Luis Fernando Veríssimo: coisas que eu queria saber aos 21

Escritor diz que sua vida social era limitada pela timidez, que era pior do que é hoje

Estadão.edu,

25 Março 2014 | 03h00

"Aos 21 anos eu estava retomando pé no Brasil, depois de quatro anos morando com a família nos Estados Unidos, onde tinha cursado o "high school". Estava tentando convencer meu pai que eu não podia continuar estudando, pois a readaptação a uma escola brasileira seria impossível. Consegui, mas como, por um preconceito incompreensível, não queriam um vagabundo dentro de casa, me botaram a trabalhar no departamento de arte da Editora Globo. Meu pai tinha trazido um carro dos Estados Unidos e, na direção do flamante Chevrolet Bel Air, tive a minha fase de playboy, que durou pouco, por absoluta falta de jeito e de apoio familiar.

Era louco por cinema e, sem diploma em nada e sem nenhuma vocação aparente salvo um discutível "jeito para desenho", eu me imaginava fazendo alguma coisa ligada a cinema em Londres, como diretor ou como vendedor de pipoca, se veria na hora. Cinco anos depois eu daria o primeiro passo para realizar este sonho: pegaria um ônibus e iria para o Rio, onde ganharia dinheiro e seguiria para Londres. Não ganhei dinheiro, me casei e voltei para Porto Alegre, onde me convidaram a fazer um teste como "copydesk" num jornal, e onde cheguei a fazer até o horóscopo - mas essa é outra história.

Nessa época, eu lia por prazer muito mais do que hoje. Me lembro de passar noites inteiras lendo. E era um leitor omnivoro, lia de tudo. Minha vida social era limitada pela timidez, que então era muito pior do que é hoje. O que não me impedia de ter uma vida sexual ativa. O sexo oposto, na época, se dividia em duas categorias: meninas "família", na presença das quais eu era o que se chamava de um "bicho do mato" completo, e meninas que davam, embora não fossem exatamente meninas de programa, e pelas quais eu invariavelmente me apaixonava - e elas não ficavam sabendo.

Na minha curta fase de playboy motorizado eu bebia muito. Me lembro que o máximo de depravação a que nos entregávamos era desmanchar Melhoral na Cuba Libre, na esperança de um barato que nunca vinha. Fui salvo de me tornar um alcoólatra pelo meu horror a ressacas. Tinha ressacas terríveis, e resolvi parar de beber para não morrer em alguma manhã de domingo engasgado pelo meu próprio vômito. Fora o sonho de fazer cinema eu não tinha a menor ideia do que iria ser na vida. O engraçado é que 56 anos depois continuo não tendo."

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