Nilton Fukuda/Estadão
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Má fama lá fora

Dados internacionais sobre educação provocaram reações inéditas no exterior

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 03h00

Não só o ambiente e a Amazônia queimando têm causado impacto negativo na imagem do Brasil lá fora. Dados internacionais divulgados sobre educação provocaram reações inéditas no exterior na semana passada. A editora do mais prestigiado ranking de universidades do mundo comentou o resultado do Brasil este ano dizendo que “a crescente hostilidade do governo atual em relação à educação superior inspira pouca confiança”.

Não que o Brasil tenha tido um resultado sofrível, até aumentamos o número de instituições nacionais na lista da revista britânica Times Higher Education (THE). As novatas – muitas delas federais, como a de Alagoas e do Espírito Santo –, no entanto, estão abaixo das mil melhores. 

A Universidade de São Paulo (USP) continua sendo a primeira colocada do País e da América Latina, mas aparece apenas na posição nomeada pelo ranking como 251-300. A THE enumera as primeiras 200 melhores colocadas, depois disso agrupa as universidades em blocos. As três campeãs são Universidade de Oxford, Instituto de Tecnologia da Califórnia e Cambridge, mas o ranking destaca o crescimento das instituições asiáticas, que deixam o mercado cada vez mais competitivo. 

Para a editora do ranking, Ellie Bothwell, a posição das universidades brasileiras está prejudicada pelas “constantes questões de financiamento e a falta de uma estratégia de ensino superior”. A THE leva em conta indicadores como ensino, pesquisa, citações de artigos científicos e internacionalização. 

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, que já comparou ex-presidentes à cocaína, afirmou que Ellie foi “deselegante”. E ainda não viu muito mérito na sétima colocação do Brasil entre os países que mais aparecem no ranking, puxado pelas universidades públicas. Ele disse que isso se deve apenas ao tamanho da população.

Outro documento internacional também da semana passada mostrou o baixo número de brasileiros com pós-graduação comparado aos países desenvolvidos. O Education at a Glance, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostra que só 0,8% da população do País tem um diploma de mestrado, quando a média nas nações do grupo é de 13%. A OCDE considera o número “muito baixo” mesmo levando em conta que o mestrado brasileiro é mais longo que muitos oferecidos no exterior.

No doutorado, o índice é de 0,2% no Brasil e 1,1% na média dos países desenvolvidos. Mas nos Estados Unidos, por exemplo, é de 2%. Desde abril, o governo federal vem divulgando uma série de cortes que chegou a 11 mil bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Também nesta semana que passou, o MEC recuou e avisou que 3 mil delas deixariam de ser congeladas e serão destinadas a cursos bem avaliados. 

Pesquisadores dependem de bolsas de mestrado e doutorado para trabalhar ou manter seus laboratórios funcionando. Um país depende dessas pessoas para desenvolver inovações para a economia e para a sociedade futura, deixa claro o relatório da OCDE. Sem elas, paramos no tempo. 

É claro que a educação brasileira tem problemas incontáveis e um dos mais graves é o fato de crianças saírem da escola sem aprender nada. E que, quando o cobertor é curto, precisamos focar no mais urgente. O problema é que parece que não há cobertor, estamos passando frio no corpo todo. 

O MEC não investe no ensino superior, tão importante para o desenvolvimento do cidadão e do País, mas também não anunciou até hoje programa para melhorar o ensino básico, com destinação de verbas, cronograma, ações. É bom lembrar que R$ 54 milhões para colocar militares em 0,15% das escolas do País não pode ser chamado de política pública. 

*RENATA CAFARDO É REPÓRTER ESPECIAL DO 'ESTADO' E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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