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Mães e pais de meninas

Não é incomum os novos pais de meninas ouvirem de parentes e conhecidos que têm sorte porque 'criar meninas é mais fácil'

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 03h00

O que esperamos e desejamos quando aguardamos a chegada de um filho? O que nos aflige nesse período? As angústias são diversas: “Terá saúde boa?”; “Irei passar muitas noites em claro por causa dele?”; “Será uma criança que outros adultos irão gostar de ter como companhia?”; “Serei uma boa mãe, um bom pai?”; “Vou dar conta de cuidar e de ser totalmente responsável por uma criança?”. E por aí vão muitas outras questões.

Mas, lá no fundo, temos algumas convicções, muitas vezes até um pouco escondidas de nós mesmos: temos certeza de que não iremos repetir erros conhecidos de outras mães e outros pais, de que nossos filhos terão uma educação exemplar e serão educados. Nesse período, o filho esperado é idealizado, tanto quanto a imagem da mãe e do pai que aquelas pessoas virão a ser. Cabe lembrar que, na atualidade, todo tipo de preocupação cabe muito bem a futuros pais. Afinal, vivemos tempos difíceis por diversos motivos, mas o principal deles é que não temos tradição para vislumbrar como agir diante de muitas das questões que as crianças nos trazem.

É a tecnologia com todos os seus recursos disponíveis, é o mundo virtual, o submundo virtual, as relações um tanto quanto competitivas e intimidantes entre colegas de escola, é a vida urbana com suas violências que acaba por aprisionar as crianças em móveis e imóveis, é o consumismo, são as doenças adultas em crianças e por aí vai. Mas há uma parcela de pais ou de futuros pais que tem motivos para ter preocupações além de todas essas que são comuns a todos: as mães e pais de meninas. Sim, em pleno século 21, ainda constatamos que a vida é mais dificultada para mulheres. E isso começa bem cedo, quando elas ainda são bem pequenas.

Tanto no universo familiar quanto no escolar, ainda valem muitos estereótipos: das meninas, por exemplo, espera-se que, nos primeiros anos escolares, sejam mais comportadas e tenham rendimento que lhes permita serem chamadas de “boas alunas”. Já dos meninos a expectativa é de que sejam mais inteligentes, entretanto, mais indisciplinados e desorganizados.

Não é incomum os novos pais de meninas ouvirem de parentes e conhecidos que têm sorte porque “criar meninas é mais fácil”. Entretanto, na prática, essa premissa não se comprova. A aparência e o corpo motivam muito mais dificuldades para as meninas. Muitas “piadas de mau gosto” ou “brincadeiras de mau gosto” – o que será isso, afinal? – são enfrentadas por um grande número de meninas que tem um corpo ou uma aparência diversa ao modelo social e cultural em vigência. “Ah! Mas isso vale para os meninos também”, você pode dizer. Sim, vale também, mas a incidência é bem maior no universo das meninas.

E quando chega à adolescência... Aí a coisa pega. Sim: da mesma maneira que muitos pais pensam no futuro dos filhos, pensam também em como será a adolescência deles, trajetória para a vida adulta. Das meninas, podemos afirmar que muitas delas correrão o risco de serem chamadas de “vagabundas” e de outros termos mais pesados ainda porque escolheram usar uma determinada vestimenta ou porque se comportaram de certo modo. E até, muitas vezes, sem nenhum outro motivo que não seja o fato de ser mulher.

Algumas delas, as que decidirem lutar pela equidade social de mulheres e homens, poderão também ser chamadas de “feminazi”, termo pejorativo que caracteriza extremistas feministas. Mas será extremismo querer que o mundo em que vivemos ofereça oportunidades equivalentes a homens e mulheres?

Precisamos lembrar principalmente da violência contra a mulher, que é uma das maiores evidências de que há uma grande desigualdade entre homens e mulheres, no mundo e em nosso País.

Sim, os pais de meninas têm muitos motivos para ter cabeça quente. Mas é preciso lembrar que somos nós, os adultos, que sustentamos essa situação. Vale ver o vídeo de uma organização norueguesa que trabalha com direitos de mulheres.

Vamos nós, mães e pais de meninas e de meninos, buscar construir um mundo melhor para todos? 

*É PSICÓLOGA

 

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