção, vigilância e portaria. Em março, a falta de pagamento da empresa de limpeza levou à paralisação dos empregados terceirizados e adiou o início das aulas do dia 2 para o dia 16.

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