Valeria Gonçalves/ Estadão
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Toda escola precisa ter um planejamento para discutir e combater o machismo

Os homens e as mulheres são diferentes, mas não um superior ao outro

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2021 | 05h00

Uma escola mineira publicou mensagem em sua rede social criticando o tipo de roupa que as mulheres usam e que deixam à mostra o que não deveriam - roupas curtas ou decotadas, por exemplo -, o que, segundo a postagem, torna a mulher uma sedutora com culpa maior que a do homem que foi seduzido por essa visão. Já no Reino Unido, escolas que atendem crianças a partir de 4 anos (!) têm aplicado a política de meninas usarem shorts por baixo da saia para se defenderem de abusadores.

Entramos em um túnel do tempo e voltamos várias décadas, ou mesmo séculos? Essas duas situações nos convidam a pensar sobre o assunto. A palavra “gênero” assusta muita gente, mas trata-se de algo bem simples. Existem as características biológicas das pessoas que as tornam homens ou mulheres, e a isso damos o nome de sexo. Gênero é a construção social que se atribui aos sexos.

Como assim? Vejamos: certamente seus pais e seus avós - todos os seus ascendentes - viveram em épocas que davam ao homem e à mulher perfis bem diferentes dos que temos hoje. O homem já foi considerado o responsável único para prover a família, já foi reprimido em suas emoções, já foi considerado “dono” da mulher. A mulher já foi considerada inferior ao homem, habilitada somente aos trabalhos domésticos, já foi posse do pai e do marido. O espaço público era o reino do homem, o espaço privado o da mulher.

Com o avanço da sociedade e de lutas sociais, hoje falamos em equidade de gênero - o que significa que a mulher deve ter os mesmos direitos que o homem - e não, como pensam muitos, que é igual ao homem. São diferentes, sim, mas não um superior e outro inferior. Exemplos: mulheres devem receber o mesmo salário que os homens quando realizam a mesma função, a mulher deve ter a mesma chance a alcançar cargos de liderança onde trabalha.

Ainda não acontece isso: uma pesquisa do IBGE mostrou que, apesar de a diferença salarial entre homens e mulheres variar de acordo com a atividade, em média a mulher recebe 20,5% a menos que o homem em nosso País; dados do Ministério da Economia mostram que elas ocupam 13,9% cargos de diretoria, por exemplo.

Voltemos às duas situações do início. Vivemos em uma sociedade machista há séculos. Essa mentalidade persiste até hoje, o que explica as duas situações escolares. Culpar a mulher que é vítima de assédio sexual é prática antiga. Afinal, ao homem sempre foi dado o papel de sujeito da própria sexualidade, e à mulher o de ser seu objeto. 

Precisamos repensar nossa cultura no que diz respeito às relações de homens e mulheres. E nisso a escola tem papel fundamental. Toda escola precisa ter um planejamento para refletir com seus alunos os valores sociais e culturais. A questão das roupas, por exemplo, deve ser discutida com alunos e alunas - o que usar no trabalho, no espaço público ou privado etc.

Notícias de assédios, estupros, abusos sexuais não faltam na imprensa, e isso precisa ser discutido com o alunado. Por que ensinar à aluna como se comportar ou se vestir e não ensinar ao aluno o respeito às mulheres e seu comportamento com elas?

Temos muito o que avançar para diminuir a violência contra as mulheres, de todos os tipos. Já passou o tempo em que a mulher era considerada posse do homem!

O machismo está em homens e mulheres. Se você tem filhos e/ou filhas, não importa, tem o dever de prepará-los para uma vida pessoal e social respeitosa com as mulheres. Para o mundo ser melhor e os filhos terem chance de uma vida boa, eles precisam de nós para se tornarem melhores do que nós!

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLA

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